Crítica: Parceria de Veronese com Grupo Espanca!, O Líquido Tátil expõe força do encontro teatral

O Líquido Tátil, do Grupo Espanca!, de BH, está em cartaz no Sesc Pompeia, em SP – Foto: Guto Muniz

Por Miguel Arcanjo Prado

A obra do diretor Daniel Veronese é uma das mais importantes do teatro argentino contemporâneo. Por isso, é mais do que acertada a ideia que Grace Passô e os meninos do Grupo Espanca!, de Belo Horizonte, tiveram ao convidá-lo para uma parceria, que resultou na encenação mineira da obra O Líquido Tátil, com texto e direção do próprio Veronese, em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo. O espetáculo ainda participa do Festival de Curitiba, que começa na próxima semana.

A obra do argentino – que dialoga com mestres universais como Tchekhov – sempre traz em si algo intrínseco ao ambiente intelectual portenho e o teatro que este produz. Teatro que dialoga com aquele produzido em Belo Horizonte na última década, no qual o Espanca! ocupa lugar de destaque.

Assim como Buenos Aires, Belo Horizonte tem aquela velha paixão por livros e pelas relações miúdas e complexas entre pessoas. Dessa forma, a trupe mineira se encaixou de modo ajustado à proposta da obra de Veronese. O casamento entre o argentino e o Espanca! parece ser daqueles antigos enlaces arranjados pelas casamenteiras mineiras interioranas, mas que, por sorte do destino, teve final feliz.

O Líquido Tátil é calcado no realismo, mas com leves pitadas de surrealismo, algo também comum aos espetáculos do Espanca!, como o premiado Por Elise. Isso reflete uma latinidade evidente. Por mais que o pensamento racional nos leve a um realismo, somos latinos, lugar onde a oralidade predomina com seus grandes absurdos internalizados. Ou, como concluiu o filósofo francês Jean-Paul Sartre em sua passagem por aqui, somos surreais. E pronto.

O enredo do espetáculo se passa em uma apertada e simplória sala. Nela, estão Nina (Grace Passô), uma atriz decadente já fora do palco em nome de um casamento, seu marido, o obtuso Peter (Marcelo Castro), um intelectual fervoroso defensor do teatro, e o irmão deste, o sensível Michael (Gustavo Bones), um ator em crise com os palcos e seduzido pelo cinema.

Uma verdadeira homenagem ao próprio teatro, presente na metalinguagem da dramaturgia, o espetáculo se sustenta na situação tensa destas três pessoas em cena. Não tardam a surgir embates, conflitos e situações surreais, provocando ora riso comedido, ora gargalhadas nervosas na plateia, sempre acompanhadas de alguma dose de reflexão sobre o fazer artístico.

Daniel Veronese conduziu o trio com sobriedade, sabendo dosar a loucura e a realidade de tal forma que é impossível aferir onde começa uma e onde termina outra. Tal qual é a vida.

Uma grande atriz

Quem brilha descomedidamente é Grace Passô. Dramaturga já consagrada, ela volta a mostrar a grande atriz que é, coisa que os mineiros já sabem desde que foi revelada em 2002 no espetáculo Todas as Belezas do Mundo, da Cia. Clara. Grace é forte, intensa, viva. E esta década de experiência cênica no palco e atrás dele – recentemente, ela dirigiu o Grupo Lume em Os Bem-Intencionados – só lhe fez bem. Ela passa tanta certeza no que faz, mesmo quando incorpora um raivoso cachorro, que os olhos do público teimam sempre em correr para ela, em acompanhá-la na loucura contida ou extravasada de sua personagem, em uma construção repleta de carisma e talento.

Diante da parceria com esta grande atriz, Marcelo Castro e Gustavo Bones demonstram maturidade ao galgar seus degraus no decorrer da montagem aos poucos. E o fazem com sutileza e talento de saber que, ao lado de Grace, formam um todo, um conjunto coeso. E fazer tal trabalho não é fácil para um ator. É preciso talento de sobra para entender que menos é mais. E trabalhar em nome do coletivo.

Em certo momento do espetáculo, quando a personagem de Grace sai de cena momentaneamente após um ataque de fúria, os dois atores conseguem crescer, mesmo estando diante de uma plateia saudosa da forte presença de Grace. E ambos têm mérito nesta façanha.

A beleza de O Líquido Tátil mora na beleza do próprio teatro, calcado no encontro real entre seres humanos. E, num mundo cada vez mais digitalizado e com relações afetivas mediadas pela máquina, isso se torna algo ainda mais forte e assustador.

Leia entrevista com Daniel Veronese e Grace Passô

O Líquido Tátil
Avaliação:
Muito bom
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, às 19h. Até 28/4/2013.
Onde: Sesc Pompeia (r. Clélia, 93, Pompeia, SP, tel. 0/xx/11 3871-7700)
Quanto: R$ 16 (inteira)
Classificação etária: 14 anos

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3 Resultados

  1. Felipe disse:

    O LÍQUIDO TÁTIL parece ser a típica peça “cabeça”.

  2. Felipe disse:

    Outro comentário ao qual não resisti em fazer: como a Grace Passô é bonita e estilosa, não é verdade? Ela é linda!

  1. abril 18, 2013

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