Satyros dão adeus a Vestido de Noiva

O ator Ivam Cabral e a musa dos Satyros, Cléo De Páris, na apresentação de Vestido de Noiva no Teatro Cacilda Becker, SP, em agosto de 2012, mês do centenário de Nelson Rodrigues - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado

Em 2008, Vestido de Noiva foi o grande frenesi do Festival de Curitiba. Tudo por conta da montagem feita pelo grupo Os Satyros com Norma Bengell na pele da lendária personagem Madame Clessi, que contracenava com a Alaíde criada por Cléo de Páris.

Na época, uma confusão técnica impediu a estreia e Norma chorou diante do povo. Depois de muito disse-me-disse, o grupo finalmente conseguiu arrumar os aparelhos e se apresentar e arrancar aplausos efusivos do público, que emocionaram Norma, dessa vez de forma positiva.

Norma Bengell ganha abraço de Ivam Cabral em 2008 - Foto: Flávio Sampaio

Ao fim da segunda apresentação que deu certo, Norma Bengell, emocionada, disse a este repórter que “fazia parte do grupo e iria junto com ele até o fim”. Infelizmente, quatro anos depois, não é o que aconteceu.

Norma não estará na última apresentação da versão dos Satyros para Vestido de Noiva, na noite desta sexta-feira (28), no Sesc Santo André, em São Paulo. Última porque, imerso em novos projetos e por conta dos caríssimos direitos autorais, o grupo não pretende seguir com a montagem.

Como Norma está doente e em sérias dificuldades financeiras, Helena Ignez a substitui. Outra ausência sentida é de Alberto Guzik, que morreu em 2010. Ele foi substituído pelo jovem ator carioca Thadeo Ibarra.

A ousada montagem assinada pelo diretor Rodolfo García Vázquez é resultado de árdua pesquisa sobre a encenação original que revolucionou o teatro brasileiro com direção de Ziembinski em 1943, no tradicional palco do Teatro Municipal do Rio.

Apesar de se debruçar no passado, Vázquez olhou para o futuro e imprimiu linguagem própria que impressiona. A montagem foge do lugar comum para as encenações de Nelson Rodrigues. O Rio dos Satyros é gélido e pertubador.

O diretor abusa dos recursos tecnológicos, como projeções em vídeo que misturam teatro e cinema, para dar vez às alucinações de Alaíde, ainda vivida por Cléo de Páris em um papel já inscrito em sua carreira.

O diretor foi tão longe que fez o elenco dublar algumas falas pré-gravadas, talvez o maior ponto de incômodo do espetáculo. Apesar de se preocupar com esmero com a estética da encenação, percebe-se um leve descuido com o elenco, com cada ator interpretando em um registro distinto. Mas, justiça seja feita, o elenco mais jovem nada de braçadas e se sobressai.

Merece registro Phedra D. Córdoba, nossa diva do teatro alternativo paulistano, com entradas pontuais que ela faz ter graça inesquecível por ser a musa que é.

Quem ainda não conferiu Vestido de Noiva com Os Satyros tem de ver. Se está em São Paulo, a viagem ao ABC vale a pena. Porque é um espetáculo que se despede cheio de histórias para contar.

Vestido de Noiva
Avaliação: Bom
Quando: Sexta (28), às 21h (única apresentação)
Onde: Sesc Santo André (r. Tamaratutaca, 302, Santo André, tel. 0/xx/11 4469-1200)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada ou usuário do Sesc); R$ 5 (comerciários e dependentes)
Classificação: 14 anos

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