Coluna do Mate: Commedia dell’arte, apontamentos

Alexandre Mate em retrato feito por Bob Sousa

Por Alexandre Mate*
Especial para o Atores & Bastidores

“O debate transformou-se em contenda, mas ao final obtiveram-se duas conclusões claras e irrefutáveis: o poder, qualquer poder, teme, mais do que tudo, o riso, a troça, a gargalhada. Pois a risada denota senso crítico, fantasia, inteligência, distanciamento de todo e qualquer fanatismo. Na escala da evolução humana, temos, inicialmente, o homo faber, em seguida o homo sapiens, e finalmente, sem dúvida, o homo ridens. Este é o mais sutil, difícil de submeter e enquadrar. Segunda conclusão: o zé-povinho, a gente mais simples, nunca renunciou, mesmo ao representar as histórias mais trágicas, a incluir o humor, o sarcasmo, o paradoxo cômico.”
Dario Fo. Manual mínimo do ator.

No texto anterior aqui no R7, apresentei algumas informações, de modo mais genérico, sobre o teatro de rua. Neste segundo texto, o assunto o assunto é a commedia dell’arte italiana, oficializada com este nome no início do século 16.

Apesar da ausência de documentos sobre a produção teatral e das perseguições desenvolvidas pelos representantes da Igreja, principalmente aos artistas populares, durante toda a Idade Média (da Queda do Império Romano do Ocidente, em 476, à Queda do Império Romano do Oriente ou Queda de Constantinopla, em 1453), o teatro e seus artistas sobreviveram.

Fora dos feudos que, basicamente, contavam com os chamados bobos da corte (artistas que cantavam, representavam, dominavam algum instrumento musical etc), nos espaços públicos, não raro, os artistas populares se apresentavam.

Normalmente, os artistas populares organizam-se em grupos e andavam de lugar em lugar para ganhar algum sustento, decorrente de seu trabalho. Os artistas populares atravessaram o imenso período da Idade Média, e, por meio de tradição oral, mantiveram vivas muitas tradições cômico-populares. Commedia dell’arte – cujo sentido de dell’arte corresponde ao fazer dos que sabem, dos que conhecem, dos profissionais -, significava comédia de ofício ou comédia feita por profissionais.

Ao registrarem-se em cartórios (1522, por um ator chamado Francesco dei Nobili, e o primeiro coletivo, foi registrado em Pádua, a 25 de fevereiro de 1545, por oito atores), o que lhes conferia o direito de cobrar ingressos pelo seu trabalho, essas companhias ambulantes organizaram e recuperaram várias tradições cômico-populares e, com isso, a produção teatral popular passou a ser novamente registrada.

Registro histórico da commedia dell’Arte italiana feito no século 17 por autor anônimo e que pertence ao Museo Teatrale alla Scala, de Milão, na Itália – Divulgação

O que foi a commedia dell’arte?

As companhias de commedianti, normalmente familiares, eram constituídas por um diretor (chamado de capo comico ou concertatore) e um conjunto formado por sete a dez atores. Esse número referia-se ao que se necessitava para atuação dos chamados tipos fixos (tipi fissi) exigidos pelas peças.

As personagens se dividiam, inicialmente, em três grupos distintos e articulados: os velhos (vecchi): Dottore (Doutor) e Pantalone (Pantaleão); os enamorados (innamorati): um ou dois casais de jovens; os criados (zanni): Arlecchino (Arlequim), Brighela (Briguela) e zerbinetta (que tinha vários nomes). Depois de algum período, surgiram outras personagens, das quais se pode destacar o Capitano (Capitão). De maneira bastante esquemática, e a partir do esquema mais tradicional, Pantaleão (normalmente um mercador, pão duro e tarado) tinha um filho; Doutor (também viúvo, esnobe e arrogante) tinha uma filha.

Em Lapin Agile (Arlequim com copo), pintura feita por Pablo Picasso, em 1905 – Divulgação

Os dois jovens eram apaixonados, mas Pantaleão também se interessava pela moça. Briguela era criado de um dos velhos, Arlequim era criado do outro, a zerbineta era criada da moça. Arlecchino e Brighela disputavam o amor da criada. Simples assim, encantador assim. Portanto, a trama se desenvolvia a partir desse esquema, repleta de ações cômicas que deliciavam o público. Com o passar dos tempos, novas personagens surgiram, mas o esquema básico continuou.

Uma fala para cada personagem

Outra questão importante muito significativa, dizia respeito à fala e aos dialetos das personagens chamadas arquetípicas (modelares), os criados falavam o dialeto de o Bergamo; sendo que Arlequim falava o de Bergamo baixa (cidade medieval) e Briguela o de Bergamo alta (cidade renascentista); Pantaleão falava com o dialeto de Gênova ou de Veneza (que eram cidades com portos importantes); Doutor falava com o sotaque de Bologna (onde foram criadas, no século XIII, as primeiras universidades laicas, não criadas pela igreja); os enamorados falavam o dialeto de Verona (que era a cidade do amor).

Desse modo, o que tendia a ampliar o entendimento do público era, fundamentalmente, a destreza do conjunto. Nesse sentido, ainda, é bom revelar que nas famílias de comediantes, os filhos, desde o nascimento, tendiam a ser preparados para desenvolver um dos papéis característicos (do mesmo modo como no circo).

O grupo familiar tinha à sua disposição, decorrente da tradição, um conjunto de canovacci (que eram roteiros básicos com algumas indicações de ações) e alguns lazzi (piadas ou tiradas cômicas). Desse modo, ao entrar em cena, o conjunto tinha um pré-esquema mental que o levava a apresentar a obra, evidentemente sujeita à colaborações do público.

Opção pelo entretenimento

O grande sucesso dessas companhias se deve fundamentalmente à opção pelo entretenimento, à destreza e capacidade de seus artistas, às bases populares do repertório, critério básico se constituía em agradar ao povo, mas, fundamentalmente, às formas relacionais desenvolvidas com o público.

Sem dúvida, todo grande comediante do Brasil e do mundo (popular ou não, homem ou mulher, com personagem fixa ou não), com fala ou apenas mímico, muito deve aos comediantes de ofício. Para conhecer um pouco mais, vale a pena assistir ao filme A Viagem do Capitão Tornado (1990), de Ettore Scola é considerada uma obra-prima sobre o assunto.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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