Crítica: Clowns de Shakespeare derrapa em Hamlet

Os atores Dudu Galvão (Horácio) e Joel Monteiro (Hamlet) em cena de Hamlet no Festival de Curitiba: montagem do grupo potiguar Clowns de Shakespeare perdeu chance de ser contundente – Foto: Emi Hoshi/Clix

Por Miguel Arcanjo Prado*
Enviado especial do R7 ao Festival de Curitiba

Quem ficou impressionado com a força da penúltima obra do grupo potiguar Clowns de Shakespere, Sua Incelença Ricardo III, sob direção do mineiro Gabriel Villela, mal pôde acreditar que seja o mesmo grupo que encenou Hamlet, neste Festival de Curitiba em 2013 no Teatro Bom Jesus.

É um trabalho que não está à altura do nome que o grupo de Natal (RN) conseguiu construir junto ao público e à crítica.

É preciso maturidade para assumir o mais clássico texto de William Shakespeare. Diante de obra tão emblemática, não faz sentido reproduzir o já foi feito – e de forma bem melhor.

É preciso fazer aqui um parêntese e dar mérito ao norte-americano Wooster Group, que apresentou no mês passado sua versão tecnológica de Hamlet no Sesc Pompeia, em São Paulo. Mesmo com todos os entraves gerados pela parafernália técnica – que provocava certo distanciamento do público com a obra –, eles conseguiram inovar, verdade seja dita, e este é o maior mérito daquela montagem, além de ter bons atores na atuação.

Já a do Clowns de Shakespeare, não. Os potiguares derraparam feio em sua tentativa de contar a história do príncipe que tenta vingar a morte de seu pai, o rei da Dinamarca, envenenado pelo tio.

Falando em rei morto, a escolha de sua aparição como um fantasma concreto lembra o didatismo utilizado no teatro feito para crianças, apesar do evidente esforço do ator Marco França, um dos melhores em cena. A aparição do fantasma é sempre uma questão nas montagens de Hamlet, e já foi resolvida de maneiras bem mais inventivas do que o rosto iluminado atrás da cortina que só falta gritar “Bu”.

Já que chegamos à cortina, a troca do pano preto por outro vermelho durante a cena por dois técnicos prejudica ainda mais a já complicada montagem, desviando a atenção do público sem que o efeito disso se justifique artisticamente. Não bastasse, os técnicos entram em cena outras vezes, sem vestir a carapuça de nenhum personagem.

Alguém pode até dizer que isso faz parte da proposta do encenador Marcio Aurélio de trazer ares Brechtianos à obra de Shakespeare, desconstruindo a ilusão teatral aos olhos do público. Mas o que se vê de fato é uma proposta sem unidade estética ou estilística, a começar dos figurinos de Ligia Pereira e Marcio Aurélio que mais parecem saídos de coleções distintas de loja de departamento.

Há o começo de ares pretensamente pós-modernos com todo o elenco usando a máscara de Hamlet e declamando o monólogo do Ser ou Não Ser, o texto emblemático da obra. Contudo, a ideia de um Hamlet compartilhado por todos não é retomada e fica perdida nesta cena inicial. Ah, e eles usam microfones às vezes e até há um forçado número musical.

O grupo não se conteve e traz uma aparição tímida do gênero clown, que eles dominam. Acaba por ser o melhor momento da montagem. Mas a diminuta proposta clown se dilui na questão dramática, na qual fica evidente a imaturidade do grupo para tal tipo de abordagem artística.

Não há profundidade em quase nada. A Ofélia de Titina Medeiros é tão óbvia quanto uma personagem de novela mexicana, bem como não tem força alguma a Gertrudes de Renata Kaiser – nem quando morre envenenada. O protagonista, Joel Monteiro, não dá conta da grandeza do papel de Hamlet. O que faz pensar que um ator não deveria assumir tal personagem enquanto não tivesse capacidade para tal. Na dúvida, deveria ouvir opinião de amigos verdadeiros, porque às vezes o ego e a bajulação nos pregam peças.

Hamlet sensível

Apesar de alguns indícios, que soam a acidente de percurso, não fica claro para a plateia se a proposta era criar um Hamlet mais sensível, sobretudo a partir de sua relação com o Horácio, vivido por Dudu Galvão – que apesar de talentoso, peca por afetação demasiada neste personagem, sem que isso se justifique na montagem.

Se ficasse claro que a proposta da encenação era radicalizar ao criar um Hamlet gay, transpondo para a sexualidade a questão do ser ou não ser, sobretudo a partir de sua relação com Horácio, a peça ganharia novo sentido e ainda mandaria um forte recado para o Brasil que tem o deputado Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Em sua fraca montagem de Hamlet, o Clowns de Shakespeare desperdiçou a chance de fazer uma obra contundente ao tentar fazer um tipo de teatro para o qual ainda não está preparado. E isso fica evidente na apatia da plateia, que espera, desesperada e sonolenta, que a obra chegue logo ao fim.

Hamlet, com Clowns de Shakespeare
Avaliação: Ruim

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.

Veja a cobertura completa do R7 do Festival de Curitiba

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1 Resultado

  1. julho 19, 2013

    […] Hamlet O grupo potiguar Clowns de Shakespeare fica em São Paulo com sua famigerada versão de Hamlet até 26 de julho no Sesc Ipiranga. A coluna já viu. […]

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