Com elenco afinado, comédia Pessoas Absurdas provoca riso inteligente na plateia

Ester Laccava (em cena, com Kiko Vianello) é quem rouba a cena na comédia - Foto: Luciana Serra/Div.

Fazer rir sem vulgarizar é tarefa difícil nos palcos. Mesmo assim, a comédia Pessoas Absurdas, do inglês Alan Ayckbourn, em cartaz no Teatro Jaraguá, cumpre o objetivo.

Diante do texto inteligente e mordaz, um elenco afinado pela direção de Otávio Martins garante riso inteligente ao espectador.

O enredo mostra a trajetória, financeira sobretudo, de três casais amigos (por interesse, é claro), durante três noites de Natal, cada uma delas em uma das casas, em anos consecutivos.

Como em toda festa residencial, a cozinha de cada uma das propriedades se torna o lugar principal da festa, onde os dramas cheios de graça aparecem.

O texto, originalmente ambientado na psicodélica década de 70, agora se passa nos coloridos anos 80. A trilha de Ricardo Severo, com os hits da década perdida tocando nos radinhos da cozinhas, levam os espectadores direto ao túnel do tempo. Uma ótima sacada, já que tais músicas mexem com lembranças do público acima dos 30 anos.

O figurino de Theodoro Cochrane demonstra dedicada pesquisa. Ele coloca os personagens, sobretudo as mulheres, com aquelas roupas espalhafatosas que toda tia da gente usava nas festas de 25, 30 anos atrás, achando que estavam com a vestimenta mais simples do mundo. Dá nostalgia e provoca graça.

Com o palco iluminado por Hugo Peake, Mira Andrade fez um inventivo trabalho de cenografia e constrói, magicamente, as três distintas cozinhas. As rápidas e eficientes trocas de cenário surpreendem o público. A diferença entre os ambientes ajuda a contar a história, já que o mobiliário denota o tamanho da conta bancária de cada casal.

Martins e seu elenco dão pitadas mais fortes ao comedido humor inglês, tornando o texto mais quente e próximo ao público brasileiro, povo que também tem por costume resolver suas pendengas nas cozinhas da vida.

O grande barato da obra é conseguir ser inteligente todo o tempo. Não é daquela comédia para gargalhar até perder o fôlego por qualquer idiotice dita. Não há o baixo recurso do uso do palavrão para obter gargalhada. Muito pelo contrário, as situações engraçadas surgem das situações loucas e ao mesmo tempo críveis nas quais se envolvem os personagens. Afinal de contas, a vida é mesmo absurda.

Os produtores Carlos Mamberti e Daniel Palmeira tiveram a sorte de formar uma equipe talentosa e afinada. E isso se reflete no palco.

Ao mostrar o dinheiro mudando de mãos, o texto dialoga de forma direta com o Brasil emergente de hoje, a mostrar o preconceito financeiro e o intrigante jogo de interesses da vida em sociedade.

O casal Jane e Sidney (os ótimos Fernanda Couto e Marcelo Airoldi) começa a obra ávido por subir na vida. A própria festa de Natal que eles promovem é uma tentativa de se aproximar do dinheiro dos outros convidados. Os dois são patéticos e medíocres, mas utilizam tal postura para não assustar e, como o enredo vai mostrar, atingir seus objetivos.

O outro casal é Geofrey e Eva, interpretados com competência por Kiko Vianello e Ester Laccava. É Ester quem definitivamente rouba a cena, como uma viciada em antidepressivos. A atriz conseguem desenhar a triste situação na qual vive sua personagem sem perder o tempo de humor que pede a montagem. O público ri, mas também se comove, em uma mistura de sentimentos que só grandes atrizes conseguem provocar no espectador.

Para finalizar, o casal Ronald e Marion, vividos pelos competentes  Eduardo Semerjian, como o sisudo velho rico, e Fabiana Gugli, como uma afetada e fútil dondoca, representam os ricos tradicionais que viram o furacão econômico tirar de si suas posses e sua pompa, obrigando-os a ver o dinheiro parar nas mãos de gente que desprezam. Muito parecido com o atual e esdrúxulo lamurio da “velha classe média brasileira” diante da ascensão da nova classe C ao fabuloso mundo do consumo.

Pessoas Absurdas
Avaliação:
muito bom
Quando: sextas, às 21h30; sábado, às 21h; e domingo, às 19h. Até 28/10/2012.
Onde: Teatro Jaraguá (Novotel Jaraguá, r. Martins Fontes, 71, centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3255-4380)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação: 12 anos

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