Entrevista de Quinta: Mel Lisboa defende a Boca do Lixo e a pornochanchada da sociedade conservadora

Mel Lisboa volta aos palcos de São Paulo com Cine Camaleão – A Boca do Lixo (Foto: Divulgação)

Por Bruna Ferreira, do R7

A pornochanchada brasileira teve seu laboratório em uma região de São Paulo conhecida como “A Boca do Lixo”, nos arredores dos Campos Elísios, Bom Retiro, Luz e Santa Efigênia.

O apelido que tenta descrever a região, que nas décadas de 1960 e 1970, era cheia de crimes e prostituição, também dá nome ao espetáculo teatral da Cia. Pessoal do Faroeste, com Mel Lisboa no elenco.

Cine Camaleão – A Boca do Lixo é a flor no lodo, a mostra de que a produção cultural ultrapassa os limites dos liceus e está também nas ruas, em meio à marginalidade, ao horror e ao caos.

A peça retrata a chegada das primeiras produtoras de cinema na região. O espetáculo escrito por Paulo Faria conta a história de Wanda Scarlatti (Mel Lisboa) que quer financiar um filme, desde que protagonize uma cena de sexo explícito. Ela chama Tony Reis (Roberto Leite) para conduzir a produção.

Tony não quer participar da pornochanchada e tenta se aproveitar da situação. O drama trata conflitos humanos destas personagens e consegue trazer um questionamento sobre a sociedade conservadora, que mesmo marginalizando, não consegue reprimir o surgimento de novas linguagens, diferentes, bizarras, perturbadoras, mas tão legítimas quanto todas as outras formas de arte.

Mais uma vez em sua carreira, Mel Lisboa encara os desafios de brincar com o erotismo e mexer com ideias pré-concebidas. Em entrevista ao blog, ela falou sobre o espetáculo.

Leia com toda calma do mundo.

 R7 –  Como você contribuiu na construção da sua personagem?
Mel Lisboa — Eu ajudei a fazer o texto. Ela tem uma coisa de vingança com uma atriz que existiu de verdade, a Wanda Marchetti, atriz de teatro, de cinema, foi da Companhia Procópio Ferreira. A Wanda Scarlatti teria sido filha da camareira da outra, então, a motivação maior da vida dela é ridicularizar, escandalizar a imagem da Wanda Marchetti. Ela vai interpretar a outra em seu próprio filme de sexo explícito. A sua vontade é humilhar a outra.

 R7 – O que você acha do apelido que a região ganhou. A Boca do Lixo faz justiça ao que era produzido na época?
Mel — Eu acho que é uma forma pejorativa de tratar o lugar e a produção. Assim como é tratada a própria pornochanchada no Brasil. Até hoje, aquele lugar é meio à margem mesmo, uma zona em que toda hora tinha assassinato, tinha um corpo, prostituição, crime. Hoje, ainda é assim. É a Cracolândia. A gente está lá, sozinhos, com um multidão de traficantes, que ficam traficando na nossa cara. É uma região pesada, mas o termo Boca do Lixo para a produção é pejorativo. Muita coisa boa foi feita lá.

 R7 –  O grupo vai continuar trabalhando junto após o fim desta temporada?
Mel — A gente vai continuar a pesquisa sobre a Boca do Lixo mesmo, mas vamos sair da época do cinema para a década de 1950. Na época em que proibiram as prostitutas de ficar lá, conhecido como o quadrilátero do pecado, com prostituição e crime. A gente vai fazer um bang-bang, uma faroeste no teatro. Eu vou atuar e a gente vai começar a ensaiar para já estrear em abril.

 R7 – Você completou 31 anos, recentemente. Mudou a forma como você se relaciona com o seu corpo e escolhe os seus trabalhos?
Mel — Eu acho que sim. Quando eu fiz a Anita [Presença de Anita, 2001], eu não tinha qualquer consciência do que é expor o corpo. Não tinha consciência de que a exposição mexe tanto com a cabeça das pessoas. Hoje em dia, eu prefiro limitar um pouco. Não que eu não faça, seria muita hipocrisia, mas acho que é preciso ter um bom motivo. Já mostrei meu corpo na TV, no cinema, na Playboy, mas eu sei que as pessoas têm preconceito, eu percebi isso até estudando sobre as atrizes da Boca do Lixo, da pornochanchada, que sofreram um preconceito imenso por mostrar o corpo. A sociedade brasileira é muito conservadora, hoje eu tenho mais noção.

 R7 – E como está conseguindo conciliar a agenda profissional com as tarefas de mãe [Mel Lisboa tem dois filhos, Bernardo e Clarice]?
Mel — Ah, nem eu sei [risos]. Cada semana é de um jeito! Hoje o Felipe [marido de Mel] pode ficar, tem dia que eu fico, tem dia que preciso ligar para a Nina ficar com eles. A Nina cuida de todo mundo aqui em casa, só que como ela não dorme aqui, preciso avisar com antecedência. Só não sei como vai ser quando eu começar minha próxima novela [risos].

Cine Camaleão – A Boca do Lixo
Quando: Sextas e sábados, às 21h30; domingos, às 19h30. Até 10/2/2013
Onde:  Sede Luz do Faroeste (r. do Triunfo, 305, Metrô Luz, São Paulo. 75 minutos. tel. 0/xx/ 11 3362-8883 ou 11 8249-9713)
Quanto: Antecipados R$ 40. Com uma hora de antecedência, pague o quanto puder
Classificação etária: 16 anos

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