Entrevista de Quinta: “Quero passar duas semanas vendo peças em SP”, diz autor de As Cinzas do Velho, o norte-americano Kelly McAllister

 

O autor californiano Kelly McAllister tem de vontade de conhecer a cena teatral paulistana – Foto: Arquivo pessoal

Por Miguel Arcanjo Prado

Após curta temporada no primeiro semestre, a peça As Cinzas do Velho reestreia em São Paulo nesta sexta (9), no Teatro João Caetano, na zona sul da capital (veja serviço ao fim da entrevista), onde cumpre temporada até 15 de setembro de 2013 com ingresso ao preço popular de R$ 10.

O enredo conta a história de dois irmãos, interpretados por Alexandre Cruz e Marcelo Carvalho. Eles se reencontram na morte do pai, quando precisam, para realizar o desejo do progenitor, levar as cinzas dele até um festival no interior dos Estados Unidos. A viagem acaba sendo um momento de reencontro entre os dois. No elenco da peça dirigida por Luís Artur Nunes , ainda estão Antoniela Canto, Cibele Bissoli, Leandro Madeiros e Ricardo Ripa.

O espetáculo é de autoria do dramaturgo norte-americano Kelly McAllister, que também é ator e professor. Ele concedeu esta exclusiva Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7.

Formado em artes cênicas pela San Jose State University, o californiano já trabalhou com renomadas companhias teatrais dos EUA.

Começou a escrever para teatro em 2002, quando levou o prêmio Exelência em Dramaturgia do New York International Fringe Festival com a peça Last Call (Última Chamada). Desde então, não parou mais. As Cinzas do Velho foi escrita em 2005 e também foi laureada: levou melhor texto teatral no New York Innovative Theatre Festival. Além do Brasil, o texto ainda foi montado duas vezes na República Tcheca.

Durante a conversa com o R7, McAllister falou como é ver um texto seu encenado mundo afora. E ainda criticou o preço dos ingressos na Broadway, afirmou que morre de vontade de conhecer o teatro paulistano e revelou que se inspirou na própria vida para fazer a peça que chega ao Brasil.

Leia com toda a calma do mundo:

O dramaturgo Kelly McAllister em seu escritório de trabalho, nos EUA – Foto: Arquivo pessoal

Miguel Arcanjo Prado – Você alguma vez imaginou que teria uma de suas peças encenada no Brasil? O que você acha disso?
Kelly McAllister – Escrevi esta peça inicialmente para uma produção de Nova York. Mas é claro que quando escrevo peças desejo que elas sejam capazes de tocar todos, em todas as partes do mundo, então, quando Alexandre Cruz me procurou interessado em montá-la no Brasil, fiquei muito excitado com a ideia. Aliás, fico muito feliz por ter pessoas tão incríveis como Alexandre Cruz, Marcelo Braga e toda a sua equipe levando de forma tão profissional para o público brasileiro uma de minhas obras, isso é muito gratificante.

Qual artista que você admira?
Eu admiro vários artistas! Falando de autores especificamente, posso dizer que adoro Shakespeare, Tennessee Williams, Sam Shephard, Samuel Beckett, Tom Stoppard, Stephen Aldy Guirgas e, claro, Tchekhov. 

Você conhece o Brasil? O que sabe de nosso país?
Não conheço o Brasil ainda. Adoraria poder estar aí agora e assistir As Cinzas do Velho. Gostaria de conhecer este país enorme, com tanta diversidade, conhecer suas cidades e seu interior também.  Não sei muita coisa sobre o Brasil, mas acredito que a melhor maneira de conhecer um país é ir até ele, comer sua comida, ouvir sua música, e conhecer seu povo. Vou amar fazer tudo isso no Brasil, assim que eu puder.

O dramaturgo Kelly McAllister: vontade de vir ao Brasil – Foto: Arquivo pessoal

Você sabia que a produção teatral em São Paulo é considerada tão efervescente quanto a de Nova York?
Tenho percebido isso, acompanhando as temporadas de As Cinzas do Velho aí em São Paulo, percebo a quantidade de peças em cartaz e toda a mídia voltada para o teatro. Esse é outro motivo que me faz querer muito conhecer o Brasil, especialmente São Paulo. Adoraria passar uma ou duas semanas por aí e assistir quantas peças eu conseguir, seria incrível!

Você gostaria de ter outras de suas peças encenadas no Brasil?
Adoraria ver todas as minhas peças encenadas no Brasil! Acho que uma boa maneira de saber se suas peças estão de fato ligadas à alma humana é vê-las tocando pessoas de outros países.

As Cinzas do Velho fará a partir deste mês uma nova temporada com preços populares. O que você acha dessa iniciativa de popularizar o teatro?
Acho isso ótimo! Teatro deveria ser sempre acessível a todas as pessoas, independentemente de suas condições econômicas. Acho ridículo, por exemplo, os ingressos na Broadway custarem no mínimo 100 dólares. Acho isso insano. Por isso, fico muito feliz que por aí exista esse tipo de iniciativa. Quero que todo mundo assista As Cinzas do Velho.

Alexandre Cruz (de vermelho) e Marcelo Braga em As Cinzas do Velho, peça de Kelly McAllister – Foto: Vitor Vieira

Qual foi sua inspiração para escrever esta peça?
Diria que minha maior inspiração para escrever essa peça foi minha relação com meu pai e com a morte dele. Ele abandonou nossa família quando eu tinha quatro anos e assim como Bobby e Mike, os protagonistas de As Cinzas do Velho, eu só fui reencontrá-lo bem mais tarde, aos 28 anos de idade. Na ocasião, tivemos pouco tempo juntos e alguns anos depois, ele morreu, me deixando completamente abalado. Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia na minha vida pessoal, a Companhia Teatral Boomerang de Nova York me pediu pra que escrevesse uma peça. Na mesma época, li um artigo num jornal sobre o tal Festival Burning Man, que ocorre todo ano no deserto de Nevada. As pessoas vão neste festival com o desejo de se libertarem de tudo que é dor, tristeza e de certa forma renascer a partir disso queimando tudo numa grande fogueira. Então, eu imaginei dois irmãos, desesperadamente, tentando dar um fim para os restos mortais de seu pai, fazendo desse ato um rito próprio de libertação de tudo que essa relação paternal representa pra eles.

Como foi o processo de escrita?
Escrevi a maior parte da peça em menos de um mês, foi tudo muito espontâneo. Os personagens se definiram rapidamente na minha imaginação, era como se eu tivesse ouvindo suas vozes. Fui escrevendo tudo que via e ouvia da minha mente. De repente a peça estava pronta. Eu me diverti muito dando vida para esses personagens ora engraçados, ora estranhos e tristes, pessoas tentando fazer a sua a vida ter algum sentido e quase sempre fracassando nisso.  Foi um processo criativo muito excitante. A verdade é que quando eu escrevo, nunca me preocupo muito se o texto ficará bom ou não, engraçado o suficiente, profundo o necessário, eu simplesmente escrevo o que estou sentindo e deixo rolar, e com As Cinzas do Velho não foi diferente.

Tradução: Alexandre Cruz

As Cinzas do Velho
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. 90 min. Até 15/9/2013
Onde: Teatro João Caetano (r. Borges da Lagoa, 650, Vila Clementino, Metrô Santa Cruz, São Paulo, tel. 0/xx/11 5573-3774)
Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Fico muito feliz de ver que o autor Kelly tenha essa abertura mental de desejar passar 2 semanas vendo peças em São Paulo. Entretanto, se ele puder, deveria ver peças em outros Estados também. A dramaturgia brasileira é de qualidade e não fica a dever à de outros países.

  1. agosto 9, 2013

    […] Entrevista de Quinta: “Quero passar duas semanas vendo peças em SP”, diz autor de As Cinzas do … […]

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