Lume olha para próprio umbigo em Os Bem-Intencionados, parceria com Grace Passô

Espetáculo Os Bem-Intencionados encerra temporada em SP com ingressos esgotados - Foto: Alessandro Soave

Por Miguel Arcanjo Prado

Uma companhia de teatro chegar aos 27 anos é fato que merece rufar de tambores. O Grupo Lume, de Campinas, em São Paulo, conseguiu tal feito.

Depois de lançar livro comemorando os 25 anos (veja resenha abaixo), um espetáculo também celebra tanto tempo na estrada. Os Bem-Intencionados, em cartaz até este domingo (30) no Sesc Pompeia, em São Paulo, faz parte do pacote comemorativo.

O grupo resolveu sair do conforto e estabelecer a troca ao convidar a dramaturga e diretora mineira Grace Passô para assumir o trabalho, em tom colaborativo.

Diante do mais de quarto de século que possui, o Lume assume olhar para o próprio umbigo na montagem.

Inquieta e com uma poesia mineira e universal que é típica de seu trabalho, Grace acertou em colocar a encenação em um bar, com música executada ao vivo por excelente banda.

Além do figurino inventivo de Warner Reis, a peça tem ambiente aconchegante com iluminação acertada de Nadja Naira, com variadas luzinhas coloridas no teto, com garrafas cortadas servindo de luminárias. Estas ajudam a criar clima para o despejo das angústias dos personagens. Em meio às mesas, os sete atores do Lume  – Ana Cristina Colla, Carlos Simioni, Jesser de Souza, Naomi Silman, Raquel Scotti Hirson, Renato Ferracini e Ricardo Puccetti – apresentam anseios, medos, traumas e confissões.

Os espectadores ficam no lugar de frequentadores do bar onde tudo se passa. Um grande acerto da produção é assumir o ambiente cênico de verdade, oferecendo bebida e petiscos ao público, que se esbalda com a cervejinha, o amendoim e a azeitona.

Questionamentos típicos dos artistas, como a incerteza da profissão, a necessidade de se adaptar “ao mundo capitalista” e “ter até CNPJ”, são declamados às vezes aos berros, às vezes em forma de um cochicho ao pé do ouvido. Regras internas do grupo, como a necessidade de dividir tudo “em sete partes iguaizinhas”, também ganham espaço e divertem.

O trabalho em alguns momentos poderia soar egocêntrico ou dirigido apenas à classe artística, mas acaba conquistando o público comum, movido pela curiosidade diante daquela terapia coletiva, mesmo diante da dramaturiga desconstruída.

A direção musical de Marcelo Onofri é um achado. Os músicos, Marcelo Onofri (teclado), Leandro Barsalini (percussão) e Eduardo Guimarães (acordeão) mostram virtuosismo pouco visto no teatro. Além disso, a seleção de músicas vai de Roberto Carlos a Carlos Gardel, passando por Fábio Jr. e Frank Sinatra. Inebria e entontece.

Numa brincadeira da trupe, há um falso final com My Way, de Frank Sinatra, cantado por Carlos Simioni. Se fosse tudo de verdade, nada seria mais piegas e previsível. Mas, na volta, o elenco se redime ao vociferar para a plateia, enquanto se despe: “Você vai ver o que você quer ver”.

Os Bem-Intencionados
Avaliação: Muito Bom
Quando: Quarta a sábado, às 21h, domingo, às 19h. 120 min. Até 30/9/2012
Onde: Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, Pompeia, São Paulo, tel. 0/xx/11 3871-7700)
Quanto: R$ 24 a R$ 6 (ingressos esgotados)
Classificação: 18 anos

Livro do Lume tem passagens emocionantes e divertidas

Lume Teatro: 25 Anos é o nome do livro que o grupo campineiro lança em comemoração a seu aniversário. Na verdade, eles já têm dois anos a mais de vida, mas o que vale é a comemoração.

O livro é um compilado capitaneado por Naomi Silman, com a ajuda da dedicada jornalista Carlota Cafiero, de depoimentos dos sete membros do Lume e de pessoas que passaram pelo entorno do grupo desde sua fundação.

Luís Otávio Burnier, idealizador do grupo que morreu precocemente vítima de uma infecção generalizada, é personagem frequente e marcante da obra. A passagem da morte Burnier é um dos capítulos mais tocantes.

Com farta ilustração, há vigor e alegria no livro, como o relato de uma apresentação inusitada no Cairo, no Egito, ou a passagem do grupo pelo famoso festival Fringe, em Edimburgo, na qual se apertaram em um pequeno apartamento e batalharam até conseguirem conquistar o exigente público escocês.

Obrigatório a quem acompanha o teatro brasileiro, o livro é um registro histórico de um grupo de jovens que sonhou viver de teatro. E conseguiu.

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1 Resultado

  1. julho 6, 2013

    […] peça Os Bem Intencionados (leia crítica) mostra um grupo de artistas em uma espécie de bar, onde eles apresentam números musicais e falam […]

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