Aos 90 anos, bailarina e coreógrafa Tatiana Leskova mostra por que é diva da dança clássica

Tatiana Leskova em As Bodas de Aurora, Nova York, na década de 60 - Foto: Maurice Seymour

Por Miguel Arcanjo Prado

Aos 90 anos de idade, a bailarina e coreógrafa Tatiana Leskova ganhou um livro à altura de sua carreira consagrada no mundo da dança.

Ballet Fotográfico – Imagens de Uma Bailarina Solta no Mundo (Editora Letradágua) traz 80 belíssimas imagens de sua carreira, organizadas por Joel Gehlen. A obra será lançada no próximo dia 30 de outubro, às 19h, na Livraria Argumento, do Leblon, no Rio de Janeiro, com a presença da bailarina.

Filha de aristocratas russos refugiados na França após a Revolução Bolchevique, Tatiana nasceu em Paris, em 1922.

Estudou com Lubov Egorova e, aos 17 anos, passou a integrar o Ballet Russo de Diaghilew.

Fez temporada de glória com a companhia em Nova York entre 1940 e 1941. Em 1944, quando dançou no Rio, quando resolveu permanecer no País.

Logo, se tornou um dos principais nomes da dança por aqui e sua trajetória passou caminhar lado a lado com a do Teatro Municipal do Rio, onde foi bailarina, coreógrafa e diretora do Ballet.

Dona de trajetória ímpar, Tatiana Leskova conversou com exclusividade com o Atores & Bastidores do R7, durante sua passagem por São Paulo, na última semana, em um bate-papo franco no qual explicou sua fama de exigente. Leia:

Miguel Arcanjo Prado – Posso te chamar de você?
Tatiana Leskova – Claro que pode. Eu até prefiro.

Miguel Arcanjo Prado – É isso mesmo. Porque artista não tem idade. Então, vamos lá. Você é mais brasileira, russa ou francesa?
Tatiana Leskova – Eu não posso dizer. Porque quando estou em Paris, quero voltar ao Brasil. Já quando estou no Brasil quero ir a Paris. Já russo é meu temperamento. Sou extrovertida, sentimental, durona e exigente com mim mesmo e com os outros.~

Miguel Arcanjo Prado – Falando em exigência, essa é sua grande fama…
Tatiana Leskova – A exigência é algo fundamental. Eu sou muito exigente, porque eu sou honesta com a dança. Tem ser honesta. Porque o profissional da dança não se vê, então precisa de outro profissional para corrigir. A gente vê e percebe os erros. Lá fora, os maiores bailarinos têm sempre um ótimo coach. Infelizmente, aqui isso aqui não existe. Um coach é mais do que professor. Ele se dedica a uma pessoa que está ensaiando. Num certo ponto, eu sou um coach, eu conheço o repertório, porque dancei muito, mas acho que hoje o pessoal acha que já nasce sabendo. não é que tenham talento, mas precisam desenvolvê-lo.

Capa do livro de Tatiana Leskova: 80 fotografias de uma trajetória ímpar

Miguel Arcanjo Prado – Por que a dança é tão maltratada no Brasil?
Tatiana Leskova – Considero a dança uma arte. O público tem que aprender a gostar, como o publico que, indo a museus, aprende a gostar de quadros e pintores. É preciso educar o público a ver dança. Hoje, há várias formas de dança, tem a dança contemporânea… Mas a palavra contemporânea não significa que possam sair por aí fazendo qualquer coisa sem uma boa base. Toda arte precisa de uma estrutura básica para depois evoluir. Esses grupos de dança contemporânea sem base são feitos por gente que não entende nada de dança. Eles acabam estragando a percepção que o público tenha da dança.

Miguel Arcanjo Prado – Do que você tem mais saudade?
Tatiana Leskova – Do Ballet Russo. Foi lá que eu aprendi tudo o que era arte. Essa é a minha riqueza. Convivi com grandes bailarinos, grandes cenógrafos, grandes figurinistas, grandes músicos. É uma herança muito grande que eu herdei e o que sempre quis foi transmitir o que eu aprendi para os outros.

Miguel Arcanjo Prado – O que alguém apaixonado pela dança precisa fazer para conseguir ser um bailarino de sucesso?
Tatiana Leskova – Primeiramente, tem de ter físico e aptidão para isso. Às vezes, a pessoa tem o físico e não tem sensibilidade. Outra coisa é ter inteligência. Tudo começa com o cérebro. Tem de ter a mente aberta para captar as coisas. A palavra talento é uma coisa única. Tem de ter facilidade para a dança. É claro que a pessoa vai sofrer dores físicas e psicológicas, de querer fazer um papel e não conseguir… Mas tem de ter a paciência de continuar lutando e trabalhando. E subir os degraus aos poucos. Alguns podem chegar lá em cima, outros ao meio, outros ao um quarto disso. Nem todo mundo vai ser primeira bailarina. Conta talento, possibilidade e sorte também. Saber aproveitar o pequeno papel e fazer dele uma coisa importante. Isso é que é uma conquista. Tem de lutar com amor e dedicação. É uma trajetória árdua, mas que, com amor, vale a pena.

 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

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