Crítica: Ator Fransérgio Araújo dá grito de dor e coragem no espetáculo solo O Mal Dito

Fransérgio Araújo vive homem atormentado em monólogo em cartaz neste mês em SP – Foto: Vinicius Carvalho

Por Miguel Arcanjo Prado

Quem foi que falou que a vida é fácil? É deveras difícil, meu caro internauta, ainda mais quando se é artista, marginal, lutando, às vezes quase sem força para fazer aquilo no qual se acredita.

O espetáculo O Mal Dito, de Fransérgio Araújo, é uma dessas catarses. É feito daquele momento quando um artista resolve acreditar de novo e seguir em frente mais uma vez.

Araújo é ator com longa estrada. Já trabalhou com gente graúda, como José Celso Martinez Corrêa, Márcio Aurélio, Ron Daniels, Hamilton Vaz Pereira, Marcelo Drummond, Renée Gumiel e Jacqueline Laurence, entre outros. Nesta peça, resolveu estar só e assumiu também a direção.

O público entra na sala escura e dá logo de cara com o ator em um canto no palco, iluminados por velas que se consomem rapidamente. Está lambuzado de cores escuras, em constante ânsia de vômito. Um líquido vermelho escorre de sua boca. O impacto é imediato.

Logo, ele começa a dizer, em tom gutural e às vezes ininteligível, seus pensamentos. Todos pessimistas em relação à humanidade.

A peça da Cia. Ópera Ritual é inspirada na obra Cantos de Maldoror, do desiludido escritor franco-uruguaio Isidore Ducasse (1846-1870). O texto não apresenta visão muito feliz sobre o bicho homem. Maldade, crueldade e covardia estão presentes na concepção do autor sobre nós.

Como um bicho acuado, o personagem lamenta, agoniza. Dá pena. Dá medo. Mexe com a gente.

O protagonista do monólogo vivido por Fransérgio de Araújo representa ao mesmo tempo uma figura muito comum em uma cidade fria e dura como São Paulo: o artista que tenta sobreviver, mas que, neste embate, acaba perdendo a beleza da inocência, tragada pelo passar dos anos de derrotas constantes.

Araújo investigou o Teatro da Crueldade de Antonin Artaud para compor seu personagem. Diz que tentou fugir do autocontrole e do naturalismo. Na sessão vista pelo R7 isso ficou bem claro. Ele se desnudou emocionalmente, chorou, saiu de si, voltou, brincou, compartilhou, e, sobretudo, comoveu os presentes no Espaço dos Satyros 1 naquela fria noite de domingo. Agora, cumpre nova temporada no Club Noir.

Assim, o espetáculo trata-se de um trabalho performativo, no qual o ator-diretor mistura-se ao personagem, causando assombro e também aproximação com seu público. O Mal Dito é um grito de revolta feito com muita coragem.

O Mal Dito
Avaliação: Bom
Quando: Quarta, 21h. 50 min. Até 28/8/2013
Onde:  Club Noir (r. Augusta, 331, Consolação, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3255-8448)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Embora a peça seja, em si, bem crua, o texto não ficou áspero. Ao contrário, houve até um lirismo, como no parágrafo a seguir transcrito: “Como um bicho acuado, o personagem lamenta, agoniza. Dá pena. Dá medo. Mexe com a gente.” Seu olhar para a obra foi muito atento.

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