Coletivo Negro ataca racismo com discurso doce

Consciência negra: Coletivo Negro ocupa Tusp em SP até 29/11/12 - Fotos: Leandro Jorge/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Quem não tem história nada tem. E é em busca do passado, como forma de justificar a resistência no presente, que vai o mergulho do espetáculo Movimento nº 1, o Silêncio de Depois.

A obra é a primeira peça do Coletivo Negro, formado por Aysha Nascimento, Flávio Rodrigues, Jefferson Matias, Jé Oliveira, Raphael Garcia e Thaís Dias, e está em cartaz no Tusp, em São Paulo.

Assim que a plateia chega, é convidada a acomodar-se em cadeiras que formam uma espécie de arena quadrada, onde as histórias vão surgir com base na oralidade, frágil tradição de preservação da cultura negra.

Chamam logo a atenção a precisa iluminação e a cenografia de objetos, ambas assinadas por Julio Dojcsar e Wagner Antônio, que complementam o que é dito.

Em cada ponta, um ator surge com seu discurso. Vem ao centro, sempre acompanhado pela trilha percussiva, executada ao vivo por músicos virtuosos sob direção de Cássio Martins e Fernando Alabê, e dá seu recado.

Na pele de uma velha ancestral negra, Thaís Dias é quem, desde o lado de fora, recepciona a todos, entregando um saquinho com terra que será compreendido no desenrolar da montagem – num poético achado repleto de metáfora.

O enredo narrativo, iniciado por ela e continuado pelos demais, revela os horrores da desapropriação de um refúgio negro por brancos ferozes e impiedosos.

Logo de cara, o espetáculo mira o passado do tipo de arte que faz, dedicando a peça a Abdias do Nascimento (1944-2011), criador do Teatro Experimental do Negro, no Rio, e a Timochenco Webi (1943-1986), dramaturgo paulista que trabalhou com a temática.

Deusa negra: Aysha Nascimento é destaque

Os personagens passam por várias nuances do olhar negro para o racismo que, apesar de velado, ainda é tão presente em nosso País, infelizmente.  O discurso é veemente, mas a forma é doce.

Há, por exemplo, o líder negro que se ilude com valores brancos, vivido por Jefferson Matias, e também o menino negro soltador de pipa que vê sua família desmoronar, interpretado por Raphael Garcia.

Mas é a rainha de bateria, na pele da linda atriz Aysha Nascimento, dona de corpo escultural, quem vai provocar o público, com a desconstrução da sensualidade que a transforma em objeto sexual imediato.

A encenação conquista a plateia quando reforça seu lugar a partir da reconstrução e valorização do passado negro para afirmar sua resistência ao preconceito.

Contudo, em alguns momentos, peca por repetir o que condena: como quando, na fala de Aysha, reduz a relação de amor entre um branco e uma negra a estereótipos racistas, fazendo do homem branco superior socialmente apenas um aventureiro em busca de sua pele quente e rebolar sestroso.  Não poderia ser apenas amor?

É comprovado que a convivência pacífica e equilibrada entre as três raças proposta por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala não passa de um mito acadêmico. Mas também já está mais do que claro que não é preciso separar para legitimar. Muito menos atacar. Buscar a aproximação é o melhor caminho.

Como dizia Pedro Archanjo, personagem do romance Tenda dos Milagres, de Jorge Amado: “Sou a mistura de raças e homens, sou um mulato, um brasileiro, compreende?”.

Movimento Nº 1 – O Silêncio de Depois
Avaliação: Bom
Quando: Quarta e quinta, às 21h. 60 min. Até 29/11/2012
Onde: Tusp (r. Maria Antônia, 294, Consolação, São Paulo, tel. 0/xx/11 3123-5233)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos

Um sorriso negro: a turma do Coletivo Negro faz pose no Tusp - Foto: Elcio Silva/Divulgação

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