Com hippies no Ibirapuera, Hair se despede de SP

Sem tempo para ser careta, em busca da paz e do amor: se o musical original era no Central Park, em Nova York, a montagem paulistana de Hair se encerra neste fim de semana no Ibirapuera - Foto: Guga Melgar

“Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais.”

Os versos de Como Nossos Pais, canção de Belchior imortalizada por Elis Regina, parecem feitos sob medida para definir o musical Hair, assinado pelos tarimbados Charles Möeller (direção) e Claudio Botelho (versão), que encerra temporada paulistana neste fim de semana, no Auditório Ibirapuera, com ingressos esgotados.

A mais famosa dupla dos musicais brasileiros conseguiu dar fôlego novo ao histórico texto de Gerome Ragni e James Rado e às músicas consagradas compostas por Galt MacDermot, como Aquarius e Deixa o Sol Entrar.

A remontagem do clássico que estreou em um pequenino teatro nova-iorquino, em 1967, e logo ganhou a Broadway, em 1968, tem cara e vida própria. Se a história por si só é ótima – uma tribo de hippies nova-iorquinos, dentre os quais um, Claude, é convocado para lutar na sanguinária Guerra do Vietnã –, o mesmo se pode dizer de parte do elenco escolhido em uma audição que reuniu 5.000 candidatos – em um exaustivo trabalho de casting capitaneado por Marcela Altberg.

Visto em 2010, Hair ainda mexe com nossos brios juvenis. Dá vontade de ter sido como nossos pais – ou avós – já que os jovens dos fins dos anos 60 hoje colecionam cabelos brancos. Vontade que vem daquela rebeldia contra o “sistema” exposta no palco, cheia de uma gana de viver uma vida utópica. Uma vida idealizada e, como tudo que é idealizado, difícil demais para ser real para sempre.

Os jovens no palco de Hair mostram que um dia a humanidade – ou pelo menos parte dela – já tentou ser menos egoísta e mesquinha. Desejou transformar o prazer em forma de vida. Mas esse caminho de liberdade extrema cobrou mais tarde seu preço. E aqueles jovens cabeludos e doidões educaram filhos caretas.

Culpa dessa própria geração libertária que, após abrir mão de carreira, dinheiro e canudo por uma felicidade utópica e, talvez, não alcançada, resolveu ensinar a seus descendentes o amor pelo vil metal, casado à tal história de “subir na vida”.

Hair mostra maturidade da Aventura Produções – responsável por musicais que encheram os olhos das plateias brasileiras no últimos tempos, como A Noviça Rebelde e O Despertar da Primavera, isso para ficar só em dois bons exemplos. Profissionais tarimbados cercam a montagem de força e brilho, como a luz psicodélica de Paulo César Medeiros, que embala as viagens daquela tribo, ou o metaforicamente abandonado cenário de Rogério Falcão, que abriga sonhos e decepções.

Ironicamente, a volta dos hippies de Hair é regida pelas regras do mercado. Remontado há pouco tempo diante de um Central Park lotado, o texto mostrou que ainda tinha (muito) fôlego para lotar grandes teatros mundo afora. E os produtores, como não são bobos, logo trouxeram a turma do “paz e amor” de volta. Os corpos malhados dos atores brasileiros da temporada atual denotam a subserviência aos padrões, que vai de encontro ao discurso proposto pela obra.

Se estamos hoje menos utópicos e mais pé no chão do que a geração de 1968, aquela que não terminou, como definiu Zuenir Ventura, ainda temos (pelo menos alguns) uma sede de felicidade, liberdade e justiça social – sem bandeiras de um partido político, que fique bem claro.

De olho neste sentimento persistente, Möeller e Botelho fizeram questão de manter muito do Hair original: a interação com a plateia, as coreografias bem trabalhadas – assinadas pelo competente Alonso Barros – e até o emblemático e não gratuito nu frontal do elenco ao fim do primeiro ato, apesar de não mais chocar como há 40 anos.

O diretor musical Marcelo Castro ressaltou nos arranjos a competência vocal do elenco, já que as canções são executadas ao vivo acompanhadas por uma banda no palco.

O elenco da montagem carioca se deu melhor do que o da montagem paulistana. Mantido, Hugo Bonemer dá a exata medida da solidão e busca de alguma certeza que vive seu personagem, o jovem Claude, convocado pela pátria para matar vietnamitas. Já Kiara Sasso, que entrou na temporada paulista, não se dá bem como a jovem grávida Jeanie, que no Rio foi brilhantemente interpretada por Letícia Colin. Kiara passa do ponto na caricatura, o que destoa do tom proposto pela obra. Bruna Guerin, mantida do elenco carioca, reforça a veia cômica que se alia à sua beleza loira em uma construção caricata, porém interessantíssima, da careta mãe de Claude.

Outro destaque tanto no Rio quanto em São Paulo é Reynaldo Machado [que deixou a montagem nesta última semana], que mostra uma voz de cair o queixo, além de toda a beleza e força negra no palco, na pele de Hud. Para completar, Carol Puntel, a doce filha mais velha do capitão Von Trapp de A Noviça Rebelde, ressurge interessantíssima como aquela garota idealista que ia mudar o mundo, como cantou Cazuza.

E, por falar em Cazuza, quando o pano cai em Hair, com o público e elenco cantando juntos no palco Deixa o Sol Entrar, dá vontade de sair por aí gritando: “Ideologia, eu quero uma pra viver!”

Hair
Avaliação: bom
Quando: sábado, às 21h; e domingo, às 19h. Até 29/4/2012
Onde: Auditório Ibirapuera, no parque Ibirapuera, SP
Quanto: R$ 20 (ingressos esgotados; haverá fila na porta, no horário da apresentação, para vender ingressos de desistentes)
Classificação: 14 anos

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2 Resultados

  1. tiego disse:

    eu nao consegui ingresso e queria que continuasse por favor!

  1. maio 2, 2012

    […] esteve em cartaz até o fim do mês com o musical Hair, no Teatro Shopping Frei Caneca e no Auditório Ibirapuera, em São […]

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