Crítica: Peça mostra que “cura gay” não existe

Espetáculo Aos Nosso Filhos tem a estrela portuguesa do cinema Maria de Medeiros (de vermelho): ela contracena com a carioca Laura Castro, também autora, como mãe de uma filha lésbica – Foto: Irene Nóbrega

Por Miguel Arcanjo Prado

Em um País no qual a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aprova o projeto de “cura gay” na surdina, enquanto o povo protesta nas ruas, a peça Aos Nossos Filhos se torna praticamente obrigatória a qualquer um que tenha interesse em ver uma discussão atual feita pelas artes cênicas.

Em cartaz no Teatro do Sesc Santana, a obra tem texto de Laura Castro, que contracena com a estrela portuguesa Maria de Medeiros – que estrelou o filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, em 1994.

As duas interpretam um embate de filha e mãe. Medeiros, a mãe, domina a cena em uma construção crível e que impressiona pelo trabalho da atriz em amenizar o sotaque, quase imperceptível. Ela é uma médica com passado de militância esquerdista nos tempos de ditadura militar, com direito a exílio fora do País. Contudo, o discurso libertário do passado enfraquece diante da homossexualidade dentro de casa. Castro, a filha lésbica, uma advogada individualista, comunica à mãe que esta será avó. Mas quem está grávida é sua mulher.

João das Neves, em uma direção tradicional e sem arroubos, aposta no embate freudiano entre mãe e filha. Uma relação doentia como muitas que existem por aí, ainda mais agravada pela questão da homossexualidade da última, que a mãe tentou no passado “curar” com namoradinhos e cobranças.

A crise da mãe em aceitar a homossexualidade da filha é a grande tensão dramática desta montagem, que não é reducionista ou inocente quanto ao tema.

Castro, que se sai melhor como dramaturga do que como atriz, acerta em não fazer uma peça maniqueísta. Coloca na personagem da filha lésbica valores nem sempre nobres e mostra que esta também é repleta de preconceitos.

Embate entre mãe e filha é tema de Aos Nossos Filhos no Sesc Santana- Foto: Irene Nóbrega

O cenário de Rodrigo Cohen propõe uma espécie de castelo de areia prestes a desmoronar diante da mais fraca onda. É sobre este frágil piso que a relação de mãe e filha caminha, entre ressentimentos, conflitos, amor e ódio. Se Cohen acertou no cenário, não repete a façanha nos figurinos, sobretudo o de Castro, que é por demais sisudo e não condizente com a personagem.

A direção também poderia ter dado um corte preciso à obra, deixando-a mais enxuta e impactante. A peça teria um final perfeito com a cena na qual as cartas caem do céu, mas insiste em continuar.

A obra tem execução de música ao vivo em determinados momentos – sob responsabilidade dos pianistas Filipe Bernardo e Iuri Salvagnini.  Contudo a entrada do músico, sobretudo no momento derradeiro da obra, soa invasiva. Seria melhor que eles tivessem ficado em posição mais discreta, já que o embate ali é entre mãe e filha. Uma figura masculina presente no palco é forte por demais para não roubar a cena.

Contudo, Aos Nossos Filhos cumpre com uma função primordial do teatro, que é pensar o seu tempo.

Os homossexuais conquistam seus direitos civis, como o casamento, e formam novas famílias. Isso é irrevogável. Nem Feliciano, com sua sanha de transformar orientação sexual em doença vai conseguir mudar.

O grande recado da obra é que homossexualidade não é doença. E não precisa de cura. Muito pelo contrário, precisa de cabeças inteligentes dispostas a dialogar e aceitar aquilo que, num primeiro momento, soa diferente.

O que a peça explicita é que estas novas famílias precisam ser incorporadas sem preconceito à sociedade. Porque, felizmente, os tempos são outros.

Aos Nossos Filhos
Avaliação: Bom
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. Até 30/6/2013
Onde: Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, Metrô Jardim São Paulo, tel. 0/xx/11 2971-8700)
Quanto: R$ 6 a R$ 24
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    O que é mais pernicioso é a mensagem subliminar de que ser “gay” é uma doença. A pessoa não deve se sentir desqualificada por conta de sua orientação sexual. As pessoas são diferentes e, por uma questão de dignidade, devem ser respeitadas.

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