Crítica: Danton.5 é inocência diante da revolução

Daniel Aureliano (à esq.) contracena com Vitor Placca em Danton.5: o primeiro tem um quê de Gianfrancesco Guarnieri a ser lapidado; o segundo é dono de uma bela voz grave – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

O projeto Primeiro Sinal sempre leva à sala Beta, localizada no terceiro andar do Sesc Consolação, em São Paulo, novos grupos teatrais em busca do primeiro grande espaço para apresentar seu trabalho.

Nada mais apropriado que a iniciativa abrigasse a primeira montagem do Núcleo dos 5, grupo de cinco atores saídos da Escola de Arte Dramática da USP, a EAD.

A trupe escolheu montar a peça Danton.5, baseada na obra do alemão Georg Büchner, com os últimos dias de vida de Georges Jacques Danton, líder da Revolução Francesa. Com o nome da obra evidencia, o personagem é divido pelos cinco atores.

Enquanto espera o começo da peça na sala de leitura, a plateia é surpreendida com a aparição de Liberdade, personagem interpretada pela atriz Mariana Rattes vestida de anjinho. Aguerrida, cumprimenta a todos, e insiste até conseguir recíproca calorosa, ao bradar gritos de Viva a Liberdade!. A aparição parece saída do túnel do tempo, vinda direto dos lendários CPCs, os Centros Populares de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes) na década de 1960.

Ator Ricardo Henrique (em primeiro plano) acaba por ser um dos destaques de Danton.5 – Foto: Bob Sousa

Aliás, o espetáculo tem muito do teatro jovem feito cinquenta anos atrás. Não se sabe se a homenagem é proposital ou um mero acaso. Os artistas em cena demonstram ter a mesma inocência, sem, contudo, soarem tão aguerridos quantos os jovens “subversivos” de outrora.

Os atores do Núcleo dos 5 são mais conscientes de sua incapacidade de mudar o mundo. E isso é explicitado nos monólogos que cada um faz, em uma espécie de desabafo, muitas vezes cortado abruptamente pela quebra de luz.

Inocentes também são as singelas soluções cênicas encontradas. Em alguns momentos, a montagem até lembra teatro escolar. Cristiane Paoli-Quito e José Fernando Azevedo, que fizeram a supervisão da montagem, poderiam ter tido mãos mais firmes, sobretudo para buscar unidade na atuação.

Porque ainda há momentos muito crus. Quem mais se destacam são Ricardo Henrique e Vitor Placca, que é dono de uma bela voz grave que deve ser melhor explorada por ele. Mariana Rattes está entregue, mas falta-lhe densidade que o texto pede. Daniel Aureliano vai em outra extremidade, dá intensidade demais, caindo muitas vezes no histrionismo. Mas o ator tem um quê de Gianfrancesco Guarnieri a ser lapidado que o salva. O mesmo não se pode dizer de Amarildo Félix, que fica para trás, com um registro de atuação monocórdico e sem viço.

De todo modo, a trupe acerta em sua tentativa de trazer as questões filosóficas da Revolução Francesa para os dias atuais, mas podia ter aprofundado ainda mais em descobrir quais são as guilhotinas de nosso tempo. Contudo, os integrantes do Núcleo dos 5 ainda têm tempo para aprender.

Aguerridos e inocentes: Núcleo dos 5 encerra temporada de Danton.5 no Sesc Consolação – Foto: Bob Sousa

Danton.5
Avaliação: Regular
Quando: Terça (4), às 20h (Último dia). 80 min. Até 4/6/2013
Onde: Sesc Consolação – Sala Beta, 3º Andar (r. Dr. Vila Nova, 245, Consolação, Metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000).
Quanto: R$ 10
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Engraçado que votei em Mariana Rattes sem nem ao menos saber como ela expressava sua arte. Agora, entretanto, após ler sobre sua insistência em receber uma recepção calorosa a gritos de “Viva a liberdade”, tenho absoluta certeza de que minha intuição me guiou exatamente para o voto que daria se tivesse lido seu texto antes.

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