Com sete horas de duração, espetáculo O Idiota propõe experiência (quase) sem fim

Maratona teatral: temporada de O Idiota vai até o dia 19 em SP - Cacá Bernardes/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Os fatores que atravessam o espectador durante uma ida ao teatro são determinantes da experiência artística que ele terá.

No caso da adaptação paulistana da diretora Cibele Forjaz para O Idiota, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), esses fatores dialogam, ironicamente, com o mote do espetáculo de quase sete horas de duração.

No que a diretora chama de “rito teatral explícito”, o público se locomove pelos vários cantos do velho casarão da Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, onde vê o desenrolar das cenas da novela russa traduzida por Paulo Bezerra e adaptada por Aury Porto.

A história gira em torno do príncipe pobre Míchkin. Aury Porto encarna o personagem que, em um ambiente de corrupção, apresenta um altruísmo bem ambíguo.

Ele volta a São Petersburgo após ir à Suíça para tentar se livrar da epilepsia e acaba envolvido com duas mulheres: a madura e sensual Nastácia Filíppovna (Luah Guimarães, numa entrega generosa à personagem) e a jovem provocativa Aglaia (uma correta Beatriz Morelli).

Destaques ainda para Luís Mármora, como o bêbado General Ívolguin, e o jovem Freddy Allan (conhecido do grande público por ter feito na infância o Zequinha do Castelo Rá-Tim-Bum), que protagoniza uma poética cena de nudez total.

Na primeira parte da encenação, que dura três horas, há mais dinamismo. O público, envolto no clímax proposto, nem percebe o tempo passar. Contudo, na segunda, baseada em repetitivos diálogos, a falta de ação faz despertar o cansaço. Na terceira e última, um Carnaval de marchinhas surge como uma tentativa de abrasileiramento da obra, quem sabe para encontrar alguma cumplicidade com o público, já sem disposição para a folia.

Desde a hora em que o espectador decide embarcar nesta aventura até o momento em que sai à rua, de madrugada, a pergunta que ele se faz é se tudo isso faz parte da experiência artística proposta ou se é uma coincidência sentir-se tal qual o protagonista da obra que acabou de ver.

O Idiota – Uma Novela Teatral
Avaliação: regular
Quando: sábados, domingos e segundas, às 18h. Até 19/03/2012.
Onde: Oficina Cultural Oswald de Andrade (r. Três Rios, 363, Bom Retiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3221-5558)
Quanto: grátis (entradas distribuídas no local apenas às sextas, a partir das 18h, mas é preciso chegar duas horas antes para garantir um par por pessoa)
Classificação: 14 anos

Sete coisas que você precisa saber antes de ver O Idiota

1 –
Não adianta chegar uma hora antes achando que vai conseguir ver. Porque não vai. Os ingressos são distribuídos, gratuitamente, apenas às sextas (dois por pessoa, para as sessões de sábado, ou domingo ou segunda), a partir das 18h30. Mas é preciso chegar no mínimo às 16h, quando já tem gente na fila.

2 – É bom levar um amigo tagarela para a fila do ingresso. Ou então um livro de Dostoiévski. Porque demora. O único jeito de livrar-se do martírio é mandando a avó buscar, já que idosos tem prioridade. Irmã grávida também serve.

3 – Coma bastante antes de ir ou leve seu lanchinho escondido na bolsa. Senão, vai passar fome.

4 – Chegue com antecedência. Porque, como dura praticamente sete horas, a peça começa pontualmente às 18h.

5 – O primeiro intervalo é o maior. Acontece após três horas de peça e dura 30 minutos. Dá tempo de ir correndo banheiro e, depois, ao supermercado em frente para comprar qualquer coisa que mate a fome (para quem pulou a dica 3). O segundo intervalo dura só 15 minutos. Só dar para beber água, ir ao banheiro e voltar correndo.

6 – O pequenino café expresso vendido no prédio, nos intervalos, custa R$ 3.

7 – Não adianta pensar que vai dar para ir embora de transporte público. Porque não vai. A peça termina à 1h, quando não tem mais ônibus nem metrô. Para piorar, o ponto de táxi em frente fica deserto. Portanto, ou você convida alguém que tenha carro ou se aventura pelas ruas do Bom Retiro em busca de um táxi.

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21 Resultados

  1. Giuseppe Oristanio disse:

    Miguel! A conclusão que se chega ao ler suas dicas para ver o espetáculo é a seguinte: tem que ser MUITO APAIXONADO para encarar a maratona para ENTRAR e a saga para SAIR. Não deixa de ser uma aventura…rs

  2. Stefani disse:

    eu acho que é muito tempo para se ver uma peca. nao tem necessidade disso tudo!

    • Miguel Arcanjo Prado disse:

      Eu também acho que poderiam ter cortado um pouco. Sete horas é demais. Cinco estaria de bom tamanho, não [risos]?

  3. Kauê disse:

    Eu fui ver essa peça e gsotei muito. É claro q a gente fica cansado porque demora demais, mas acho que valeu a pena. nao daria regular, daria bom! abracos e parabéns pelo blog.

    • Miguel Arcanjo Prado disse:

      Kauê, que bom que você gostou da peça. Imagine só se os atores sofressem sete horas e ninguém gostasse. Tadinhos! Obrigado pelo carinho.

  4. Paloma disse:

    miguel, eu gostei de sua crítica. parabéns!

  5. Gabriel Oliveira disse:

    Miguel, também gostei muito da sua crítica. Fui assistir este espetáculo e achei um absurdo ter ponto de táxi em frente ao centro cultural SEM táxi!!! Muito comprometimento por parte da produção do espetáculo com o público, não?!

  6. aury disse:

    olá miguel! sobre o cansaço. há cansaços e cansaços. há o cansaço que exige a superação pela persistência como um maratonista precisa, que exige um atletismo afetivo no caso do teatro; há o cansaço pelo desinteresse que é totalmente compreensível; há o cansaço pela falta de resistência, sobretudo nos sedentários da urbe… eu me cansei com o saudosismo desse filme O ARTISTA que está em cartaz. não via a hora de acabar. já me cansei com peças de meia hora, me canso com shows de axé. teatro tem muito mais a nos dar do que só entretenimento. aliás, como mero entretenimento ele é bem mais pobre do que um parque aquático, um bar, um cinema… com isso que escrevo eu não estou rebatendo suas impressões que, como tal, nem podem nem ser rebatidas. são suas impressões, certo! o que faço aqui é dialogar sobre o cansaço. porque esta é a velha questão de peças longas. e eu sou versado em peças longas. já fiz sete. quanto aos diálogos repetitivos, vc realmente já estava cansado. hahahaha! não há ironia nisso que escrevo, viu. eu acho até bonito o ator que pode acalentar alguém que dorme de tanto cansaço na frente dele. mas, eu posso te mandar o texto e conversamos mais sobre os diálogos dostoievskianos. vc vai ver que ele é pai da teledramaturgia. abç.

  7. Lauro disse:

    Medir o espetáculo por fatores externos a este é realmente um caso a se pensar.”O Idiota” propõe questionamentos teatrais e um mix de linguagens e segmentos transformadores da cena. O Espetáculo é de fato um Rito, uma mistura completamente pertinente e pensada de possibilidades interpretativas e de encenação. Qualquer pessoa tem o direito de não gostar, confesso que em algumas partes também questionei a necessidade, mas precisamos sempre tomar cuidado para não lançar um ponto de vista as vezes superficial sobre a obra. O público é de fato, mais inteligente do que parece e aumentar o nível das análise críticas sobre o espetáculo torna-se fundamental para a construção de um teatro brasileiro de qualidade. Onde está a análise técnica? Qual foi a pesquisa que fizeram até chegar ao resultado? Há mais coisa a ser dita do que ressaltar o preço do cafezinho.

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