Sem rede de proteção

 

“O teatro não tem rede de proteção”, Cléo De Páris – Foto: Eduardo Enomoto

Por Cléo De Páris*
Especial para o Atores & Bastidores

Sempre nas entrevistas tem essa pergunta: qual a diferença entre teatro, cinema e televisão? A resposta pode ter mil explicações, são veículos diferentes, o teatro é onde o ator tem mais domínio, a troca com o público é incrível… Eu concordo com tudo isso e discorreria um tempão falando dessas diferenças, dos abismos que separam as linguagens. Mas nunca me fizeram essa pergunta.Porque, primeiro, não sou famosa, segundo, não faço tanto cinema e fiz pouca televisão. Se me perguntassem, eu sei o que diria, eu diria assim: o teatro não tem rede de proteção.

É preciso amar o risco pra escolher ser um ator de teatro, um diretor de teatro, um figurinista, um cenógrafo, um contra-regra, um bilheteiro. é preciso abandonar coisas, estar naquele lugar naquela hora que o jornal indica e não importa se 1.000 pessoas vão sair de suas casas pra ficar numa sala escura fechada esperando maravilhas de você ou se serão 5 pessoas. Não importa.

Importa que você vai sair de sua casa nesse dia, durante meses, nessa hora, com vontade ou sem, gripado, triste, preocupado, aflito, desiludido, você vai sair no meio de uma tempestade ou na noite mais linda da primavera, vai desligar a TV, apagar as luzes, pegar um ônibus, vai dizer oi pra seus companheiros, vai sentar na bancada, transformar seu rosto, vestir uma roupa que nunca estará no seu guarda-roupa, mas que fará parte da sua vida pra sempre, e vai fazer de um tudo pra maravilhar 1.000 pessoas ou 5 pessoas.

E você só tem aquela chance, nunca mais. O outro dia vai ser outro, serão outras as pessoas, será outra sua energia, pode quebrar o zíper do vestido, pode faltar luz, pode inundar a cidade, pode dar tudo mais certo, pode dar tudo mais errado, nunca se saberá, o momento é só agora, o teatro é só agora.

Meus amigos próximos não gostam muito de ir em estreias minhas. Eu sei como é, fica aquela vontade de que tudo dê certo, de que as pessoas gostem, de que o amigo mesmo goste e saiba o que falar. Mas tenho um amigo que não vai nunca a meus espetáculos! “Por que?”, eu quis saber. “Porque eu sinto medo por você”, ele disse, “parece que vou te ver com a cabeça na boca do leão, vou ficar tenso demais”.

Entendi, claro, e não cobro sua presença, apesar de ser ele um amigo muito especial. Ele vê meus filmes, que já estão prontos há tempos, vê coisas que saem na mídia a meu respeito, provavelmente leia esse texto, mas na hora da peça, ele sabe que se eu escorregar do trapézio, não terei rede. Ele sabe que alguém pode atender o celular, que um bêbado pode invadir o palco, que o salto do meu sapato pode quebrar (como já quebrou!) que a cortina do cenário pode cair (como já caiu!)…

Ele sabe e eu sei que é um completo absurdo o que eu faço, que é estranho uma pessoa não ter fim de semana, Páscoa, Carnaval, trabalhar doente, ter medo de chorar na hora que não pode, ter medo de não chorar na hora que precisa, ter medo de branco, de soluço, de gaguejar. Mas ele também sabe e eu também sei que não seria feliz sem tantos sonhos e que eles, os sonhos, não precisam de rede de proteção.

*Cléo De Páris é atriz. Ela também tem um blog. Leia! 

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