Il Viaggio leva público aos sonhos de Fellini

Comédia Il Viaggio tem elenco ajustado sob direção de Pedro Granato - Foto: Paulo Barbuto

Por Miguel Arcanjo Prado

O cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) era obcecado pelo mundo dos sonhos. Tanto que seus filmes jamais deixaram de ter poesia. Era tão fascinado que, a partir de 1960, registrou tudo o que sonhava em desenhos feitos por 22 anos e que resultaram no aclamado O Livro dos Sonhos.

O Livro dos Sonhos, de Fellini

É bem este clima que o diretor Pedro Granato conseguiu captar na montar Il Viaggio, peça com concepção de Helena Cerello que encerra temporada nesta quarta (5), às 21h, no Espaço dos Parlapatões, em São Paulo.

O texto, de um roteiro inédito do cineasta italiano escrito em 1965 e adaptado agora pelo competente Marcelo Rubens Paiva, conta a história do violoncelista Mastorna, interpretado por um corretíssimo Ésio Magalhães, que já havia demonstrado talento em Diário Baldio, com seu grupo, Barracão Teatro.

O personagem se vê à volta de um sério problema: após um acidente com seu avião, não compreende direito o mundo e as pessoas que o rodeiam. Sem passar do ponto, Magalhães consegue passar todo o aturdimento pelo qual Mastorna passa.

A encenação traz elenco ajustado. A atriz Paula Cohen embarca no humor, tanto ao fazer uma aeromoça afetada ou a celebridade do momento. Tem domínio do corpo e do tempo da comédia.

Outro destaque é Paula Flaiban, vertiginosa e visceral. Sempre que entra no palco, seja como a voluptuosa dançarina ou a apresentadora do concurso final, magnetiza olhares com interpretação frenética e segura.

Helena Cerello incorpora a aura sexy de uma aeromoça espevitada que encanta o protagonista e ajuda a manter o clima de frenesi que envolve a peça. Também estão no tempo certo Ed Moraes, que faz papeis menores, mas nem por isso menos importantes, e Paulo Federal, dono de bela voz e segurança no palco inegável.

Peça Il Viaggio - Foto: José de Holanda

A direção inventiva de Granato acerta ao promover um caos cênicos para contar a história surreal na qual Mastorna se mete. No mundo dos sonhos – ou do pesadelo – tudo é possível, e o diretor consegue extrair isso de seus atores, que usam talento em váriados papeis, e de sua montagem, que não se acovarda diante da proposta do texto. Muito pelo contrário, Granato ousa. Vai além.

E o público embarca no avião de sonho desde o primeiro instante. Segue, de olhos bem abertos, o um jogo de palavras, imagens e ações que o leva para longe da realidade e perto da imaginação solta que a arte do teatro pode propor.

O inventivo e manipulável cenário de Renato Bolelli Rebouças, Vivianne Kiritani e Beto Guilger, bem como os acertados adereços propostos por Ana Paula Oliveira, contribuem para o clima anárquico da obra. Vale menção também o trabalho da contrarregragem feita por Diego Dac e Hilton Esteves de Sousa, praticamente imperceptível aos olhos do público. Sinal de bom trabalho.

Como seu próprio nome diz, Il Viaggio é uma verdadeira viagem pelo que a mente humana é capaz de produzir, com devaneios sem necessidade de coerência, seja de olhos bem abertos ou para sempre fechados.

Il Viaggio
Avaliação: Muito bom
Quando: Quarta-feira (5), às 21h (última apresentação)
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Franklin Roosevelt, 158, Centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos

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