Teatro de perto: dramas familiares ganham força em espetáculos latinos do FIT Rio Preto 2013

Dor em família: drama chileno Galvarino é o grande destaque do FIT Rio Preto 2013 – Foto: Pierre Duarte

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial do R7 a São José do Rio Preto (SP)*

Um filho desaparecido e a família que ficou em uma espera sem fim. Uma babá que reaparece e faz florescer a decadência de uma família. Lembranças de integrantes da banda que tocava para o narcotraficante Pablo Escobar mortos em um atentado a bomba.

Os espetáculos latino-americanos do Festival Internacional de São José do Rio Preto, o FIT 2013, estão recheado de dramas familiares. São eles o chileno Galvarino, o argentino Emilia e o colombiano Discurso de um Hombre Decente.

Não por acaso, o tema da 13ª edição, que vai até o próximo dia 13 de julho, é a proximidade entre realidade e ficção.

Dois deles estarão em São Paulo capital nesta semana: Galvarino, nos dias 10 e 11, 21h, no Sesc Pompeia; e Discurso de um Hombre Decente, nos dias 9 e 10, também às 21h, no Sesc Vila Mariana.

Arrebatadora: diretora e atriz Paula González Seguel em cena de Galvarino – Foto: Pierre Duarte

Desaparecimento e descaso político

O espetáculo chileno Galvarino, a grande sensação do evento, é baseado na história real do tio da diretora Paula González Seguel, da Compañia Teatro Kimen, de Santiago.

Galvarino existiu de verdade e foi morar na Rússia nos anos 1970. Desapareceu logo após a queda do comunismo, na década de 1990. O drama da família mapuche, a principal etnia chilena, à espera de notícias rendeu uma obra que conta com a própria diretora interpretando sua tia e contracenando com o próprio avô, Luis Seguel, que na peça interpreta o pai de sua personagem. A atriz Elza Quinchaleo vive a mãe de Galvarino.

Esta é a primeira vez que a montagem, com dramaturgia e codireção de Marisol Veja Medina, é apresentada fora do Chile. Em conversa exclusiva com o R7, Paula conta que a obra aborda “uma situação dolorosa para sua família”.

– A dor é muito forte e ficou guardada durante muito tempo em silêncio. O povo mapuche foi vítima de muita injustiça e descaso das autoridades. De alguma maneira, o teatro está dando visibilidade internacional a isso.

Paula recorda que conheceu seu tio quando era pequena, quando este visitou os familiares. Ela o foi buscar no aeroporto, poucos anos antes de ele retornar à Rússia, onde desapareceu. Ela crê que o descaso das autoridades para o caso está mais ligado a fatores sociais do que de etnia.

– Acho que, mais do que por sermos mapuche, isso aconteceu porque se tratava de uma família pobre.

Ela lembra que a tia que interpreta, Marisol Ancamil, foi ver a obra em Santiago do Chile e se emocionou muito.

– Foi muito forte para ela. Tratamos de fazer uma denúncia com nossa história. Porque, antes de tudo, é uma história universal de injustiça.

Cena da obra argentina Emilia, que conta a história de uma babá que volta do passado – Foto: Gustavo Pascaner

Passado à tona

Os argentinos do TeatroTimbre4 também aportaram em São José do Rio Preto com um drama familiar. Trata-se da peça Emilia, que conta a história do reencontro da babá com a criança que cuidou no passado, agora pai de uma família prestes a entrar em colapso.

Em conversa exclusiva com o R7, o diretor e dramaturgo Claudio Tolcachir que se inspirou no reencontro que teve com sua própria babá para escrever a peça. Mas adianta que isso foi só o ponto de partida, e que a obra é uma ficção.

– Cecília [o nome da babá verdadeira] foi ver a peça em Buenos Aires e se emocionou muito.

Claudio não gosta de definir sua peça como um drama familiar. Prefere dizer que está contando “história de pessoas”.

– As famílias não me interessam, mas, sim, seus personagens.

Tom político: o rapper Jeihhco, de Medellín, fala discursos de Pablo Escobar ao som da Banda Marco Fidel Suárez, a mesma que tocou e foi vítima do narcotraficante mais famoso da Colômbia – Foto: Pierre Duarte

Vítimas do narcotráfico

Já a montagem colombiana Discurso de um Hombre Decente, do Mapa Teatro, tem como pano de fundo as palavras de Pablo Escobar, o narcotraficante mais famoso da América Latina, morto em 1993.

Além das projeções de seu rosto no palco, e de suas palavras na voz do rapper Jaison Castaño, o Jeihhco, há uma lembrança bem mais real sobre o tablado: a Banda Marco Fidel Suárez, que acompanha a peça ao vivo, é a mesma que tocava em comícios de Escobar pela Colômbia. Ou melhor: falta-lhe três de seus integrantes, que morreram em um atentado a bomba na praça de Toros La Macarena em Medellín, em 16 de fevereiro de 1991.

É preciso saber viver: o músico Danilo Jimenez (foto) trabalhou com Pablo Escobar – Divulgação

O líder da banda, Danilo Jimenez, um dos sobreviventes, revela ao R7 que sua mulher, Gabriela Jaramillo, foi a quarta vítima – ela ficou gravemente ferida e acabou morrendo 16 anos após viver em estado vegetativo, em consequência do que sofreu.

Danilo até hoje não escuta bem, em consequência da explosão.

– Um dia, por intermédio de outra pessoa, o Pablo Escobar me chamou e disse que queria trabalhar conosco tocando para ele em seus comícios. Tenho muitas lembranças ingratas desta época, porque passamos muito mal. São lembranças difíceis de reviver no palco, mas isso ajuda a divulgar ao mundo o que aconteceu na Colômbia.

Apesar de tanto sofrimento provocado pela guerra do narcotráfico, Don Danilo, como é respeitosamente chamado por seus colegas, afirma que “já perdoou Pablo Escobar”.

– Sei valorizar a vida e aproveitar cada instante dela. Não tenho mais espaço para mágoas em meu coração. Viver é o mais importante.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT Rio Preto 2013.

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