Marília Pêra é o grande trunfo do musical Alô, Dolly; parte do elenco jovem escorrega na caricatura

Miguel Falabella e Marília Pêra: ele abre espaço para ela brilhar – Foto: Paula Kossatz

Por Miguel Arcanjo Prado

Miguel Falabella fez Alô, Dolly! com o coração. Afinal de contas, foi por conta deste musical, que ele assistiu aos oito anos no Teatro João Caetano, no Rio, que resolveu se tornar artista.

Quis o destino que fosse bem sucedido na profissão ao ponto de 47 anos depois poder atuar e dirigir o mesmo espetáculo que embalou seus sonhos de menino.

Falabella, que fez a tradução do texto de Michael Stewart e a versão das músicas de Jerry Herman para o português, foi astuto ao escolher sua companheira de cena. Chamou Marília Pêra, uma das grandes atrizes do País, para viver o papel título da casamenteira nova-iorquina na produção de Sandro Chaim.

A personagem, com sua maladragem e tentativa astuta de sobrevivência dialoga com o Brasil e seu famoso jeitinho. Dolly arranja a vida dos outros, por meio de casamentos afortunados, enquanto tenta também traçar para si um caminho de vitória sem que ninguém perceba, muito menos seu pretendente, o caipira Horácio, interpretado por Falabella.

Marília é o grande trunfo de Alô, Dolly! – Foto: Paula Kossatz

E é Marília o grande trunfo da superprodução em cartaz no Teatro Bradesco, em São Paulo. A atriz surge em cena com um respeito que só as grandes têm pelo palco. Apresenta uma personagem bem construída, divertida e com uma leveza cênica pouco vista.

No quesito musical, Marília também demonstra maturidade ao escolher com comedimento a forma como canta.

Conhecedora de seus limites, vai no caminho certo para executar as notas propostas pela competente orquestra de 16 músicos sob a batuta dos maestros Carlos Bauzys e Daniel Rocha.

Com vigor físico impressionante para os 70 anos completos no começo do ano, Marília demonstra ser bailarina dedicada, ao exibir técnica e destreza nas coreografias junto do jovem elenco de ensembles.

Marecem ser citados: Carla Vazquez, Ingrid Gaigher, Karin Hills, Mariana Saraiva, Maysa Mundim, Thati Abra, Alê Limma, Arízio Magalhães, Daniel Cabral, Fabio Yoshihara, Guilherme Pereira, Ivan Parente, Jefferson Ferreira, Leandro Marbali, Marcel Anselme, Thiago Pires e Ygor Zago.

A bem desenhada e empenhada coreografia assinada por Fernanda Chamma é outro trunfo do musical e, inclusive, poderia ter sido mais aproveitada. Em algumas cenas, o incômodo vazio que toma conta do palco poderia ter sido preenchido com o competente time de bailarinos.

Aos 70 anos, Marília dança no palco como se fosse uma jovem bailarina – Foto: Caio Gallucci

Como diretor, Miguel Falabella segura o ator para deixar Marília Pêra brilhar. E ainda demonstra vontade de fugir do “personagem Miguel Falabella” na construção do caipira Horácio Vandergelder.

Apesar de escorregar algumas vezes (ora o personagem diz um mineirês “com cê” e em outras, um carioquíssimo “contigo”), o ator consegue segurar seus vícios na maior parte do tempo, e também conquista a plateia.

Elenco jovem derrapa

Se o Miguel Falabella diretor acertou ao deixar Marília dominar a cena, o mesmo demonstrou pouca firmeza com parte do elenco de jovens atores.  

Alessandra Verney, Brenda Nadler, Ester Elias, Frederico Reuter e Ubiracy Paraná do Brasil parecem unidos na tentativa de construir personagens caricatos que mais parecem saídos de uma péssima montagem infantil. Cheios de trejeitos desnecessários e muitas vezes irritantes, eles mais parecem saídos de um vagão do metrô do humorístico Zorra Total do que de um musical da Broadway. Faltou à direção dizer a eles que, muitas vezes, menos é mais.

Mas há salvação no elenco jovem: Thiago Machado surge mais experiente e convincente como o caipira Ambrósio, e Ricardo Pêra, o filho de Marília, também acerta o tom divertido de seu personagem, Rudolph Reisenweber.

Patrícia Bueno, como a velha aristocrata Ernestina Ricca — que está a cara da diva do teatro alternativo paulistano Phedra D. Córdoba —, demonstra maturidade no domínio do tempo cômico; por isso, também se destaca.

Apesar de alguns atropelos, Alô, Dolly! cumpre com a função de entreter o público. E também de realizar o sonho do menino Falabella que, generoso, colocou o foco nesta montagem no talento de uma grande atriz chamada Marília Pêra.

Marília Pêra em cena de Alô, Dolly!: estrela do sonho de Falabella – Foto: Paula Kossatz

Alô, Dolly!
Avaliação: Bom
Quando: Quinta, às 21h; sexta, 21h30; sábado, 18h e 21h30; domingo, 18h. 160 min. (intervalo de 15 min.). Até 2/6/2013
Onde: Teatro Bradesco (1.439 lugares) – Bourbon Shopping São Paulo (rua Turiassu, 2.100 – 3º piso – Pompeia, em São Paulo, tel. 0/xx/4003-1212)
Quanto: R$ 20 a R$ 200
Classificação etária: Livre

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