Entrevista de Quinta – Débora Duboc, atriz

Débora Duboc apresenta comédia de Pirandello no Sesc Bom Retiro (SP) - Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

A atriz Débora Duboc comemora os cinco anos do espetáculo O Homem, a Besta e a Virtude, comédia do italiano Luigi Pirandello (1867-1936).

Depois de rodar teatros Brasil afora, sempre com casa lotada, a peça volta a São Paulo neste sábado (24), no Teatro do Sesc Bom Retiro, em temporada popular até 16 de dezembro. Professores e alunos da rede pública de ensino têm entrada gratuita (saiba mais).

Débora recebeu o Atores & Bastidores do R7 na sede da produtora Olhar Imaginário, que ela mantém com o marido, o cineasta Toni Venturi, nos Jardins, em São Paulo. O casal tem dois filhos, Theo, 12, e Otto, 6.

A atriz nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, em 4 de maio de 1965. Formada em artes cênicas pela Unicamp (Universidade de Campinas), tem longa trajetória nos palcos – já ganhou importantes prêmios como o Shell e o APCA –, além de ter feito cinema e TV, onde foi a empregada Olga, na novela Passione, de Silvio de Abreu.

Nesta Entrevista de Quinta, Débora falou sobre o espetáculo e a carreira. Leia com toda calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Como é conseguir comemorar cinco anos em cartaz com uma peça?
Débora Duboc – O Gabriel Miziara, o Fernando Fecchio e o Thiago Adorno, que estão em cena comigo, são ótimos atores. Como o Marcelo Lazzaratto fez a primeira direção, em cima da concepção que eu tive, acabei apertando mais a porquinha nesses anos. Quis montar essa peça porque achei que ela era um portal para os atores. Com o tempo, a interpretação ficou mais azeitada. Mas sou uma atriz rigorosa. Gosto do projeto original. Não gosto que a coisa vá virando uma bagaceira [risos].

Débora com o elenco da comédia de Luigi Pirandello

O Cacá Carvalho esteve este ano no Sesc Bom Retiro com um texto de Pirandello. E agora você vai para lá com o mesmo autor. Por que resolveu trabalhar este texto?
Estava procurando um texto popular. Queria ampliar meu público, falar com todas as idades. Eu me apaixonei pelo texto porque via possibilidade de trabalhar a dramaturgia do ator. O Pirandello trabalha muito o dilaceramento do eu. A peça do Cacá é isso elevado a mil. E, nessa peça, que é passagem da primeira fase para a terceira fase da carreira dele, quando ele enfia o pé na metalinguagem, tem essa coisa do eu. Ele fala que é impossível viver em estado de sinceridade.

Porque todos usamos máscaras o tempo todo…
Isso. Ele acha que a gente cria máscaras para poder sobreviver. Nessa peça, que é para a família inteira, todo mundo ri, mas também há muito conteúdo, porque não conseguiria fazer uma peça tipo “Quatro na Cama”. É um Nobel da Literatura, mas é popular.

É um Pirandello para cima…
O Pirandello escreveu esse texto em um ano em que ele estava bem. Porque ele teve uma esposa que sofria de doença mental e perdeu todo o dinheiro, o filho foi para guerra, enfim, era tudo muito barra pesada. Só que no ano que ele escreveu esta peça, a esposa foi internada e o filho voltou da guerra. Então, ele estava numa boa fase na vida e retomou a comédia dell’arte.

É verdade que o Paulo Autran não queria que você montasse?
O Paulo Autran me questionou na época. Falou “para que você vai fazer este texto? Faz Vestir os Nus, que você será protagonista absoluta”. Na época falei para ele que queria um texto de feira, no qual todos os atores protagonizassem, por conta da questão da dobra de personagens em um mesmo ator. É uma lupa no dilaceramento do eu do Pirandello, porque nós somos vários. E o Pirandello traz a questão da educação. Tudo a gente aprende: a ser hipócrita, violento ou afetuoso. A grande questão hoje da humanidade é a educação. O Antunes Filho diz que a educação só por si não basta. Temos de juntá-la à arte. Porque a educação pode ser extremamente fascista, como a que nós vivemos na ditadura militar. Quando a gente une a educação e a arte, a gente abre um portal libertário. Eu falei para o Paulo que queria falar de tudo isso, porque tenho dois filhos e a gente tem de tentar mudar esse mundo!

A peça teve apenas outra montagem no Brasil, com Fernanda Montenegro e o Teatro dos Sete, em 1962. Você trabalhou com a Fernanda em Passione, vocês trocaram figurinhas sobre a peça?
O tempo todo. A geração deles é brilhante. A turma do Teatro dos Sete era incrível, o Sergio Britto, o Fernando Torres, a Fernanda Montenegro, o Gianni Ratto… Eu digo muito para a Fernanda que tenho inveja da geração dela, que vivia de bilheteria e fazia teatro a semana inteira com casa lotada. Hoje, a gente gasta cinco meses para montar a peça, e ela fica em cartaz pouco mais de um mês!

Até o boca a boca começar a peça já acabou…
Isso mesmo! O boca a boca precisa de pelo menos três meses para acontecer. Mas, com essa peça, eu consegui isso. Sempre lotamos todas as salas onde fomos. Na peça eu faço homenagem ao Teatro dos Sete, com fotos deles no cenário. E também tem foto da Marilena Ansaldi, porque faço teatro por causa dela.

Débora Duboc como Olga, em Passione, novela de Silvio de Abreu em 2010 - Foto: Rafael França/Globo

Como foi para você fazer TV?
A TV é o grande espetáculo popular que a gente tem. Acho que foi na hora certa. É incrível quando a gente se desapega das expectativas. Eu fiz escolhas, tive filho e quando eu achava que ele estava plantadinho, tive outro. A TV veio no momento em que eles já estavam crescidos.
A Olga começou pequena e cresceu demais. No final da novela era virou a grande antagonista da Clara [Mariana Ximenes]. Minha vida virou uma loucura, porque gravava de segunda até a madrugada de sábado para domingo. Teve semana que tinha um dia só para vir para São Paulo.

Como rolou o convite?
Quando o Silvio de Abreu me convidou, eu nem acreditei. Ele me falou que iria me colocar no núcleo dos bambas, que tinha Fernanda Montenegro, Cleide Yáconis, Elias Gleizer, Tony Ramos, Irene Ravache, Aracy Balabanian, Emiliano Queiroz… Eu falei : “Silvio, você está me colocando no Olimpo, é muito deus por metro quadrado!”.  Mas foi a Cleide Yáconis quem me apresentou para o Silvio de Abreu.

A Cleide está internada. Deus abençoe que ela melhore logo.
Sim, Deus abençoe. Ela é fogo na roupa. Gosta de viver! Eu assistia a Cleide fazendo Péricles, do Ulisses Cruz, quase todo dia. Aí, um dia ela foi me ver em Senhorita Else. Eu quase desmaiei! Uns três dias depois, ela me liga e diz: “É a Cleide Yáconis”. Aí ela falou que havia ligado para o Silvio de Abreu e dito a ele que ele precisava me conhecer. Desatei a chorar!

E a Cleide lhe ajudou depois?
Passione foi uma coisa tão especial na minha vida. Foi onde pude trabalhar com a Cleide. Ela falou para mim, no primeiro dia, que eu não poderia perder uma frase. Ela me disse: “Fernanda poderá jogar várias frases fora, mas você, minha querida, não perca nenhuma frase. Principalmente as silenciosas. Porque você terá muitas. E nunca seja descritiva. Quero você uma atriz narrativa”.

E você segui o conselho?
Guardei isso comigo. O Silvio sempre me colocava em cena, nas discussões da família, e eu não tinha fala. Mas aconteceu uma coisa legal, com isso de ser narrativa. Eu ficava em cena e contracenava com tudo que estava acontecendo e a câmera acabou vindo em mim com o tempo e a personagem foi crescendo. O público foi querendo saber quem era aquela mulher. Eu até me emociono. Teve uma cena forte minha que a Fernanda foi tão generosa, que o diretor falou que queria um close na minha emoção. Ela falou que iria junto só para contracenar comigo e me ajudar. Ela ficou do lado da porta, contracenando comigo e meio que me dirigindo, me mandando eu chorar mais. Eu chorava tanto, e acho que era mais pela emoção de contracenar com ela.

A Fernanda é realmente uma pessoa muito generosa. Lembro-me que, quando estava para lançar o blog, encontrei-me com ela no Teatro João Caetano, no Rio, e pedi uma declaração para o post de estreia. Lembro-me que ela parou tudo e fez questão de falar comigo, quando soube que era um espaço novo para o teatro na internet.
Ela e a Cleide têm isso. Elas são operárias do teatro. Digo que elas são jovens há mais tempo, porque são ligadas em tudo e muito profissionais. No estúdio, eram sempre as primeiras a estarem prontas e vinham com o texto estudado, cheio de observações em caneta. Elas jamais apenas decoram um texto. Elas o estudam frase por frase. São grandes atrizes.

Fazer TV ajudou sua carreira no teatro?
Esse espetáculo eu já tinha o parceiro antes de fazer a TV, que é a Pirelli. Foi a seriedade do meu trabalho que me trouxe um excelente parceiro como patrocinador, como é a Pirelli. Mas quando terminei Passione e saí para uma turnê, a TV me ajudou a divulgar muito e a atrair público. Eu percebi o quanto era importante essa popularidade que a TV dá para atrair o público ao teatro. Tive uma experiência muito legal com a TV, porque a Denise Saraceni gosta de ator. A TV me deu noção de indústria, a possibilidade de um exercício diário com a câmera.

O que você diz aos jovens atores que se espelham em você?
Não gosto dessa coisa quando vejo meninos não querendo ser atores, mas querendo ser famosos. Isso é outra coisa. A Fernanda Montenegro mesmo fala quando a perguntam o que tem a dizer a um jovem ator: “Desista”. Depois, a Fernanda diz “que se você não conseguir respirar, aí você volta e entra na carreira e vai ser um profissional do teatro”. Hoje, existe uma ilusão. Quem quiser ser só famoso vai sofrer muito, porque vida de ator não é fácil. Eu sou privilegiada porque vivo do que eu faço e posso escolher o que fazer.

Mas isso não foi da noite para o dia…
Sim, foi um caminho muito difícil até aí. Por exemplo, fiz agora uma peça com o Paulo José, morei oito meses na casa dele, mas tive de deixar dois filhos aqui em São Paulo. O Toni é um companheiro e pai maravilhoso, mas não é fácil. As pessoas não podem ter preconceito com a TV, mas também não podemos ser iludidos. Não dá para ser levado pelo canto da sereia. Tem que ser como Odisseu, atravessar o babado, mas ter marinheiros com tampão no ouvido e a gente amarrado no mastro para não se jogar. Porque é muito fácil ser seduzido por essa coisa de celebridade. Mas tudo isso passa. É ilusão. O que fica é a luta diária, a batalha, o ralar pesado. Não é?

Atriz Débora Duboc fica em cartaz no Bom Retiro até 16 de dezembro - Divulgação

O Homem, a Besta e a Virtude
Quando: 24 e 25/11; 1º, 2, 8 e 16/12. Sábado, 19h; domingo, 18h. 80 min. Até 16/12/2012
Onde: Sesc Bom Retiro (al. Nothmann, 185, São Paulo, tel. 0/xx/11 3332-3600)
Quanto: R$ 16 (inteira) e Grátis para estudantes e professores da rede pública, maiores de 60 anos e comerciários e usuários do Sesc e dependentes)
Classificação: 12 anos

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1 Resultado

  1. abril 26, 2013

    […] no local duas horas antes, dois por pessoa. A peça é estrelada pela atriz Débora Duboc (leia entrevista com ela). A primeira versão da peça no Brasil foi protagonizada por ninguém menos do que Fernanda […]

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