“O teatro cubano hoje pode ser mais crítico”, diz Carlos Celdrán, que mostra submundo de Havana

O diretor cubano Carlos Celdrán, do Argos Teatro de Havana, da peça Talco – Un Drama de Tocador, que está na Mostra Latino-Americana: “Hoje, Cuba apresenta uma cena teatral viva e forte” – Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Talco – Um Drama de Tocador é um dos espetáculos mais aguardados da 8ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, que acontece até domingo (21) no Centro Cultural São Paulo com entrada gratuita. O espetáculo, que será apresentado neste sábado (20), às 21h, é feito pelo Argos Teatro, companhia sediada há 15 anos em Havana, Cuba. Os ingressos começam a ser distribuídos às 16h do mesmo dia.

A premiada montagem descortina uma Havana que o regime da ilha dos irmãos Castro não costuma vender. Com autoria de Abel Gonzáles Melo e direção de Carlos Celdrán, a peça mostra um velho cinema da capital cubana, onde personagens marginais se encontram. O espetáculo mostra uma “violência oculta, mas presente” na realidade atual de Cuba.

A obra tem assistência de direção de Yemandro Tamayo, música de Denis Peralta, luz de Manolo Garriga, figurinos de Vladimir Cuenca e cenografia de Alain Ortiz. No elenco, estão Waldo Franco, José Luiz Hidalgo, Alexander Díaz e Rachel Pastor.

O Atores & Bastidores do R7 conversou com o diretor da peça, Carlos Celdrán. Ele falou sobre o seu teatro e como é fazer uma peça com um tema corajoso como este para o contexto político em que vive. Leia a entrevista exclusiva:

Talco – Un Drama de Tocador – Foto: Julio de la Nuez

Miguel Arcanjo Prado – Como é fazer um teatro crítico estando em Cuba?
Carlos Celdrán – Creio que o bom teatro tem uma postura crítica dos problemas da sociedade. E encontra, de alguma forma, um modo de fazer isso. O teatro tem de mostrar as contradições humanas e também políticas no palco. Mas, para isso, é preciso ter um discurso teatral sólido. Esta é nossa postura.

Vocês são um dos principais grupos de Cuba. Foi fácil conseguir autorização para vir à Mostra Latino-Americana?
Sim, foi fácil. É só apresentar a carta-convite que não há problemas. Temos 15 anos de fundação. Somos um grupo de atores jovens, já que também trabalhamos como escola. Sempre pensamos a realidade cubana em nosso teatro.

Falando em Cuba, vocês ficaram sabendo lá que a blogueira cubana Yoani Sánchez foi hostilizada recentemente pela esquerda brasileira, em sua vinda ao País, por ser crítica ao regime cubano?
Não, essa notícia não chegou lá.

A obra de vocês fala de uma Cuba que o governo da ilha não gosta muito de mostrar…
A obra fala do submundo marginal da Havana de hoje. Tem travestis, prostitutas, tráfico de drogas. São novos cenários que o teatro também tem de discutir.

Qual é o teatro que Cuba traz ao Brasil?
Eu não falo em nome de Cuba, que fique bem claro. Nós não somos políticos. Somos artistas. Me interessa que minha linguagem teatral seja vista e compreendida. E que a nossa visão de mundo e de realidade possa chocar com outro público, com nosso tema teatral e nossa visão de nossa história.

Como foi a negociação para fazer uma peça como esta?
É um processo a relação com o Estado. É uma negociação constante. Por que é um processo? Porque já foi mais lento e fechado e, pouco a pouco, abrimos os limites do que se deve falar ou não. Neste momento, o teatro cubano pode ser mais crítico do que foi antes. Foi um processo longo e difícil. Mas, hoje, Cuba apresenta uma cena teatral viva e forte. E por que é uma negociação? Porque você, como artista de teatro, precisa encontrar o jeito de falar tudo o que você quer sem que seja censurado. E o governo também tem de negociar com a gente a necessidade de apresentar uma problemática no palco. Porque uma cena sem problemas é mais perigosa que uma cena com problemas. É uma luta difícil, mas possível.

Carlos Celdrán, do Argos Teatro: “Fazer teatro em Cuba é uma luta difícil, mas possível” – Foto: Eduardo Enomoto

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    A entrevista com Carlos Celdrán foi bem lúcida.

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