Com propostas diferentes, Atrás do Pano e Fim de Show tentam dar foco aos bastidores do teatro

A autora e atriz Luiza Jorge contracena com Gustavo Haddad em Atrás do Pano - Foto: Jonas Golfeto

Por Miguel Arcanjo Prado

O teatro contemporâneo deu espaço aos atores para construírem eles mesmos suas dramaturgias. E é óbvio que, diante de tal poder do discurso, eles falem do que conhecem melhor que todos: o seu ofício.

A cena paulistana tem tido presença constante de espetáculos repletos de metalinguagem, como Os Bem-Intencionados, do Grupo Lume, que encerrou temporada em São Paulo no fim de setembro. Outros dois ainda têm sessões na cidade: Atrás do Pano e Fim de Show. Apesar de as duas comédias abordarem mesma temática, trazem visões distintas sobre o fazer artístico.

Atrás do Pano, em cartaz no Teatro Itália, conta os bastidores de uma companhia de teatro à beira do fracasso. O texto da atriz Luiza Jorge, com direção de Marcelo Romagnoli, acerta ao estabelecer com o público logo de cara o jogo da representação dentro da representação. Contudo, no decorrer da montagem, vai apresentando uma visão reducionista do fazer teatro.

Na tentativa forçada de fazer graça, todos os lugares-comuns surgem na montagem: a estrela egocêntrica insuportável, o bonitão sem talento, o ator feio preterido da cena e o velho artista intelectualizado que se vê na obrigação de contracenar — e conviver — com essa gente.

A base do roteiro poderia até resultar em algo mais envolvente, não fosse tudo tão previsível. A obra vai se repetindo em si mesma até a exaustão.

Se Luiza Jorge, que faz a atriz afetada, parece um pouco mais à vontade — o que é óbvio, afinal, ela é a autora e produz a obra —, o mesmo não pode dizer do restante do elenco, formado por Tadeu Di Pyetro, Fábio Espósito, Gustavo Haddad, William Amaral e Cleber Tolini. Por mais que haja esforço, falta verdade.

Fim de Show consegue falar de teatro de uma forma poética e nada óbvia - Foto: André Stéfano

Fim de Show, primeiro espetáculo do Umbílicos Grupo, que volta ao cartaz no próximo dia 19, à meia-noite de sexta no Espaço dos Satyros 1, vai um pouco mais além do óbvio. Mostra quatro atores perdidos em um palco na madrugada, na dramaturgia construída pelo grupo com direção de Diney Vargas.

Não se sabe o que é verdade ou mentira no jogo que confissões que o elenco estabelece com a plateia inquieta. Afinal, é possível entrar com cerveja e petiscos à sessão. Assim, os atores tentam se virar com as reações do público – na sessão vista pelo R7 um espectador, já um pouco alto, não parava de dialogar com elenco, por exemplo. Mas os atores assumem com dignidade os imprevistos que surgem de sua proposta. E daí surge a graça.

A encenação acontece como se os artistas não quisessem abandonar o palco jamais. Restos e fracassos se transformam em poesia. No fim, o público paga quanto quiser.

No elenco, formado por Bárbara Mello, Lori Ann Vargas, Diney Vargas e José Sampaio, as mulheres se destacam. Tanto Bárbara quanto Lori Ann – que faz de seu sotaque de nova-iorquina radicada em São Paulo um charme a mais – surgem em cena com tempo cênico coeso e cativante. Estão tão simples e fortes que dominam a direção do olhar. Mesmo em seu mar de ilusão, Fim de Show tem de sobra verdade que a missão de falar de teatro em um espetáculo exige.

Atrás do Pano
Avaliação: Regular
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. Até 25/11/2012
Onde: Teatro Itália (av. Ipiranga, 244, Centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3120-6945)
Quanto: R$ 20 a R$ 40
Classificação: 12 anos

Fim de Show
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 23h59. De 19/10/2012 a 30/11/2012
Onde: Espaço dos Satyros 1 (praça Roosevelt, 214, Centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: público paga quando achar que vale
Classificação: 18 anos

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