Cleyde Yáconis, uma mulher extraordinária

A atriz Cleyde Yáconis em cena de Toda Nudez Será Castigada, em 1965, com o ator Luis Linhares; a atriz morreu aos 89 anos nesta semana e deixou de luto todo o teatro brasileiro, do qual é ícone – Foto: Cedoc/Funarte

Por Aguinaldo Cristofani Ribeiro da Cunha*
Especial para o Atores & Bastidores

A simplicidade do velório de Cleyde Yáconis foi bastante significativa, bem característica da personalidade dessa grande atriz, tão simples como a vida cotidiana que ela teve durante décadas – embora artista de grande renome e prestígio em todo o País. O velório entre familiares e amigos ocorreu na sala da casa onde Cleyde morava desde inícios dos anos 1990, numa linda chácara, em Jordanésia (Cajamar, SP) – em meio a florido e perfumado jardim, além de horta e pomar. Ela havia pedido anteriormente à querida sobrinha, a cantora Clara Becker, filha de Walmor Chagas e Cacilda Becker, que seu velório fosse feito em sua acolhedora sala de estar.

Para repousar após a morte, Cleyde escolheu um local perto de sua chácara, o cemitério de Jordanésia, pequeno distrito de Cajamar, no interior paulista, próximo a Jundiaí – ao lado do túmulo de sua irmã Dirce, falecida há muitos anos.

Sua outra irmã, Cacilda Becker, está sepultada desde 1969 no cemitério paulistano do Araçá, ao lado da mãe, a matriarca Alzira Becker Yáconis – num jazigo desenhado, inicialmente, a pedido de Cleyde, pelo arquiteto e cenógrafo Flávio Império.

Apesar da simplicidade do velório, da discrição do evento, durante todo o dia a população de Jordanésia desfilou perante o caixão da atriz, prestando uma espontânea e comovente homenagem – das pessoas mais importantes da comunidade às mais simples e humildes. Todos, reverenciaram a mais ilustre dos moradores da localidade – que sempre consideraram simpática e amigável, acessível a todos, integrada no ambiente em que morava, apesar da fama e da notoriedade.

Tanta simplicidade…e muita emoção. A casa cheia de familiares, de muitos amigos próximos, o ex-marido Stênio Garcia e sua mulher, Marilene Saade, o ator Humberto Magnani, a atriz Patrícia Gasppar, a atriz Imara Reis, a amiga de décadas, a pesquisadora Maria Thereza Vargas, o novelista Silvio de Abreu, o empresário Fernando Cardoso, a diretora Yara de Novaes, o ator Cássio Scapin, o amigo dos tempos do TBC, Armando Paschoal, o jornalista Vilmar Ledesma, seu biográfo, o diretor Ruy Cortez, o cineasta Joaquim Lino, a colaboradora de 60 anos, Dadá, vizinhos, populares.

Uma bela cerimônia religiosa foi oficiada pelo Padre João Luís, de São José dos Campos – amigo do cunhado de Cleyde, falecido há dois meses, Walmor Chagas. Muitos aplausos na hora derradeira, difícil, dolorosa, de fechamento do caixão e do sepultamento.

Atuação impressionante

Este dia ficará para sempre gravado em minha memória – pela tristeza da perda tanto da atriz que eu sempre admirei, desde que a vi, adolescente ainda, em O Fardão, de Bráulio Pedroso, ao lado de Fauzi Arap e Yara Amaral, no antigo Teatro Cacilda Becker, da avenida Brigadeiro Luiz Antonio, quanto da querida amiga que fiz em anos mais recentes – cativado por sua inteligência, humanidade e generosidade, por sua personalidade invulgar e instigante e, principalmente, por seu absoluto interesse no ser humano, na vida, nos problemas do homem e da sociedade.

Meus pais eram freqüentadores do TBC e os nomes dos atores e diretores dessa companhia sempre foram familiares para mim, desde a infância. Em minha adolescência, o TBC não mais existia como companhia teatral, mas seus antigos integrantes continuavam a brilhar nos palcos brasileiros e eu via o que podia em teatro.

Lembro-me de ter visto, assim que completei 18 anos, Cacilda Becker e Walmor Chagas em Isso Devia Ser Proibido, também de Bráulio Pedroso, direção de Gianni Ratto. Via Oficina e Arena, ambos os grupos em sua trajetória final – depois, o Oficina renasceu, esplendidamente, nos anos 90. No terceiro ano da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco fui ver Cleyde, junto com meus colegas de faculdade, em Medéia, direção de Silnei Siqueira, no Teatro Anchieta. Ela tinha uma atuação impressionante, um carga de dramaticidade e de energia em cena que marcava o público. Vi duas vezes esse espetáculo.

Cleyde, depois de ter passado pelo Teatro Brasileiro de Comédia e pelo Teatro Cacilda Becker, e retornado na primeira metade dos anos 60 aos TBC, já era uma atriz muito respeitada e popular, com 20 anos de carreira.. Fazia paralelamente cinema e televisão. Em 1971 montou sua própria companhia teatral, a Cia. Cleyde- Oscar-Miranda, associada ao ator Oscar Felipe e ao diretor Carlos Miranda.

A companhia foi muito atuante durante alguns anos, com sede no Teatro Sesc Anchieta. Fazia espetáculos adultos e infantis, montava oficinas teatrais, Cleyde era incansável, atuando como atriz e produtora. Em sua companhia, fez grande sucesso com Um Homem é Um Homem, de Brecht, direção de Emílio Di Biasi, e A Capital Federal, de Artur Azevedo, direção de Flávio Rangel.

Época difícil para a manutenção de uma companhia, com muita inflação e muita censura. Cleyde voltou a atuar em produções isoladas, como atriz convidada. Lembro-me dela em peças de grande qualidade, como A Rainha do Rádio, A Nonna, Agnes de Deus, O Jardim das Cerejeiras, A Cerimônia do Adeus, Os Amantes, A Filha de Lúcifer, O Baile de Máscaras, Péricles, Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, A Louca de Chaillot, Cinema EdenO Caminho para Meca.

Vi, acho, tudo o que ela fez nessas últimas três décadas. Como crítico, escrevi apenas sobre uma única peça de Cleyde – Péricles, direção de Ulysses Cruz, no Teatro Popular do SESI, em 1996 – um Shakespeare popular, divertido, encenação ágil e comunicativa, onde Cleyde fazia um personagem masculino, com técnica cuidadosamente trabalhada.

Atriz de grande magnetismo

Ela era uma atriz de grande magnetismo em cena, atuava com técnica e com emoção, tudo o que fazia era com absoluta entrega. Sobre cada espetáculo que vi poderia escrever algo, enfatizar a beleza das atuações de Cleyde – que concebia os papeis que interpretava com total domínio e entendimento. Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, quando comemorou 53 anos de profissão, foi um trabalho de tal nível que a Associação Paulista de Críticos de Arte conferiu-lhe o Grande Prêmio da Crítica daquele ano.

Aliás, era uma atriz premiadíssima em todo o Brasil.

Como não lembrar da aristocrata russa de O Jardim das Cerejeiras, da Karen Blixen de A Filha de Lúcifer – Cleyde fez esta peça somente no Rio de Janeiro, direção de Miguel Falabella – da avó de A Nonna, da Simone de Beauvoir de A Cerimônia de Adeus, da desbocada radialista de A Rainha do Rádio?

Que repertório! Ela tinha orgulho dele, dizia que poucas atrizes brasileiras tinham um repertório como o seu – o que era e é verdade. Infelizmente não vi seus trabalhos nas décadas de 50 e 60, os espetáculos feitos no Teatro Brasileiro de Comédia e no Teatro Cacilda Becker, mas li as críticas deles, feitas pelos antigos mestres, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Miroel Silveira, Clóvis Garcia – e é possível, assim, apreciar a qualidade que tinham, bem como as esplêndidas atuações de Cleyde em peças como Assim é, se lhe Parece, Ralé, Maria Stuart (onde exibia uma impressionante maquiagem como Elizabeth I da Inglaterra, contrapondo-se à sua irmã, Cacilda, que interpretava a trágica rainha da Escócia), Leonor de Mendonça (junto de Paulo Autran e Sérgio Cardoso), A Rainha e os Rebeldes, Euridice, Panorama Visto da Ponge, A Morte do Caixeiro Viajante, A Semente, A Escada, Os Ossos do Barão, Vereda da Salvação, O Santo e a Porca, Édipo Rei, Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar, o Bicho Come…, Tchin Tchin.

Cleyde trabalhou, em seu repertório de 90 peças teatrais, com os grandes mestres do período, Ziembinski, Adolfo Celi, Luciano Salce, Ruggero Jaccobbi, Flaminio Bollini-Cerri, Gianni Ratto, Maurice Vaneau, Alberto D´Aversa, Flávio Rangel, Antonio Abujamra, Antunes Filho.

Mais tarde, as críticas de Ilka Zanotto, Jefferson Del Rios, Alberto Guzik e Mariângela Alves de Lima sempre teciam elogios ao trabalho de Cleyde, em diferentes montagens. Mariângela, com a elegância e sensibilidade de sempre, escreveu na crítica de O Caminho para Meca que o desempenho de Cleyde trazia de volta ao teatro o aplauso em cena aberta. Na mesma peça, Jefferson, com seu estilo inconfundível, dizia que a própria atriz era uma “obra de arte”.

Nome gravado em alto relevo

Essa atriz de talento excepcional, de profissionalismo reconhecido por todos, colegas, criticos e público, ao longo de 62 anos de dedicação à arte de representar, não está mais entre nós – para grande tristeza de todos que a admiraram, a amaram, e que compartilharam de seu trabalho.

Seu nome, porém, está gravado em alto relevo na história do teatro brasileiro. Sorte de nosso teatro e de nosso país, termos tido uma atriz e uma personalidade desse porte entre nós. Devemos ter orgulho de ter sido seu compatriota. Eu sinto um grande alegria por ter podido vê-la atuar no palco, no cinema e na televisão, e ter podido, além disso, privar de sua preciosa amizade.

Uma mulher absolutamente extraodinária – saudades de Cleyde Yáconis!

*O jornalista Aguinaldo Cristofani Ribeiro da Cunha é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes)  e escreveu este texto a convite do blog.

Cleyde Yáconis na última vez em que subiu em um palco: em julho de 2012 ela homenageou Nelson Rodrigues ao lado de Denise Fraga e Marco Antônio Braz no Auditório Ibirapuera, em SP – Foto: Francisco Cepeda/AgNews

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Acho justo o texto e espero que seja inaugurado algum teatro com o nome dessa majestosa atriz. Gostaria de que fosse dado também seu nome a alguma rua, mas, lamentavelmente, a praxe no Brasil é dar nome de rua apenas a políticos, muitos deles totalmente desconhecidos pelo povo…

  2. Fabio disse:

    Só uma pequena correcão…Jordanésia não é uma cidade, é um distrito da cidade de Cajamar…parabéns, belo texto!

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