Exclusivo – Edgar Morin fala ao R7: “A unidade humana necessita da diversidade de pessoas”

Edgar Morin está no Brasil para lançar três livros no Sesc Pompeia, em São Paulo - Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Foto de Bob Sousa

Aos 91 anos, Edgar Morin é de uma simplicidade absurda. Não deixou-se envaidecer pelos mais de cem livros publicados em 27 línguas e 42 países. Números que mostram seu reconhecimento mundial.

O sociólogo e filósofo que é um verdadeiro mito dos Estudos Culturais recebeu o Atores & Bastidores do R7 para uma conversa exclusiva, realizada no fim da tarde desta segunda (29), em São Paulo.

Morin está no Brasil para lançar três livros pelas Edições Sesc SP, todos baseados em diários escritos pelo gênio das ciências humanas: Diário da Califórnia, Um Ano Sísifo e Chorar, Amar, Rir e Compreender.

Como é feitio do acadêmico sempre que está no País, ele se encontra com seus leitores em uma disputadíssima conferência gratuita nesta terça (30), a partir das 20h, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo. A palestra é intitulada Encontro com Edgar Morin: Diários de Um Caminhante.

Como os ingressos não dão conta da multidão ávida por suas sábias palavras, um telão do lado de fora possibilitará a todos acompanhar o discurso do francês. Quem estiver fora de São Paulo também poderá conferir o encontro em tempo real, no site do Sesc São Paulo.

Adaptado aos trópicos, o parisiense recebeu a reportagem vestido de camisa azul, calça preta e sandália de couro nos pés. Generoso, abandonou o francês e resolveu conceder a entrevista em uma mistura de português e espanhol, mostrando agilidade e disposição ímpar.

Leia o bate-papo exclusivo:

Miguel Arcanjo Prado – Morin, você está no Brasil para lançar três livros que são resultados de diários que você fez na vida adulta. Mas o que eu quero saber é quando você começou a escrever diários? Foi na adolescência?
Edgar Morin – Era filho único e minha mãe morreu quando eu tinha dez anos. Então, eu senti muita solidão. E não tinha com quem fazer confidências. A única possibilidade era ter um amigo de papel, um diário, para escrever meus sentimentos e ideias. Isso é uma coisa que me chegou nesses anos. Escrevi um diário com minhas leituras do mundo dos 12 até os 20 anos. Acabou quando chegou o momento de tomar a decisão de entrar na resistência francesa, com toda a ocupação nazista. E, nesse momento, sabia que era perigoso manter um diário, já que iria entrar na ação, em uma vida mais perigosa.

Miguel Arcanjo Prado – E quando você voltou a escrever um diário?
Edgar Morin – Eu voltei a escrever diário muito mais tarde, quando tinha um pouco mais de 40 anos. Fui hospitalizado em Nova York e quando saí do coma, à noite, pensei: Quais são as coisas importantes para mim? Quais são as coisas em que eu creio? Resolvi fazer uma meditação.

Miguel Arcanjo Prado – Experiências desse tipo costumam ser fortes…
Edgar Morin – E quando começou a convalescência, comecei também a sair de uma vida vegetativa e fui para a Côte d’Azur, na França. Havia sol, gente. E eu pensei em fazer um diário dessa minha regeneração. Onde falei das minhas saídas, idas ao cinema, encontro com pessoas. O livro O X da Questão – O Sujeito à Flor da Pele foi uma mistura de diário e reflexão. Quando fui convidado a ir para a Califórnia, em 1969, a convite do Salk Institut, pensei que seria bom ter um diário para registrar todas as mudanças e descobrimentos. Este é um dos livros que agora estou lançando no Brasil.

Miguel Arcanjo Prado – Morin, em seus livros, você chega à conclusão da importância das coisas simples nesta vida. É isso que realmente vale a pena?
Edgar Morin – A vida é uma mistura de pequenas e grandes coisas. Penso que anotação das pequenas coisas é importante, porque as pequenas coisas são mais próximas a nós. Para chegar a uma pequena sabedoria é preciso dar toda importância às pequenas coisas da vida. Coisas que estão longe de nós não têm importância para a gente. Não parecem tão emocionantes. Essa é a descontinuidade da vida. Passa por momentos de prazer e momentos de descontentamento. Todas essas coisas valem a pena anotar. Por quê? Porque para chegar a uma pequena sabedoria é preciso dar toda importância, além de às coisas grandes, às pequenas coisas da vida também. Nós estamos cercados de tantas pequenas coisas…

Miguel Arcanjo Prado – Você fala que estamos cercados de pequenas coisas. Eu fico pensando. Estou com 30 anos e faço parte de uma geração que vê tudo de forma fragmentada, acostumada a fazer mil coisas ao mesmo tempo, conectada no computador o tempo todo, que é diferente do comportamento que teve a sua geração, 60 anos à frente. O que você diz para esta geração – a minha – que tem sentimentos e relações tão fragmentadas?
Edgar Morin – Isso não é um problema só da sua geração. É também da minha. Eu tenho um problema: não param de chegar os pedidos de entrevistas [risos]. Para mim é uma luta permanente contra a dispersão. Quando eu estou em Paris, onde há tantas solicitações, ou como aqui, onde tantos jornalistas me pedem entrevistas, como você, eu preciso encontrar um lugar de paz e harmonia. E isso eu encontro escrevendo na Itália, na Toscana, onde há uma paisagem linda. Também já escrevi um livro no museu Solar do Unhão, em Salvador, na antiga casa de escravos, onde escrevi o Paradigma Perdido.

Miguel Arcanjo Prado – É em lugares assim que você encontra inspiração?
Edgar Morin – Para mim, a inspiração mais forte é me encontrar em um ponto alto sobre o mar. Certa vez escrevi em um velho castelo na Toscana, que tinha janelas sobre o mar, as ilhas, um lugar maravilhoso. E também tinha uma senhora campesina que me fazia uma comida que me gostava muito [risos].

Miguel Arcanjo Prado – Imagino que esta foi a melhor parte, claro… [risos]
Edgar Morin – Sim, sim… [risos]

Miguel Arcanjo Prado – Morin, aqui no Brasil teve um cantor, Cazuza, que no fim dos anos 80 cantou uma música que dizia: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Depois disso, muita coisa mudou. O comunismo acabou, veio o neoliberalismo, depois, aqui na América Latina, houve a mudança com a eleição de presidentes de esquerda, que antes eram perseguidos… Enfim, fico pensando: que ideologia ainda existe hoje? É preciso buscar alguma? A gente ainda precisa de ideologia para viver?
Edgar Morin – Ideologias não. A gente precisa de ideias para viver. E de algumas esperanças. É uma mistura de incertezas. Por exemplo, para mim: eu creio na fraternidade. É o valor mais importante para os humanos. Não é uma ideologia, é uma ideia, mas não estou seguro de que a fraternidade possa se realizar plenamente no planeta. É a questão da fé. Há uma palavra de Miguel de Unamuno [escritor espanhol] que dizia: “A vida é dúvida. E a fé sem a dúvida não é nada”. Penso o mesmo, uma mistura de dúvida e fé. Penso na fé em uma possibilidade humana de uma vida melhor. Mas é uma possibilidade, não uma certeza. Hoje, penso que não necessitamos de ideologia, mas de um sistema de ideias que passe pela ideia central do humanismo, que todos os humanos sejam um só em sua diversidade. A unidade humana necessita da diversidade das pessoas. E a diversidade necessita reconhecer a unidade humana que todos temos. A ideia do humanismo não é nova, porque vem do passado. Mas hoje é mais concreta. Antes era uma ideia abstrata, mas hoje todos os humanos têm um destino mais comum.

O escritor francês Edgar Morin conversa com o jornalista Miguel Arcanjo Prado, sob o olhar de sua agente literária Nurimar Falci, em um hotel no Paraíso, em São Paulo - 30/10/2012 - Foto: Erika Balbino

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2 Resultados

  1. Marcelo Apontes disse:

    Que privilégio hein Miguel!
    Parabéns pela entrevista.

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