Crítica: Hotel Trombose exibe frieza e decadência

 

Carolina Splendore, à frente, e sua gargalhada de arrogancia e desespero – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Um cheiro de caos, decadência e violência escondida debaixo do tapete invade o ar no espetáculo Hotel Trombose, em cartaz no Tusp até este domingo (27). Quem não viu deveria dar um pulo por lá para conferir o trabalho da Cia. do Mofo.

O grupo é composto de jovens egressos de variadas escolas teatrais da capital paulista, como Escola Livre, Macunaíma, CPT, Anhembi-Morumbi e Escola Dramática da USP, a EAD. De cara, a gente percebe que todos estão com muita garra e vontade de fazer o seu teatro. A trupe encontrou no jovem diretor Fernando Gimenes a mão condutora.

O texto da peça é uma adaptação que o próprio diretor fez para o livro homônimo, escrito pelo também jovem autor Felipe Valério, sobre seres obscuros que habitam um hotel decadente. O dramaturgo foi respeitoso até demais com o autor, deixando alguns momentos da peça bem literários, quando uma sacudida teatral não teria feito mal à montagem.

O elenco surge aos olhos do público fantasmagórico e vigoroso, em uma dança soturna e bizarra, num acerto da coreógrafa Carla Zanini. A penumbra inicial da iluminação é mantida pelo resto da peça, o que acaba prejudicando a apreciação dos deslumbrantes figurinos assinados por Gislaine Nascimento e Fernando Gimenes. Um pouco mais de luz, pelo menos em alguns momentos precisos, teria ajudado.

Faltou ao diretor atrevimento para imprimir mais personalidade e originalidade estética à obra. Em alguns momentos, pelo menos para quem acompanha o teatro paulistano, fica evidente que Hotel Trombose dialoga exageradamente com o teatro feito pelo Club Noir. Teria sido mais interessante ver Gimenes fazer uma ruptura com a outra companhia onde trabalha. Mas ele é jovem, tem talento que será madurado e logo aprende que um diretor precisa buscar sua assinatura.

O elenco é afiado e sempre acompanhado pelo virtuoso piano de Fanny Cabanas, que dá charme extra à montagem, com direção musical de Fabricio Zavanella. Os atores também são corretos quando cantam, mérito também do preparo vocal de Luiz Gustavo Luvizotto. As composições, originais, são assinadas pelo diretor, o autor do livro, o diretor musical e a pianista.

A peça é uma costura de cenas extraídas do livro. Há cenas fortes, como aquela na qual o ator Dawton Abranches, vestido de super-herói, incorpora um asqueroso pedófilo dialogando com uma criança prestes a ser abusada ou quando dois irmãos, crianças, veem a mãe se afogar na banheira enquanto comem cajuzinhos com uma exagerada e quase mórbida inocência infantil. Jonatã Puente e Carla Zanini estão afiados nesta cena, formando um conjunto coeso, absurdo, risível e assustador. Em meio a tantos pequenos monólogos o diálogo da dupla ganha força absurda e este se torna o grande momento da obra.

Jonatã Puente e Carla Zanini (à esq.) se destacam como dupla infantil que vê morte materna – Foto: Bob Sousa

Ainda há gratas surpresas, como a gargalhada de arrogância e desespero da prostituta que se crê atriz de talento no teatro da vida, interpretada com toda força e entrega possível por Carolina Splendore. A atriz sabe que aquele momento é dela. E não duvida um segundo sequer. O que faz muito bem.

Completam o elenco Rafael Ausuto, como o melancólico porteiro do hotel, Gislaine Nascimento, intérprete de uma fria sequestradora de crianças, Vânia Lima, como a amante de um assassino da máfia japonesa que só quer saber de seu macho, Gabriela Teles, na pele da mãe de uma menina nascida com dois corações, e, por fim, William Simplicio, que provoca riso na plateia como o homem que não quer saber de ser exorcizado.

Hotel Trombose é uma obra correta, com pitadas de sofisticação e com uma temática que, apesar de forte, é próxima de qualquer metrópole mergulhada na frieza e na violência cortante do cotidiano. A Cia. do Mofo mostra, nesta obra, que tem capacidade de ir longe e provocar cada vez mais. Garra, talento e vontade, eles têm. Isso está mais do que provado. Só precisam continuar acreditando mais neles mesmos e seguir em frente. Sem pestanejar.

Cia. do Mofo posa com diretor Fernando Gimenes e autor Felipe Valério (ao centro), no Tusp – Foto: Bob Sousa

Hotel Trombose
Avaliação: Bom
Quando: Sábado (25), às 21h; e domingo (26), às 20h. Até 26/5/2013
Onde: Tusp (r. Maria Antônia, 294, Consolacao, São Paulo, tel. 0/xx/3123-5233)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Como já dito anteriormente, não sou muito adepto dessa linha de mostrar a crueza cotidiana, mas acredito que Hotel Trombose cumpra realmente seu papel. Certamente me causaria incômodo ver a cena do pedófilo vestido de super-herói, porém o Teatro tem também esse papel de alertar a sociedade.

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