Crítica: Kabarett transporta público para anos 40

Elenco heterogênio de Kabarett demonstra unidade cênica e diverte o público – Foto: Álvaro Barcellos

Por Miguel Arcanjo Prado

Enquanto a praça Roosevelt começa a fervilhar no sábado à noite cheia de possibilidades, um pequeno grupo prefere aguardar o início do espetáculo Kabarett, na sala Miniteatro do Espaço da Cia. da Revista. A peça promete adentrar madrugada e há certa disposição na plateia para se divertir. Afinal, é sábado à noite. Enquanto esperam, muitos já se munem de drinques, para deixar a sessão mais leve.

Logo o sinal avisa que a peça vai começar, e todos se enfileiram para subir a escada no fundo do bar, que leva à diminuta sala, onde a plateia é recebida de forma efusiva pela trupe de artistas, já devidamente vestida e maquiada como uma trupe de cabaré dos anos 1940.

Kleber Montanheiro é o grande nome. Assina texto, direção, pesquisa, figurino, cenário e iluminação, além de protagonizar a peça na pele do travesti Georgette. Tudo gira no entorno dele. É ele quem comanda, completamente à vontade, a festa naquele cabaré enquanto as bombas da Segunda Guerra Mundial explodem lá fora, lugar onde a tristeza deve ficar.

O elenco é eclético e demonstra unidade. É formado, além de Montanheiro, por Adriano Merlini, Bruna Longo, Daniela Flor, Deborah Penafiel, Gabriela Segato, Heloisa Maria, Luiza Torres, Natália Quadros, Paulo Vasconcelos, Pedro Bacellar e Pedro Henrique Carneiro. Fazem personagens diversos, como a pianista gorda – e que faz de seu piano, tocado ao vivo, um charme à parte –, o marinheiro sexy ou a corista azeda, sempre reclamando de tudo.

O pequeno tamanho do espaço ajuda deixar próximo público, acomodado em mesinhas onde beberica vinho ou até caipirinha, e artistas, que apresentam seu show de variedades. Cada qual com seu grande número – alguns não tão grandes assim…

A montagem evidencia farta pesquisa sobre o gênero cabaré, queridinho por artistas de variadas gerações. Eles têm ritmo em boa parte da obra e é claro o objetivo da trupe em não deixar a peteca cair.

Espirituoso e carismático, Kleber Montanheiro é o destaque de Kabarett, da Cia da Revista – Foto: Álvaro Barcellos

Se o mundo externo afunda no ódio nazista – ou no ódio homofóbico do Brasil de hoje –, dentro do cabaré impera clima de autonomia do pensamento, liberdade para fazer críticas mordazes, além de muita diversão, porque ninguém é de ferro.

Grande parte do espetáculo é calcada na presença e no talento de Kléber Montanheiro. Com grande poder de improviso, ele faz um potente mestre de cerimônias. O público embarca em qualquer coisa que ele propor.

Certo ar de decadência e iminente derrota também paira no ar, fazendo com que, concomitantemente ao clima de euforia, paire também o medo e a expectativa do pior.

A montagem dosa essa dicotomia com destreza em grande parte da obra. Contudo, na parte final, estende-se por demais na melancolia, deixando o público um pouco enfadonho. Faltou à direção perspicácia para fazer um corte preciso neste momento derradeiro, deixando a peça com ritmo até o fim.

Contudo, tal falha não é capaz de tirar o brilho do espetáculo, que tem artistas entregues na missão de divertir o público por mais uma noite, enquanto o mundo lá fora está cada vez mais perdido. Nem que seja pela última vez.

Kabarett
Avaliação: Bom
Quando: Sábado, às 23h. 120 min. Em cartaz por tempo indeterminado.
Onde: Sala Miniteatro do Espaço Cia. da Revista (praça Roosevelt, 108, Consolação, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3255-0829)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

 

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    É, realmente não é exatamente meu gênero preferido, mas procuro ver um pouco de tudo (dentro de meus limites ético-religiosos, obviamente). Sobre cabaré, eu vi um filme, O OVO DA SERPENTE, com a Liv Ullmann. O filme tem certa semelhança temática com essa peça: a alienação nos cabarés como fuga do terror do Nazismo que se instalava. Entretanto, confesso que não achei o filme muito agradável de ser assistido. Prefiro ver romances épicos ou tramas detetivescas ao estilo de Hitchcock. Mas consigo entender a proposta de peças como Kabarett e filmes como O Ovo da Serpente. É, de novo, a arte como instrumento de crítica social.

    • Miguel Arcanjo Prado disse:

      Felipe, sugiro que veja Cabaret, o filme, com a Liza Minelli, a quem já tive a honra de entrevistar. Certamente vai gostar!

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