Crítica: Universos brinca com vida que podemos ter

Thiago Ledier e Renata Calmon: casal cheio de química na peça Universos – Foto: Ronaldo Gutierrez

Por Miguel Arcanjo Prado

O que de fato é real? Qual o limite de sustentação de uma relação? Qual o peso de pequenas ações cotidianas na construção de nosso destino? Qual o limite de nossa racionalidade diante do amor?

Questionamentos como estes são plausíveis ao espectador que assiste ao espetáculo Universos, em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, em São Paulo. A montagem é a primeira de uma trilogia sobre o amor capitaneada pelo diretor Zé Henrique de Paula.

Paula volta a investir em um teatro urbano e questionador, dessa vez com o mais recente texto do jovem dramaturgo britânico Nick Payne, que mistura física quântica e amor em seu enredo. Com uma montagem dinâmica e cheia de reiterações, o diretor acaba fazendo uma homenagem ao próprio fazer teatral.

A peça mostra os encontros e desencontros do casal formado pela cientista Melissa (Renata Calmon) e o apicultor Roger (Thiago Ledier), após se conhecerem em um churrasco de amigos. Esta quinta (2), é o último dia de Renata Calmon na peça. A partir de terça (7), Melissa passa a ser papel da atriz Bruna Thedy.

Como pano de fundo para as idas e vindas do casal, em cortes precisos no tempo/espaço em inventiva solução da direção, o espetáculo aborda ainda a constante perda de memória de Melissa. Nisso, faz referência sutil ao filme Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, estrelado por Jim Carrey e Kate Winslet em 2004. O cabelo vermelho de Calmon é o mesmo de Winslet e o pôster do filme fica escondido em meio aos badulaques do apartamento de Melissa.

Por falar no apartamento, a cenografia de Zé Henrique de Paula é coesa ao aglutinar em cada canto do palco a morada de cada personagem – na verdade, amontoados de objetos que fazem sentido a cada um deles –, fazendo do sofá, ao centro do palco, o ponto de encontro. O piso também integra os ambientes, com uma estampa que tanto pode simbolizar átomos estudados por Melissa quanto colmeias cultivadas por Roger.

Os figurinos, também assinados pelo diretor, ajudam na construção da passagem de tempo, representando o desenrolar daquela história em diferentes estações do ano. Em contrapartida, a luz de Fran Barros, ao dialogar o tempo todo com o que se passa no palco, impulsiona os sentimentos dos espectadores, que torcem para que aquele romance dê certo.

O casal de atores tem química que faz o espetáculo crescer além da proposta do autor e do diretor. Thiago Ledier envolve o público com seu personagem, uma espécie de representação da fragilidade masculina diante de uma mulher emancipada. O ator é preciso, claro e comovente em sua simplicidade, como quando faz a cena na qual pede a mão de Melissa em casamento.

Também em boa atuação, Renata Calmon, por sua vez, além do domínio do texto – traduzido por ela mesma –, demonstra segurança cênica que deixa sua personagem ainda mais forte, mesmo diante da fragilidade de uma doença. E ainda é preciso ressaltar a voz lapidada que a atriz apresenta nesta obra, seduzindo a audição de quem ouve.

Universos é uma peça simples e complexa ao mesmo tempo, como é a vida, ou as versões que fazemos dela. É uma peça na qual se pode rir e chorar. E, ao fim, chegar à conclusão de que as pequenas decisões cotidianas são as peças fundamentais que constroem ou derrubam a nossa realidade.

Universos
Avaliação: Muito bom
Quando: Terça, quarta e quinta, às 21h. 70 min. Até 16/5/2013
Onde: Teatro do Núcleo Experimental (r. Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo, tel. 0/xx/11 3259-0898)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Nota do Editor: a partir da próxima terça a personagem Melissa será feita pela atriz Bruna Thedy.

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3 Resultados

  1. Felipe disse:

    Achei bárbaro, só de ler o texto, sobre como essa peça foi concebida. Gostei da metalinguagem no cabelo da personagem e no pôster de BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS, filme ao qual assisti e que achei excelente. E também gostei muito do detalhe do piso. A quem tem a oportunidade de conferir, com certeza deve ser um excelente espetáculo!

  1. Maio 7, 2013

    […] Leia a crítica que o R7 fez para a obra! […]

  2. Maio 16, 2013

    […] R7, que viu a obra com Calmon em seu penúltimo dia em cena (leia a crítica), resolveu voltar na sessão desta terça (14), para ver o desempenho de Thedy no […]

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