Musical O Violinista no Telhado acerta ao trazer universalidade a drama do povo judeu

José Mayer deixa de lado o "pegador" da TV para incorporar pai judeu tradicional - Foto: Guga Melgar


Por Miguel Arcanjo Prado

Esquadrinhar a intimidade de um povo por meio da arte serve de ferramenta para aproximá-lo de forma afetiva do público, seja este um leitor ou um espectador. E é isso o que consegue o escritor judeu ucraniano Salomon Naumovich Rabinovich (1859 -1916) com sua obra, Tevye, o Leiteiro, adaptada ao teatro musical sob o nome O Violinista no Telhado, em cartaz em São Paulo no imponente Teatro Alfa.

O acerto da adaptação brasileira feita pela dupla Claudio Botelho e Charles Möeller é imprimir universalidade ao texto, que apresenta o cotidiano de uma aldeia judia nos rincões do Império Russo, durante o início da perseguição a este povo no raiar do século 20 e que teria seus piores capítulos com a ascensão de Hitler e os horrores do Holocausto praticado na Segunda Guerra Mundial.

Como se nota pelo enredo, o musical se difere de seus pares mais solares, apresentando um uma dramaturgia mais densa e nada festiva, o que o torna exceção às produções do gênero.

Grata surpresa nos palcos, José Mayer se despe do galã “pegador” da telenovela para assumir o conservador patriarca judeu Tevye, casado com Golda (a afinada Soraya Ravenle), e pai de mulheres que lhe darão um bocado de trabalho durante a obra, sobretudo a que se apaixona por um russo, rompendo a tradição do casamento arranjado entre judeus.

Nesta celebrada e desafiante volta aos palcos, Mayer demonstra estar à altura do personagem que lhe propuseram fazer, e se entrega desmedidamente ao judeu leiteiro, impressionando a plateia com seus números de canto rústico, mas afinado.

Ao construir um retrato do comportamento judeu, ainda mantido até os dias de hoje pelos mais tradicionais, o musical acerta em explicitar também os muitos preconceitos que marcam a cotidianidade desse povo, como a proibição de casamento com quem não comungue o sangue e a fé.

O espetáculo, no Brasil sob acertada direção musical de Marcelo Castro, tem libreto de Joseph Stein e traz canções com letras de Sheldon Harnick e música de Jerry bock, além das corografias originais assinadas por Jerome Robbins, adaptadas com competência por Janice Botelho. Claudio Botelho assina a versão para o português, e Charles Möeller, seu inseparável parceiro, a direção da produção brasileira da Aventura Entretenimento em parceria com a Conteúdo Teatral.

O soturno cenário de Rogério Falcao reforça o medo e a perseguição que chegava aos judeus na Europa oriental rústica pré-Guerras. Os trabalhados figurinos de Marcelo Pies, em tons pasteis, situam os personagens neste tempo e espaço um tanto quanto descolorido da história.

Os três casais jovens nos quais o fluxo dramático da história é centrado têm desempenhos condizentes com o proposto. Rachel Rennhack e André Lodi, Malu Rodrigues e Nicola Lama, e Germano Pereira e Julia Fajardo trazem a plateia para dentro dos anseios de mudança e ruptura representados pela juventude de seus personagens.

Os 43 atores foram um conjunto coeso e regular na maior parte do tempo, colaborando para a unidade do espetáculo.

Já distante do clima de 1964, quando foi lançado na Broadway, o musical peca pelo simplista discurso que demoniza os russos, apresentados como algozes do povo judeu – algo que vinha a calhar ao clima da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética da época de seu lançamento.

Outro aspecto que prejudica a obra é a correria com que o andamento cênico passa por cima das cenas de maior contorno dramático. A impressão que se tem é que o musical quer abarcar tanta coisa que não há tempo para o sentimento e, diante de tal urgência, os atores entram algumas vezes em um automatismo que empobrece a interpretação. Afinal, trata-se de um musical, onde o show não pode parar.

Um Violinista no Telhado
Avaliação:
Bom
Quando: Quinta, 21h; sexta, 21h30; sábado, 17h e 21h; domingo, 17h. Até 15/7/2012
Onde: Teatro Alfa (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo, tel. 0/xx/11 5693-4000)
Quanto: R$ 40 a R$ 200
Classificação: Livre

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9 Resultados

  1. Amanda Cavalcanti disse:

    Adorei a critica, só o nome da atriz é que é Soraya Ravenle, e não Revnle… Beijos!

  2. Carl disse:

    Só para consertar.
    A Malu e o Nicola não estavam mais no musical nesta data, quem esta em cartaz é a Karina e o Ricardo. Veja no site.

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