Entrevista de Quinta: “Ainda está caindo a ficha”, diz Célia Forte, com peças encenadas em SP e Rio

Célia Regina Forte: trajetória que se confunde com o teatro brasileiro recente – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Com o perdão do trocadilho óbvio, Célia Regina Forte é nome forte do teatro paulistano. Sócia de Selma Morente na Morente Forte, escritório que assessora e produz espetáculos teatrais há 28 anos, ela finca os pés também no Rio.

E quando Célia trabalha não é brincadeira. Ela sabe tudo do ofício de fazer um espetáculo teatral acontecer.

No papel de dramaturga, a jornalista estreia nesta quinta (6) na Cidade Maravilhosa sua segunda peça, Ciranda, após sucesso na capital paulista.

A montagem é protagonizada por Daniela Galli e Tânia Bondezan, que passam a limpo uma relação de mãe, filha e neta em 50 anos de vida condensados em 1h20 de espetáculo na Sala Fernanda Montenegro do Teatro Leblon. Além disso, está em cartaz em São Paulo, no Teatro das Artes, sua primeira peça, Amigas, pero No Mucho.

Foi do Rio que Célia conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta. Estava nervosíssima por conta da estreia. Falou dos caminhos no teatro, do amigo Paulo Autran, das parcerias que faz e ainda revelou que está escrevendo um musical com canções de um famoso cantor da década de 1980.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Célia, você já é rainha do teatro paulistano, agora vai dominar o carioca também?
Célia Regina Forte – Ai, sou muito ansiosa, você me conhece. É difícil… Eu fiz uma temporada de Amigas pero no Mucho [seu primeiro espetáculo] em 2009 no próprio Teatro Leblon, na Sala Marilia Pêra. Agora é na sala Fernanda Montenegro. Olha como estou chique [risos].

Mas você tem de ficar mais tranquila, porque agora é dramaturga.
Quando faço assessoria de imprensa eu fico ansiosa, mas quando estou estreando uma peça minha fico mais ainda. É uma característica minha. Quando Ciranda estreou em são Paulo eu fiquei ansiosa, e hoje estou mais. Estou louca para ver que o público carioca vai achar dessa história que escrevi.

O Rio não é sua praia ainda.
É. Acho que isso deve acontecer com muita gente. Para mim por ser paulista, são Paulo é mais confortável, claro. Mas ontem, no ensaio, vendo as meninas em cena me deu uma vontade de ver logo a estreia. Claro que eu tenho muitos amigos aqui, mas não é onde me formei, onde me criei profissionalmente e pessoalmente. É uma expectativa maior.

E as atrizes, Daniela Galli e Tânia Bondezan?
Elas são perfeitas no papel. As duas me ajudaram bastante. Elas conhecem o texto há muito anos. Eu preciso compartilhar com elas esse sucesso. O Possi [José Possi Neto, diretor] é um parceiro muito querido.

Célia Forte tem duas peças encenadas: Ciranda, no Rio, e Amigas pero No Mucho, em SP – Foto: Bob Sousa

E você já assumiu que é dramaturga, porque você sempre tem dificuldade em assumir o título…
Olha, quando me perguntam qual sua profissão, eu digo “sou assessora de imprensa”. Sou ligada nisso. Eu gosto de vocês. Como profissão, é isso que me fascina. Eu conheço cada um de vocês jornalistas e sei que têm um espaço cada vez menor para o teatro nos veículos. Você, por exemplo, eu acho um arauto da resistência! Mas voltando pra essa história de dramaturga, a ficha não caiu exatamente. Eu faço assessoria há 28 anos e escrevo há apenas sete. E só tive dois textos encenados com grandes temporadas. É muito recente. Ainda está caindo a ficha, mas é complicado falar, eu, Célia Forte, sou dramaturga.

E você consegue viver o lado dramaturga ou está sempre pilhada no lado assessora?
Eu tenho muito apoio. Aqui no Rio, por exemplo, tem a Gávea Filmes, que está produzindo, o Barata, que está fazendo assessoria de imprensa. E sempre tenho a segurança da Selma, minha sócia, na produção geral. Além disso, as meninas aí em São Paulo, que você conhece bem, a Beth Gallo e a Daniela Bustos, seguram as pontas para mim. Elas são ótimas. É isso que me deixa tranquila, nesse lugar confortável. As meninas me deixam curtir minha fase dramaturga [risos]. Mas eu ligo todo hora, porque estou com três estreias em São Paulo para semana que vem. Você vai, né?

Eu vou, Célia. Olha você sendo assessora de novo! [risos]
Eu estou presente de qualquer maneira sempre. Eu não aguento viver fora de assessoria de imprensa. Eu gosto desse nervoso, de estar em contato com as atrizes, atores, os jornalistas.

Qual o papel do Paulo Autran em sua carreira?
Eu vou falar isso sempre porque foi fundamental, trabalhamos 19 anos juntos. Miguel, você se lembra, o Paulo ia em todas as peças, ele assistia a tudo, fosse nos porões ou nos palácios do teatro. Ele não negava nada. Ele me ensinou todos os ângulos do teatro.

O Paulo era tudo. Tenho orgulho enorme de ter podido entrevistá-lo algumas vezes.
Ele era! Eu comecei a trabalhar com ele com apenas 28 anos. Imagina, abrimos a Morente Forte em 1985 e em 1989 já estávamos com ele. O Paulo Autran nos alavancou no sentido humano e profissional. E virou nosso amigo, jogávamos cartas juntos. Então, sempre que escrevia textos, mostrava para ele e para outros grandes incentivadores, como a Denise Fraga e a Clarice Abujamra. Mas quem mais falava era o Paulo. Ele leu Amigas e também Ciranda. Então, você imagina o que essa peça significa para mim. Sempre que escrevo outro texto penso o que ele falaria… Ele me ensinou que algumas palavras não precisam ser ditas. Nunca estudei dramaturgia, mas fiz um phD nos bastidores. Eu sou alucinada por teatro.

E como você vê o mercado teatral atualmente?
Eu acho que as pessoas gostam e vão cada vez mais ao teatro. Antes tínhamos seis peças, hoje temos 140 em cartaz em São Paulo! Se a peça for boa o público vai. Nas redes sociais há muita generosidade com a divulgação. As pessoas que gostam, realmente torcem para o teatro, seguem, espalham, divulgam.

Célia Forte é dona da Morente Forte, em parceria com Selma Morente – Foto: Bob Sousa

Você e a Selma construíram um nome incrível e de muito respeito no mundo teatral e jornalístico. Como você vê esta conquista?
Eu conheci a Selma na Cásper Líbero [faculdade paulistana onde elas estudaram jornalismo]. Ela fazia assessoria e eu escrevia para jornal. Aí, um Valter, um amigo em comom, falou para a gente abrir um empresa. Só que ele foi morar em Florianópolis e ficamos só nós duas. Pensamos e decidimos: vamos fazer. Quando falamos com um amigo, ele deu a ideia dos sobrenomes. O meu é Forte e o dela é Morente. Colocamos Morente Forte, porque ia soar já uma empresa de tradição, familiar [risos]. Lembro que o contador falou: “vocês estão colocando o nome da família de vocês!”. Agora, 28 anos depois, a gente vê e fala: “É uma história de vida!”

E essa história de também produzir peças?
Como somos amigas de muitos atores, eles nos chamam para fazer juntos. Fica mais barato, porque junta assessoria de imprensa e a produção. Então você faz um modelo que funciona, que barateia a produção. Amigas pero No Mucho, nós estreamos nos quatro primeiros anos sem um tostão com patrocínio. E Amigas está em cartaz no Teatro das Artes aí em São Paulo também sem grana nenhuma de patrocínio.

Você gosta do que faz, Célia, este é o segredo.
Eu acho que têm pessoas que tem sorte na vida. Quem faz o que gosta não trabalha. Eu não acho que estou aqui trabalhando. Não parece que é um trabalho. Não são todas as pessoas que tem essa sorte. Hoje eu fui fazer mão e a manicure era alucinada com isso, gostava mesmo. Eu sou alucinada com teatro. Fico feliz, porque nem pago ingresso quando eu quero ir. E quando escrevo, tem pessoas altamente qualificadas que me pedem para ler. E são todas minhas amigas, assim como vocês jornalistas, pelos quais sempre tenho um respeito enorme e uma relação de muito carinho que é antiga, você sabe.

Então eu vou ser jornalista. Eu quero um furo. Você está escrevendo alguma peça nova?
Vou contar para você em primeira mão. Estou escrevendo um musical. Chama-se Fórmulas do Amor. É com as músicas do Léo Jaime, para final de 2014 ou começo de 2015, mas está bem saboroso fazer! Criar uma história em cima de já existe. Adivinha quem vai dirigir? O José Possi Neto! E quem vai produzir e fazer a assessoria? A Morente Forte! [risos].

À esq., Ciranda, com Daniela Galli e Tânia Bondezan, em cartaz no Teatro Leblon, no Rio; à dir., Elias Andreato em Amigas, pero No Mucho, em cartaz no Teatro das Artes, em São Paulo: dramaturgia de Célia Regina Forte na ponte aérea mais importante do teatro brasileiro – Fotos: Divulgação

Ciranda
Avaliação: Muito bom
Quando: Quinta, sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. 80 min. Até 23/6/2013
Onde: Teatro Leblon (r. Conde Bernadotte, 26, Leblon, Rio, tel. 0/xx/21 2529-7700)
Quanto: R$ 50 a R$ 60
Classificação etária: 12 anos

Amigas, pero No Mucho
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 21h30; sáb., 21h, dom., 19h. 70 min. Até 30/6/2013
Onde: Teatro das Artes (av. Rebouças, 3970, São Paulo, CPTM Hebraica Rebouças, tel. 0/xx/11 3034-0075)
Quanto: R$ 40 a R$ 60
Classificação etária: 14 anos

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Olá, Arauto da Resistência (gostei do título que te foi outorgado por Célia)!:)
    Mais uma entrevista inteligente e que consolidou meu respeito pelo finado Paulo Autran (que descanse em paz!).
    O Possi Neto é muito bom. Até eu, que moro num Estado sem grande incentivo governamental ao teatro (pelo menos, é o que aparenta), já ouvi falar do trabalho dele.
    P. S.: Já que a Célia falou que havia pintado as unhas, até tentei ver se estavam bonitas, mas as fotos não focaram bem as unhas dela. As unhas dela só apareceram nas duas fotos em preto-e-branco…

  1. junho 20, 2013

    […] Ao mesmo tempo em que você ri com as situações mais fantasiosas criadas pela autora da peça, Célia Regina Forte, é possível se colocar no lugar de qualquer uma das duas personagens em cena e permitir que a […]

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