Entrevista de Quinta – “Sou da geração do para de reclamar e vai fazer”, diz Marcio Tito Pellegrini

Membro da nova geração, Marcio Tito Pellegrini é dramaturgo, ator e diretor – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por Miguel Arcanjo Prado

Marcio Tito Pellegrini acaba de fazer 22 anos. O que faz dele representante da nova geração do teatro brasileiro. Geração multiuso. É dramaturgo, diretor, ator, produtor, divulgador… Enfim, rala para fazer acontecer a arte na qual acredita. O sobrenome pomposo vem do irmão de seu bisavô, o ex-presidente argentino Carlos Pellegrini (1946-0906), mas conta que só sobrou a pompa.

Ele está em cartaz aos sábados, às 19h, até o fim do mês, com a primeira peça de seu grupo, A Tragédia Pop: Roberto e a Filologia das Estrelas. A obra causa burburinho no Espaço dos Satyros Um, na praça Roosevelt, reduto do teatro alternativo paulistano (leia a crítica).

Cria do Satyros, onde entrou para fazer a elenco de apoio na peça Roberto Zucco, Marcio Tito Pellegrini nasceu em São Paulo em 23 de abril de 1991. Estuda dramaturgia na SP Escola de Teatro e pensa em um dia cursar ciências sociais na USP. Enquanto isso, faz muito teatro. Do jeito que pode, de todos os modos.

Ele se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 no bosque das esculturas do parque da Luz, no centro paulistano, em uma bela tarde de sol de outono. Falou de tudo. E se definiu como membro da “geração do para de reclamar e vai fazer”.

Leia com toda a calma do mundo:

Márcio Tito Pellegri é paulistano e diz que quer fazer um teatro político – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Miguel Arcanjo Prado – Você não é novo demais para se meter a escrever, dirigir e atuar?
Marcio Tito Pellegrini – Acho que sou novo, sim. É que comecei a fazer teatro com 15 anos. A vida do artista é muito intensa. No Satyros, tive uma vida muito efervescente. Montagens, amigos, projetos, enfim, muita coisa aconteceu.

Como foi sua infância?
Nasci em São Paulo, no bairro Higenópolis…

Nasceu rico.
Nasci rico, mas hoje em dia fudeu tudo [risos]… Sou de 23 de abril de 1991.

Você é do século passado, então.
Não, sou um jovem senhor dos anos 20 do século 21. Ah, faço aniversário junto com Shakespeare e o Léo Jaime [risos].

Quem são seus pais?
Minha mãe se chama Edinéia, e trabalha com alimentos, já meu pai, Mauro Pellegrini, sempre teve bar.

Você mora com os pais?
Eu moro com meus pais, mas vou voltar depois das três [risos]. Acho que isso coloca os pais no lugar de artistas também, porque de alguma forma viabilizam projetos. É tudo muito instável, eu sei, mas eles estão fazendo arte comigo.

Você namora?
Estou namorando a Amanda Magalhães. Ela é atriz e faz EAD [Escola de Arte Dramática da USP].

É filho único?
Não, isso é uma questão… Eu sou o único filho do meu pai e da minha mãe, mas tenho três meio-irmãos. Um por parte de mãe e dois por parte de pai, um deles com dois anos. Somos uma família moderna. Meu pai tem 64 anos e tem um filho bebê!

É. Seu pai está em ótima forma! [risos] O que você fazia quando era criança?
Eu lia muito. Eu sofria bullying e comecei a ler muito…

Te batiam na escola?
Não chegava a tanto. É que eu não era muito agregado.

Quando era criança, Marcio Tito Pellegrini gostava de ler na biblioteca – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Não se preocupa, eu também tinha um colega que me batia sempre. Hoje ele é policial militar! [risos]. Mas vamos falar de você. Você ficava lá quietinho na biblioteca da escola durante o recreio?
É… Eu passava os intervalos lendo na biblioteca. Engraçado, nunca joguei futebol, tentei jogar basquete e não deu certo… Eu não conseguia lidar com as coisas da minha idade de fato. Aí, entrei no mundo dos livros.

Como você começou teatro?
Foi aos 15 anos.

Foi por estar em uma crise?
Não, eu sempre fui assim. Eu não era de brigar, de ser revoltado. Se não gostava de algo, ignorava.

Não batia a porta do quarto na cara da sua mãe?
Não.

E como surgiu o teatro?
Como eu era essa pessoa retraída, meus pais me incentivaram a fazer teatro. Comecei a frequentar peças e fui fazer o curso da Escola de Atores Wolf Maya. Logo que entrei lá, vi que tinha uma coisa política a se fazer no teatro, mas vi que não era ali. Fiquei três anos e saí no último semestre para fazer Roberto Zucco nos Satyros.

Saiu logo na hora de tirar o DRT [registro profissional no Ministério do Trabalho]?
Pois é. Está vendo o que eu fiz na vida? Não tirei o DRT até hoje!

A Patrícia Vilela [atriz, atualmente no elenco de Malhação] foi sua professora?
Foi. Ela é ótima.

Eu gosto muito dela. E o Alberto Guzik [ator, jornalista e crítico teatral que morreu em 2010 vítima de câncer]?
Também. Ele me deu aula de história do teatro.

As pessoas têm muito preconceito com o Wolf, mas bons professores passam por lá, como a Patrícia, o Guzik, que é um cara que admiro muito. Ou seja, tem muita modelete, mas também tem como aprender, né?
Sim, no Wolf eu tive excelentes professores. Tive aula com o Zé Henrique de Paula, com a Sandra Corveloni, que ganhou melhor atriz em Cannes.

E foi o Guzik quem te levou para o Satyros?
Sim, ele convidava para ver as peças. Eu vi cinco vezes o Monólogo da Velha Apresentadora [peça na qual Guzik satirizava Hebe Camargo].

Eu também vi. Ele estava ótimo naquela peça. Acho que foi a última peça dele, né?
Pois é, ele era muito bom. Aí eu comecei a frequentar a Roosevelt e comecei a ficar sem grana para pagar o Wolf… Mas resolvi que não ia parar de fazer teatro. Chamei então a Priscilla Leão e o Marcos Santana e escrevi um texto para eles fazerm nas Satyrianas, As Dolosas Coxas.

Então, você já era meio capetinha, já tinha começado a descobrir os caminhos…
Sim, já era meio fervido. Aí, o Rodolfo precisava de alguém para parte do elenco de apoio de Roberto Zucco, aí eu fui fazer.

Você ficava pelado?
Não [risos]. Roberto Zucco foi minha primeira peça. E depois fiz as Satyrianas como dramaturgo.

Você tinha quantos anos nesta época?
17.

Ninguém devia dar bola para você…
Não dava, mas Os Satyros deu. O Rodolfo me chamou para dirigir o Satyros Teen, que acho que é o projeto mais importante que eu fiz na vida. Dirijo esse grupo, com jovens do centro da cidade há dois anos. É uma geração muito oprimida pela metrópole.

Bom, aí você foi se metendo em tudo. E você sabia o que queria da vida?
Na verdade eu sempre soube. Sempre quis ter uma postura política no teatro.

E como você entrou na SP?
O Rodolfo [García Vázquez, diretor dos Satyros] viu Cemitério dos Elefantes, peça minha que foi dirigida por Fábio Penna, e me deu uma puxada de orelha, falou “acho que não é por aí, você não quer estudar, não?”. Aí eu entrei em 2012 no curso de dramaturgia na SP Escola de Teatro.

“Sou cria do Satyros”, diz Marcio Tito Pellegrini, fundador de A Tragédia Pop – Foto: Miguel Arcanjo Prado

E essa sua peça agora, Roberto e a Filologia das Estrelas. Como surgiu a ideia de ter seu próprio grupo de teatro?
No processo do espetáculo Satyros’ Satyricon, o Rodolfo propôs quem queria apresentar um projeto nas Satyrianas [festival teatral na primavera, na praça Roosevelt]. Eu tinha conhecido o Roberto Reiniger em uma oficina e tinha um texto sobre a vida dele. Aí me ofereci e comecei a ensaiar com atores que arregimentei no Satyricon, porque sou obsessivo. O Rodolfo viu e sugeriu que montássemos um grupo. Aí fundamos A Tragédia Pop.

Por que tem esse nome?
A minha visão como dramaturgo do grupo é que hoje em dia tudo é entendido pelo universo do pop. Se Édipo fosse hoje, a Beyoncé seria a Jocasta. Tudo que a gente louva no pop é uma coisa quase deprimente. Você escuta Thriller, do Michael Jackson, é uma música feliz, mas tem uma tristeza de fundo, um viés ressentido com o contemporâneo. E o Roberto, da peça, é um ressentido com o contemporâneo.

Como você define seu teatro?
Definir na primeira peça é difícil. Mas acho que vamos num caminho que aponta para a performatividade. Mas não importa a forma, nosso conteúdo será sempre político. Eu chamo de teatro contemporâneo. Mas o bom do contemporâneo é que está sempre no futuro.

Político de que lado?
O artista no Brasil não tem direito de querer ser petista nem tucano. Nem esquerda nem direita. Acho que temos de instaurar um lado novo, para inventar um novo Brasil. Este é o presente que vivemos? Está legal? Queremos viver à base de fármacos e McDonalds, que não deixa de ser um fármaco? Acho que o trabalho do Mano Brown nos Racionais é bom em termos de energia do discurso, de jogar essa bomba.

Você não tem vontade de fazer faculdade? Acho que você se daria bem na sociologia ou na filosofia…
É… Ainda dá tempo… Meu foco, neste ano é A Tragédia Pop. Estamos ensaiando mais duas peças. Um é teatro-dança baseado em O Estrangeiro, do Albert Cammus, e também uma outra peça, que vai se desdobrar em uma banda, baseada em Charles Bukowski. Se tudo correr bem, quero me formar na SP neste ano. E aí, no ano que vem, penso em fazer faculdade, penso muito em sociologia, em me preparar teoricamente.

Acho que vai ser importante para você. E como você dá conta de fazer esse monte de coisa: você estuda, ensaia, junta as pessoas, escreve, promove a peça no Facebook.
Acho que isso vem muito de uma insatisfação com o que tem sido feito. Então, mais do que reclamar, eu quero fazer. Sou da geração do para de reclamar e vai fazer.
E não dirijo por uma vontade clara. É que o dramaturgo hoje em dia tem de produzir. Enquanto o Zé Celso não me ligar pedindo peça, eu vou ter de me dirigir!

 

Apesar do olhar triste nas fotos, Marcio Tito Pellegrini diz: “Sou um cara feliz” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Você tem um olhar triste nas fotos. Mas ri aqui na entrevista. Você é triste ou feliz?
Eu sou um cara feliz. Acho que depois que a gente tem certa percepção de mundo, do sistema, a gente fica um pouco triste. Mas a gente também encontra brechas para não se deixar abater e tentar fazer alguma coisa transformadora. Só ainda não sei como administrar financeiramente o fazer teatro. Porque sobreviver disso é difícil.

Tem gente que te acha um menino que se acha demais?
Acho que muita gente evita conhecer seu trabalho para sair falando mal de você. Mesmo sem conhecer. Mas eu tenho amigos na Roosevelt e está tudo certo. Acho que, pelo menos lá, ninguém me odeia.  

Você é cria dos Satyros?
Sim, sem dúvida. Sou cria de uma visão crítica do Rodolfo. O olhar que ele imprime no Satyros para mim foi devastador. A escolha de repertório dos Satyros me move como criador, o meu olhar de mundo. É um caminho a ser seguido. Lado a lado. Porque os Satyros estão aí ainda. Quero fazer alguma coisa que faça barulho, que seja um grito como você mesmo definiu na crítica que fez da minha peça.

“Quero fazer alguma coisa que faça barulho”, diz Marcio Tito Pellegrini – Foto: Miguel Arcanjo Prado

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4 Resultados

  1. Felipe disse:

    Só de ler a entrevista só posso exclamar: “Que cara mais bacana!”. Ele está além da arte. É um ser humano em sua magnitude.

  2. Luísa Romano disse:

    Linda trajetória! Tenha muito sucesso, caro amigo!

  3. Patrícia Ramos disse:

    Vou assistir neste final de semana !!!!!!!!!

  1. maio 17, 2013

    […] farmacológica Marcio Tito Pellegrini, jovem autor e diretor, avisa que quem quiser entrar de graça na peça Roberto e a Filologia das […]

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