Paulo Gracindo ressuscita em peça com filho e netos

Trio familiar se une para celebrar o centenário de Paulo Gracindo - Foto: Manuel Correia/Divulgação

Por Rafael Cavalcanti, do R7, no Rio

Antes de começar a dar entrevista sobre a peça Canastrões, Gracindo Júnior, simpático, define, entre várias mordidas em um apetitoso queijo-quente: “Essa não é uma história tradicional”.
 
E não é, mesmo. Não se trata de uma montagem clássica, com começo, meio e fim, onde os personagens começam de um jeito e terminam de outro.

Canastrões, em essência, é uma grande reflexão sobre o papel do ator, a importância do teatro e, de forma resumida, sobre a própria imaginação.

O nome do espetáculo é uma referência à ideia do baú que os antigos atores carregavam consigo, e onde guardavam seus objetos de cena. Esse baú era chamado de “canastra”, e daí a ideia de “canastrão”. 
 
A peça é, também, uma grande homenagem a Paulo Gracindo, grande referência de todo o espetáculo, a inspiração usada pelo filho e pelos netos para falar sobre “ser ator”.

O texto foi todo construído pelo português Moncho Rodriguez, diretor do espetáculo, com base em depoimentos de Gabriel, Pedro (netos do artista) e Gracindo Júnior (seu filho).
 
A produção é impecável, e a relação dos “Gracindos” com seus baús é explorada de forma muito interessante. O objeto serve de esconderijo, escada, apoio para sentar, ficar em pé, e vira um interessante objeto de cena – quase uma metáfora de si mesmo.

Outro ponto fantástico da peça é quando Gracindo Júnior se senta em seu baú, coloca um chapéu e começa um monólogo. Isso acontece algumas vezes, e passaria quase despercebido se o efeito especial e a interpretação não roubassem a cena: o jogo de luz, sombra e tom de voz fazem parecer que Paulo Gracindo subiu no palco por alguns momentos, tomou o lugar do filho, e está ali, diante da plateia, falando sobre si mesmo. É emocionante.
 
O texto é bem construído, mas não segue muito a linha do “teatro moderno”. Mesmo cheio de reflexão, é carregado de poesia e imagens líricas – como um sonho bonito em uma noite tranquila, por exemplo. É lindo, mas, dependendo do humor, da paciência e da expectativa do espectador, ele pode achar a coisa meio arrastada.

Canastrões é uma peça muito interessante, mas o espectador precisa ter em mente que não vai assistir uma história tradicional, com personagens tradicionais.

Há quem critique esse gênero teatral mais reflexivo em prol de um outro, mais moderno, mais objetivo e próximo da TV e do cinema. A verdade é que há espaço para tudo. Só não vale ir ao teatro esperando uma coisa e sair reclamando que não foi tão bom assim.

Canastrões
Avaliação: Bom

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