Entrevista de Quinta – Gustavo Ferreira, coordenador das Satyrianas

O homem das Satyrianas sorri na praça: Gustavo Ferreira tem a missão de coordenar 316 eventos culturais em 78 horas de programação na Roosevelt, centro paulistano, entre 1º e 4 de novembro

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos Eduardo Enomoto

Gustavo Ferreira está a mil. O paulistano nascido e criado em Santana, na zona norte paulistana, e morador dos arredores da praça Roosevelt, no centro, só tem uma preocupação: fazer acontecer a 13ª edição das Satyrianas, evento teatral com mais de 300 atividades culturais em 78 horas ininterruptas, a partir das 18h desta quinta (1º) até a meia-noite de domingo (4).

Ator há nove anos do grupo Os Satyros, que criou o festival, Gustavo participa da produção das Satyrianas desde 2007 e coordena o evento desde 2009. É graduado em teatro e tem especialização em produção cultural.

Horas antes de tudo começar, ele conversou com o Atores & Bastidores do R7 para a nossa Entrevista de Quinta, em um descontraído bate-papo realizado em um restaurante da Roosevelt. Falou sobre a polêmica participação de celebridades e de como lida com tantos egos.

Leia com toda calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Às vésperas de tudo começar você deve estar louco…
Gustavo Ferreira – É muito engraçado. Ou eu não aprendo ou sou louco. Todo ano, por mais que organizemos um monte de coisa, na última hora a gente sempre fica na loucura. Para você ter uma ideia, eu fui dormir era mais de 3h30 e 7h30 já estava na praça Roosevelt para acompanhar a montagem das tendas.

Produtor Thiago Capella cola cartaz das Satyrianas

Miguel Arcanjo Prado – São quantos espaços neste ano?
Gustavo Ferreira – Na praça, que é a grande protagonista neste ano, por conta da reforma, temos quatro tendas com programação, tem uma para artes visuais, uma para o hip hop e a batalha de MCs, uma com espetáculos e literatura, e outra com shows. Além disso, vamos ter uma pequena rave na sexta à tarde com DJs. Ah, ainda haverá cerca de 30 tendas espalhadas do Mercado do Mundo Mix, com objetos e figurinos para teatro que serão vendidos ao público. Além disso, estamos com mais de 15 espaços. Só na praça, tem o Satyros 1 e 2, o Parlapatões, o Teatro do Ator e o Miniteatro. [Interrompendo] Só um segundo, posso atender o telefone aqui? [Recebe uma ligação de Rodolfo García Vázquez, pedindo para alguém levar o alvará na praça, pois o mesmo estava sendo solicitado por agentes da Guarda Municipal].

Miguel Arcanjo Prado – Pode.
Gustavo Ferreira – [Retornando] São 78 horas de programação, de arte. Esta Satyrianas reúne a maior quantidade de tribos diferentes possíveis. Começa às 18h desta quinta e vai até domingo meia-noite. O final das Satyrianas é a exibição do filme Satyrianas 78 horas em 78 minutos.

Miguel Arcanjo Prado – Bom você falar do filme. Ele é polêmico. Tem o dramaturgo Mário Bortolotto dizendo que vocês colocam os globais nos melhores horários e deixam o pessoal do teatro no fim da madrugada. Vocês “puxam saco” dos famosos?
Gustavo Ferreira – Olha, pode até colocar isso na matéria, e o Bortolotto vai brigar comigo. Ele quis foi causar polêmica. Porque inclusive o Bortolotto já abriu as Satyrianas. Então, o que ele diz ali que tais pessoas abriram não é verdade. Eu posso mostrar todas as programações e lhe mostrar que a Adriane Galisteu nunca abriu as Satyrianas. Ele participou, mas não abriu.

Miguel Arcanjo Prado – Os horários das manhãs são complicados…
Gustavo Ferreira – Eu já me apresentei às 8 da manhã. Foi em 2007. E vi uma das cenas mais lindas das Satyrianas. Era domingo, e a feira que tinha na praça estava começando. Então, eu vi os garis da rua e o pessoal da feira entrando para ver a peça.

Miguel Arcanjo Prado – É que todo mundo quer se apresentar meia-noite, né, para o coleguinha ver…
Gustavo Ferreira – Claro. Quer apresentar para os pares, para os colegas, é inegável que meia-noite você vai ter muito mais gente do que às 6h, em uma festa que se propõe a ter 78 horas. O Dramamix tirou esses horários mais inóspitos. Eram 78 textos inéditos, e este ano está com 30, para evitar apresentações no começo da manhã.

Miguel Arcanjo Prado – São quantos trabalhos artísticos ao todo?
Gustavo Ferreira – Este ano temos, com horário marcado, 316 eventos culturais. Porque tem as coisas que não tem hora marcada…

Miguel Arcanjo Prado – Desse jeito você vira secretário de cultura logo…
Gustavo Ferreira – Ainda falta fazer o mestrado e o doutorado. Quem sabe um dia? [risos]

Miguel Arcanjo Prado – E como você lida com 316 egos?
Gustavo Ferreira – Olha, é assim: tem de sorrir, ter brilho no olho e ser feliz. As Satyrianas é um evento sem verba, sem patrocínio. Tem apanas uma ajuda da Secretaria de Cultura do município. Pega o Dramamix. São 30 peças novas. Se eu pagasse R$ 1.000 para cada autor já seriam R$ 30.000. Mais R$ 1.000 para cada diretor, já seriam R$ 60 mil. Se cada peça tiver só dois atores, já somariam R$ 120 mil. Cada real vira milhares. É complicado. Ninguém ganha nada.

Miguel Arcanjo Prado – Nem a Mariana Ximenes?
Gustavo Ferreira – Nem a mariana Ximenes não vai ganhar nada. Ela foi uma linda, porque participou com a gente em 2007 e topou vir dessa vez, fazer uma autopeça. Ela topou, mesmo gravando novela, mesmo sem saber qual seria o texto.

Miguel Arcanjo Prado – Eu vi ela falando na Mônica Bergamo que não sabia o que iria fazer… Bom, mas celebridade ajuda o evento?
Gustavo Ferreira – Tudo ajuda. Nada prejudica. E me desculpa, mas quem vem para artes visuais ou para a batalha de MCs está pouco se lixando para a Mariana Ximenes. Acho que tem público para quem gosta do famoso, mas também tem atividades para outros públicos. Claro que, quando tem mais veículos falando sobre as Satyrianas, ela toma uma proporção muito grande. Quando colocamos a Galisteu em 2007, foi uma das maiores edições. E foi a partir dali que as pessoas conheceram mais o evento.

Miguel Arcanjo Prado – Não foi um erro ter colocado a Galisteu?
Gustavo Ferreira – Não foi um erro ter colocado a Galisteu, nem nenhum outro artista global que participou. Em nenhum momento peço para a Mariana Ximenes vir porque ela é global. Peço porque ela veio em 2007 e foi bacana.

Miguel Arcanjo Prado – As pessoas vêm para a Satyrianas em busca de um verniz cultural?
Gustavo Ferreira – Algumas, sim. Mas o que eu vejo mais são grupos novos, gente que quer experimentar o que elas querem dizer. A Célia Forte [autora e produtora teatral] me liga todo ano falando que já está escrevendo o texto para as Satyrianas. E é assim com muita gente. Tem muita gente nova, começando, também. Pessoas que não conseguiriam pauta em um outro lugar.

Gustavo conversa com a equipe do som das Satyrianas

Miguel Arcanjo Prado – Qual foi o maior ódio que você sentiu nas Satyrianas?
Gustavo Ferreira – Foi em 2008. Caiu a maior tempestade duas horas antes da abertura. Todos os meus cabos e tendas alagaram. A programação que tinha de começar 20h começou 23h30. O Rodolfo falou pra mim que até 6h tinha de estar tudo normal: “Encurta uma peça atrás da outra”. Fui dormir só às duas da tarde, mas a programação voltou ao normal. Só que, no outro dia, começou o horário do verão e vi que tinha duas apresentação no mesmo horário. O Rodolfo, mais uma vez, me mandou ajustar o horário! No mesmo ano, uma produtora colocou um DJ para tocar às 2 da manha. Os vizinhos ficaram com ódio, com razão. Então, eu tive de tirar o DJ da tomada. Ele me odeia até hoje [risos].

Miguel Arcanjo Prado – O que é as Satyrianas para você?
Gustavo Ferreira – É trabalho, muita arte, pluralidade em geral e loucura.

Miguel Arcanjo Prado – Porque uma boa dose de loucura é sempre bom…
Gustavo Ferreira – Como eu disse: ou eu não aprendo ou eu sou louco mesmo [risos].

Confira a programação completa das Satyrianas

Gustavo Ferreira conversa com o jornalista Miguel Arcanjo Prado em um restaurante da Roosevelt

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