Fantasmas de família perversa ganham o palco no espetáculo Um Verão Familiar, da Cia. dos Inquietos

Com ajustada atuação, o ator Ed Moraes se destaca no espetáculo - Fotos: Gustavo Porto

Por Miguel Arcanjo Prado

Todo mundo tem seus fantasmas escondidos. E a maioria deles costuma vir da infância, de casa. Freud explica.

É partindo desta premissa que o espetáculo Um Verão Familiar, escrito por João Fábio Cabral, ganha vida pela Cia. dos Inquietos, com direção de Eric Lenate.

A peça tem apenas mais duas apresentações no Teatro Alfredo Mesquita, em Santana, São Paulo, nesta terça (27) e quarta (28), sempre às 21h. Vale a pena conferir.

No palco, uma família perdida no tempo é atormentada pela figura de um pai que é a representação do abuso, da violência e da repressão.

O déspota do lar convive com a mulher serviçal, o filho delicado demais para o gosto paterno e a jovem filha, mergulhada em uma infantilização psicótica fruto dos constantes abusos sexuais que sofre do pai. Ou seja: o lar é praticamente o inferno na terra.

Um Verão Familiar apresenta um elenco ajustado pelo jovem diretor Eric Lenate - Foto: Gustavo Porto

A encenação mistura realidade com as memórias do filho, o jardineiro Júlio, envolto nas desgraças familiares. Ed Moraes mostra-se um intérprete vigoroso apesar do comedimento proposto pela direção, afundado boa parte da peça em num tonel de água, representação apropriada do mar de tristes lembranças que insistem em afogá-lo.

Lenate, sempre cuidadoso com a forma das coisas – ele assina a também contida cenografia –, brinca com a iluminação de Aline Santini, que esconde os personagens num jogo de luz e sombras.

O diretor também faz os atores brincarem com as palavras – outra de suas assinaturas que, dessa vez, encontra, pelo menos em grande parte dos momentos, elenco capaz de colocar a proposta em prática sem que a força da atuação se perca.

O texto, repleto de palavras repetidas, é dito, sobretudo por Ed Moraes, de forma rápida e baixa, como se não provocasse emoção. O recurso, que vai de encontro à força dramática do que se passa, funciona como uma espécie de metáfora do personagem, que, diante de tanta violência cotidiana, parece ter se resignado e perdido a capacidade do espanto.

A atriz Lavínia Pannunzio vive a mãe, que mergulha nas tarefas domésticas como forma de ocultar a verdade de seus olhos. A intérprete busca um lugar de surto constante para compor esta mulher sofrida e sem esperanças. O texto provoca ao colocar essa mãe não no papel de heroína, mas no de cúmplice egoísta do horror que se passa a seu redor, apesar de também ser vítima. Ela quer seu marido a seu lado, mesmo que isso signifique cegar-se diante das atrocidades por ele cometidas.

Renata Guida, por sua vez, faz a filha mergulhada num mundo infantil, como se aprisionar-se ali fosse uma forma de fugir da constatação dos abusos adultos que sofre do pai, interpretado por João Bourbonnais, que consegue passar um ar tirânico que deixa a plateia incomodada – ponto para o ator.

Lenate, que contou com a assistência de direção de Diego Dac, busca uma estética clean para essa história repleta de cores fortes, como nos ajustados e sóbrios figurinos de Rosangela Ribeiro ou na delicadeza melancólica da trilha original do piano de Fernanda Maia e o violoncelo de Beatriz Navarro.

Contudo, alguns momentos pontuais fogem dessa direção, como a frenética imagem da surra que o pai dá no filho, com luzes coloridas projetadas e música pop no volume máximo – o que lembra solução semelhante encontrada pelo diretor Nelson Baskerville na cena em que o pai espanca o jovem filho homossexual no espetáculo Luis Antonio – Gabriela. Outro momento que destoa do todo é aquele em que o pai dança freneticamente, numa sugestão de um falso final, o que poderia realmente ter acontecido.

Lenate, com a ajuda dos vigorosos intérpretes reunidos, consegue deixar o espectador cara a cara com a solidão na qual está mergulhado cada ser daquela família, apesar da convivência mútua. De forma delicada, o público adentra o cotidiano perverso do lar não tão doce. O diretor conta a história de forma sensível e sem necessidade de recursos baratos para comover o público.

O espectador mais inteligente entende logo de cara a mistura de lembranças, realidades e tempos na narrativa fragmentada da encenação. Assim, o arroubo no final soa um tanto quanto forçado, pela necessidade didática de sublinhar algo já entendido.

Mas isso não prejudica o todo da obra. Um Verão Familiar é um feliz encontro entre Lenate e os intérpretes vigorosos da Cia. dos Inquietos, sob comando de Ed Moraes, em prol de libertar os fantasmas que nos atormentam. E a melhor forma é realmente esta: expô-los para que possam ir embora de vez. Se é que isto é algo possível.

Da esq.: Lavínia Pannunzio (a mãe); João Bourbonnais (o pai) e Renata Guida (a irmã) - Foto: Gustavo Porto

Um Verão Familiar
Com Cia. dos Inquietos
Avaliação: Muito bom
Quando: Terça e quarta, 21h. 80 min. Até 28/11/2012
Onde: Teatro Alfredo Mesquita (av. Santos Dumont, 1770, Santana, Metrô Carandiru, São Paulo, tel. 0/xx/11 2221-3657)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação: 16 anos

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Você pode gostar...

1 Resultado

  1. Obrigado pela presença e pelas palavras, Miguel Arcanjo! Abraço,
    João

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *