Juliana Galdino volta a virar macaco em Comunicação a uma Academia no CIT-Ecum

 

Juliana Galdino tem atuação arrebatadora para o texto de Franz Kafka – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Juliana Galdino é uma das melhores atrizes de sua geração. Prova disso é sua atuação no espetáculo Comunicação a uma Academia, que volta ao cartaz em São Paulo nesta quarta (17), no CIT-Ecum.

Na obra, a artista faz assombrosa mutação em um macaco, com o texto de Franz Kafka dirigido por Roberto Alvim, seu parceiro no Club Noir e na vida. A atuação lhe rendeu indicação ao Prêmio Shell de melhor atriz em 2009. 

A peça conta a história de um macaco que profere um discurso a uma academia para explicar como se tornou humano, sempre à espreita de um guarda armado, papel de José Geraldo Jr. O texto é uma cutucada precisa nas teorias de condicionamento humano, colonialismo, adestramento e aculturação.

Estrela do espetáculo, Juliana conversou com o R7 horas antes de subir ao palco, após ficar um ano sem fazer a obra. Leia o bate-papo:

Juliana Galdino dá vida ao texto de Franz Kafka; ao fundo, o ator José Geraldo Jr. – Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado – Como é voltar com este espetáculo que foi tão bem recebido pela crítica e pelo público?
Juliana Galdino – Eu gosto muito de fazer esta peça. O texto do Kafka é uma das coisas mais bonitas que li na minha vida. Sempre as pessoas me dizem que, cada vez que assistem, elas ententem mais coisas sobre elas mesmas e sobre a potência estética do Kafka. É um assunto muito forte.

Você fica muito exausta após a peça?
Não. Ao contrário, me dá muita energia. É engraçado, quando faço coisas com as quais não tenho muita relação afetiva isso acontece. Eu não me canso. Porque você precisa fazer. E, como é um texto potente, você se deixa fazer. Uma grande obra sempre lhe dá mais do que você dá para ela.

Como você construiu esse macaco que impressiona todo mundo?
Foi uma série de concidências. Eu não ia fazer macaco! Ia fazer de cara limpa. Eu brinquei com o Roberto de me maquiar, com a maquiagem que tinha na bolsa, na hora da foto de divulgação. Eu mudei a linha do papel três semanas antes, para as fotos de divulgação! Quando eu li o texto, pensei: você não monta o texto do Kafka se não fizer algo similar do que a leitura provocou em você. Achei tão potente e tão magistral que, se eu não fizesse uma coisa na interpretação similar ao texto, seria ruim, diminuiria a potência da obra.

O texto é ótimo, mesmo.
Fiquei impressionada pela época em que o texto foi escrito, a desenvoltura do Kafka de como aborda o ser humano e a meneira como ele encaminha nosso olhar para entender coisas sobre nós. Você é obrigado a se deixar levar. Eu fico muito impressionada.

Sua entrega ao personagem é muito forte?
Eu não faço esse papel. É alguma coisa que acontece. Falando assim, fica parecendo que eu sou atriz tomada, mas não sou. Sou atriz super técnica, ajudei a criar a voz, o tom, a disposição física, mas tudo isso é habitando as energias propostas pelo autor. Eu só ajudo na voz, no desenho, mas quem faz mesmo acontecer é a atmosfera proposta pelo Kafka. A minha “construção” só tem um certo impacto porque não tentei trazer a obra até a minha dimensão ou compreensão acerca do mundo e das coisas, mas me propus a experienciar a dimensão proposta pelo autor. Tentei traduzir na minha resposta estética algo muito próximo do que experimentei quando li Comunicação. Se em algum momento eu tivesse sentido que não estava traduzindo a obra em sua potência plena não haveria porque montá-lá.

Fui outro dia ao CIT-Ecum e vi que, apesar de ser um novo espaço, já está bombando, com muito público. O que acha de voltar ao cartaz neste novo espaço para o teatro em São Paulo?
Eu não conhecia o teatro. E, quando conheci, percebi que é uma das coisas mais bonitas que já vi em são Paulo. Acho que o Ruy [Cortez, diretor artístico pedagógico do CIT-Ecum), junto com a galera inteira, fizeram um recorte superinteligente na programação. Equivale a uma espécie de festival.

São peças que deixaram saudade. 
Isso. O que eu acho mais importante é essa coisa de não procurar lançamento, mas retomar espetáculos que as companhias gostaram de fazer e as pessoas gostaram de assistir. No teatro brasileiro, a vida de uma peça é muito curta, porque, por questões de produção e recursos, você precisa estrear novos projetos, porque bilheteria não sustenta uma companhia. Achei incrível essa proposta de voltar com bons espetáculos! Além disso, tem a questão da centralização do espaço e a facilidade que é chegar lá. É espetacular.

Quem você quer que assista Comunicação a uma Academia dessa vez?
Eu acredito no destino. Quem for é porque é para ir mesmo. E quem vier será sempre bem-vindo, vai conhecer um pouco da obra do Kafka e do trabalho do Club Noir.

Saiba mais sobre a programação do CIT-Ecum!

Comunicação a uma Academia
Avaliação: Ótimo
Quando: Quarta e quinta, 21h. 60 min. Até 9/5/2013
Onde: CIT-Ecum (r. da Consolação, 1.623, Metrô Paulista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3255-5922)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Juliana Galdino em cena: macaco conta como se tornou humano – Foto: Bob Sousa

Crítica – Comunicação a uma Academia
A obra Comunicação a uma Academia, sobre um macaco que explica à banca formada pela diminuta plateia como se tornou humano, elevou a atriz Juliana Galdino ao patamar das grandes intérpretes do teatro brasileiro contemporâneo. Em um trabalho primoroso de caracterização, voz e composição de personagem, Juliana faz, a cada sessão do espetáculo dirigido por Roberto Alvim, o público acreditar piamente que ela é o macaco que aprendeu o comportamento dos homens criado por ninguém menos que Franz Kafka. A direção cuidadosa acertou na iluminação que reforça a caracterização da personagem e, muitas vezes, assusta o público. Zé Geraldo Jr., no papel do silencioso guarda à espreita da fala do animal, também acerta nos movimentos mínimos que denotam a opressão e a desconfiança sob a qual o tal macaco, mesmo já humano (será mesmo?), ainda vive.

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Realmente a caracterização está excelente.

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