Atrizes fazem peça para esperar o fim do mundo

A Três Atos do Fim do Mundo tem montagem à beira do apocalipse - Foto: Cristina Froment

Por Átila Moreno, no Rio
Especial para o Atores & Bastidores*

A civilização sempre teve um apreço pelo fim do mundo, seja nas profecias do francês Nostradamus, no livro do Apocalipse ou no calendário maia.

Se a onda pelo fim da existência humana já invadiu os filmes Hollywoodianos, agora é a vez dos palcos também nadarem nessa mesma corrente.

A peça A Três Atos do Fim do Mundo, do diretor e dramaturgo carioca Caesar Moura, entra no mesmo barco, mas segue em outro rumo.

A história é sobre o conflito de duas atrizes, que diante do fim dos tempos, insistem encenar a peça Um Bonde Chamado Desejo, do dramaturgo norte-americano Tennessee Willians, de 1947.

Num dia tão fatídico, o último desejo dessas mulheres aparenta ser bastante incomum, mas é justamente essa casualidade que segura o espectador.

Caesar Moura foi verossímil ao mostrar ao longo da história a justificativa de as duas permanecerem ali. Uma relação que se torna um embate filosófico e contemporâneo nos bastidores do espetáculo que está prestes a começar.

Gentil (Izabella Ribeiro e Thaty Taranto) e Querida (Tati Pasquali) são atrizes de gerações diferentes, que dão vida a Blanch Dubois e Stella, respectivamente. Aparentemente, o dia do apocalipse, pelo menos para elas, não fugiria da normalidade.

Enquanto Gentil representa uma visão mais madura, crítica, niilista e ácida da sociedade, Querida é o senso comum, a opinião superficial, deslumbrada pelo glamour e jovialidade.

Ambas digladiam-se sobre temas como fé, deus, morte, família, envelhecimento e fama. Tudo somado a muita rivalidade e conflito de geração. O único ponto comum entre elas é a decadência dos seus sonhos burgueses.

A metalinguagem teatral usada pelo diretor é construída em um texto ágil, objetivo e simples, com frases de impacto, sem deixar de ser afiado e questionador.

O espectador só vai encontrar um pouco de harmonia na iluminação e no figurino. Por outro lado, a sonoplastia, que não funcionou na estreia, tão pouco trabalhou bem no segundo dia. Parece que houve repetição de trilha sonora e ainda no momento mais decisivo da trama ela não ocorreu.

O revezamento das atrizes no papel de Gentil ajuda a comprometer a construção dessa personagem. Se ao menos Izabella Ribeiro (às quartas) e Thaty Taranto (às quintas) emanassem a mesma essência de Gentil, essa diferença poderia ter sido um pouco atenuada. Só que ocorre o contrário.

Izabella Ribeiro parece interpretar de maneira mais forte e exacerbada. Thaty Taranto opta por uma dramatização mais comedida e suave, e esta sequer usa a touca que marca o visual de Gentil. E em ambas ainda os trejeitos soam caricatos demais.

Há algo nessa linguagem corporal que faz lembrar muito a personagem da atriz decadente Norman Desmond, vivida por Gloria Swansom, de Crepúsculo dos Deuses, filme do diretor norte-americano Billy Wider. Já Tati Pasquali, como Querida, abusa das caras e bocas pra dar a contextualização de uma atriz que é o reflexo da geração atual.

Aliás, Caesar Moura não deixa escapar nada de sua navalha, sobra até para os colegas do teatro, televisão e da imprensa.

*O jornalista Átila Moreno escreveu a crítica a convite do blog.

A Três Atos do Fim do Mundo
Avaliação: Regular
Quando: Quartas e quintas, às 20h30. Até 22 /11/2012
Onde: Teatro Solar de Botafogo – Espaço 2 ( r. General Polidoro, 180, Botafogo, Rio, tel. 0/xx/21 2543-5411)
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada para estudantes, professores e idosos)
Classificação: 14 anos

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