Crítica: Com jovens sedentos de palco, musical Cabaret é sucesso de público em São Paulo

Musical Cabaret tem lotado o Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista, em São Paulo – Foto: Eduardo Enomoto

Por Bruna Ferreira
Especial para o Atores & Bastidores*
Fotos de Eduardo Enomoto

Cabaret é um dos musicais mais interessantes da Broadway. Não tem aquela felicidade obrigatória deste tipo de produção; muito pelo contrário: é denso, introspectivo e acontece sob a névoa nazista que chega à Alemanha dos anos 1930.

Além disso, tem uma protagonista cuja decadência é o seu grande charme. São a maquiagem borrada, o excesso de gim e a vida de fracassos que fazem com que o público se identifique com a dançarina Sally Bowles, já defendida por Liza Minelli e Claudia Raia.

Assim, montar o texto de Joe Masteroff com músicas lendárias de John Kander e letras de Fred Ebb é um grande passo para ter um espetáculo que funcione.

Mas, a isso tudo, o diretor paulistano André Latorre conseguiu um charme a mais: o da juventude sedenta por fazer teatro, com sua inocência cênica, cheia de erros e acertos.

Novo nomes: à esq., Rita Gutt e Anderson D’Kássio; à dir., Gabriel Ivanoff – Foto: Eduardo Enomoto

É essa mistura que faz da versão universitária de Cabaret um sucesso comprovado pelas extensas filas no Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista, em São Paulo.

Latorre reuniu 21 atores na Cia. Instável, grupo formado por alunos do curso de teatro da Faculdade Paulista de Artes. Além da direção, na qual contou com assistência de Liza Caetano, assina também iluminação, figurino e cenografia. Esta última, feita em parceria com Dalila Cruz, se destaca pela precisão com que conseguiu equilibrar uma produção sem muitos recursos com eficiência. A sala de arena Myriam Muniz é transformada no cabaré Kit Kat Club, no camarim da protagonista, Sally, ou na pensão onde a dançarina vai morar com o escritor norte-americano Clifford Bradshaw.

O diretor conseguiu criar uma unidade em meio a tanta diversidade e o resultado é um espetáculo que envolve o público.

Juan Manuel Tellategui (à esq.) e Rita Gutt (à dir.) são destaques do elenco – Foto: Eduardo Enomoto

Destaques do elenco

O elenco traz novos nomes à cena teatral paulistana. É encabeçado por Rita Gutt, atriz e cantora que se recusa a entrar pelo fácil caminho do exagero; muito pelo contrário, faz uma Sally Bowles simples e certeira. Rita é segura, afinada e carismática. E impressiona a todos ao cantar sem microfone e acertar todas as notas possíveis.

Outro que chama a atenção é o ator Gabriel Ivanoff, dono de exótica beleza e que segura o clima da peça como o Mestre de Cerimônia, navegando entre mistério e riso. Apesar de algumas irregularidades, como o choro forçado na cena final, ele vai bem por quase todo o espetáculo.

Outra novidade é o argentino Juan Manuel Tellategui, na pele do vilão, o nazista Ernest Ludwig. Fazendo de seu leve sotaque um diferencial positivo, o ator demonstra experiência para segurar tanto cenas cômicas, como quando seu personagem aprende a falar inglês, ou dramáticas, como aquela em que ameaça sutilmente a amiga alemã prestes a se casar com um judeu.

Com voz afinada, Anderson D’Kássio oscila como o inseguro escritor Clifford Bradshaw. O ator faz uma interpretação pomposa, que destoa do naturalismo de Rita Gutt, seu par romântico. No embate final entre os dois, falta-lhe peso para a situação dramática que a cena exige.

Liza Caetano, como a dona da pensão Fraulein Schneider, também mostra segurança, sobretudo quando solta o vozeirão. Já Adanias Souza vai na simplicidade para conquistar a simpatia do público pelo seu personagem, o velho judeu Herr Schulzz apaixonado por ela.

Musical Cabaret faz últimas sessões no Teatro Ruth Escobar com entrada grátis – Foto: Eduardo Enomoto

O coro é vivo, mas irregular: ao mesmo tempo em que há atores e atrizes entregues, há também outros dispersos. Também escorrega na afinação em alguns momentos.

Destaque para a atitude da pequenina e agitada Laís Flinco, Giovanna Cameron, Cinthia Arruda (que também se sobressai nas cenas como uma das moradoras da pensão), Ana Paula Faustino, Cintia Fer e Fernanda Carvalho.

Ainda compõem o elenco Lucimar de Santana, Tiago Prado Dort, Ismael Resende, Daniel Prata, Wilton Leal, Lucas Figueiredo, Anny Carvalho, Silvana Ritter Vargas, Karem Almeida e Agatha Miklos.

Musical universitário Cabaret é composto por alunos da Faculdade Paulista de Artes – Foto: Eduardo Enomoto

O sucesso de público do musical Cabaret comprova que os espectadores paulistanos sabem também valorizar uma produção feita na raça e não só os grandes musicais com investimentos de milhões.

A obra mostra que a simplicidade é interessante. E, o principal, que nada substitui a vontade de fazer.  Com seus erros e acertos, o Cabaret de André Latorre é um musical que tem na exposição da juventude sedenta pelo palco seu maior trunfo.

*Bruna Ferreira é jornalista formada pela USP e repórter do R7.

Com direção de André Latorre, musical Cabaret reúne novos nomes dos palcos de SP – Foto: Eduardo Enomoto

Cabaret
Avaliação: Bom
Quando: Segunda, terça e quarta, 19h e 21h. 100 min. Até 31/7/2013
Onde: Teatro Ruth Escobar – Sala Miriam Muniz  – 60 lugares (r. dos Ingleses, 209, Bela Vista, São Paulo, Metrô Brigadeiro. Tel. 0/xx/11 3289-2358).
Quanto: Grátis (ingressos disponíveis para retirada duas horas antes de cada sessão – atenção: a fila costuma se formar três horas antes de cada sessão)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. novembro 22, 2013

    […] das Satyrianas, no domingo (17). Até o ator Adanias Souza, que viveu o judeu Schulzz no musical Cabaret, em julho deste ano, estava lá cantando em Tebas. A peça ainda terá mais duas apresentações: […]

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