Crítica: Nossa Classe evidencia brutalidade humana

Elenco de dez atores leva público para a Polônia pré-Segunda Guerra Mundial – Foto: Ronaldo Gutierrez

Por Miguel Arcanjo Prado

O bicho homem tem nele embutido o vício de querer se diferenciar de seus semelhantes. Sobretudo no sentido de achar-se melhor que os demais. Tal sanha já produziu muito horror e sangue no passado. E, infelizmente, segue produzindo o mesmo horror e sangue nos dias atuais.

E é esta a questão crucial da peça Nossa Classe, apresentada no Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, em São Paulo.

Nossa Classe mostra fatos históricos na Polônia pré-Segunda Guerra Mundial – Foto: Ronaldo Gutierrez

O texto de Tadeus Stobodzianek leva o público à Polônia dos anos 1920 e 1930, mergulhada em conflitos político-sociais até o último fio de cabelo antes da impiedosa Segunda Guerra Mundial.

O espectador acompanha as mudanças de ares, cada vez mais pesados, ora comunistas, ora nazistas, por meio de uma heterogênea turma de crianças, que ao longo da montagem vai crescendo e ganhando a vida adulta – com tudo de ruim que ela traz.

À medida que os anos passam, as diferenças entre os colegas de outrora vão se tornando gritantes e, muitas vezes, incompatíveis.

O ódio entre comunistas e nacionalistas e, depois, entre poloneses e judeus vai provocar esta bestialidade que nos acompanha chamada violência. O poder gera humilhação daquele que foi subjugado. E é bom lembrar que tal comportamento não é exclusividade de comunistas ou nazistas, foco do texto e representado na encenação com máscaras de Stalin e Hitler. Menos demonizados pela história, capitalistas, cristãos ou judeus também fizeram e fazem maldades – basta correr à biblioteca mais próxima ou ou assistir ao noticiário noturno para concluir tal coisa.

Figurinos elegantes e bem cortados ajudam a transportar público no tempo – Foto: Ronaldo Gutierrez

Os figurinos assinados pelo diretor Zé Henrique de Paula com assistência de Cy Teixeira ajudam a criar o clima, unidos ao cenário minimalista. As roupas são bem cortadas, elegantes e transportam o público no tempo, bem como contribui para isso a iluminação soturna e focada de Fran Barros – efeito já repetido com êxito em montagens anteriores do Núcleo.

Diante de tanto embate no texto, a trilha bem conduzida por Fernanda Maia serve como alívio imediato em meio ao horror.

Mas há certo incômodo na montagem: o excesso de ilustração daquilo que se narra. Mesmo que esta seja uma opção estética, em alguns momentos teria sido melhor confiar mais na narrativa, como na cena de estupro, que fica explícita e dura demais. Outro fator de estranhamento é uma falta de diálogo mais evidente com a contemporaneidade, ficando a obra presa por demais ao passado – tal ponte com outros fatos históricos apenas surge rapidamente no texto que o diretor escreveu para o programa da peça.

O elenco é oriundo de uma oficina de atores do Núcleo Experimental. Apesar da irregularidade perceptível, percebe-se um esforço na direção em colocar os atores dentro de um eixo. E é impossível negar que, independentemente do resultado alcançado, todos estão realmente entregues a seus papéis.

A maioria vai melhor quando está a cargo dos personagens na fase adulta. Na fase criança, há uma infantilidade exacerbada e até caricata em alguns.

Assim, acabam se destacando Henrique Caponero, com doses críveis de malvadeza, e Fabio Redkowicz, como um judeu que conseguiu livrar-se do holocausto com a mudança para os EUA, mas sofre por ter deixado os amigos para trás. Entre as mulheres, a sempre presente Maria Paula Lima também chama a atenção para si.

Completam o elenco Felipe Calçada, Bruno Gael, Priscila Oliva, Estrela Straus, Gutto Szuster, Pedro Passari e Rafael Augusto.

Independentemente dos acertos e possíveis tropeços da encenação, o principal recado de Nossa Classe está no detrás de seu texto e permanece contundente: que a brutalidade humana sempre jaz adormecida e pode ser despertada ao mínimo ruído. É preciso estar atento.

Nossa Classe
Avaliação: Bom
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. 95 min. Até 15/9/2013
Onde: Teatro do Núcleo Experimental (r. Barra Funda, 637, Metrô Marechal Deodoro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3259-0898)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Bastante corajoso o seu texto. E atualíssimo, considerando a gravíssima situação da Palestina. Felizmente ela já foi reconhecida pela ONU como Estado, ainda que observador. O mais correto seria que fosse reconhecida logo como Estado membro, mas ser Estado observador já é um avanço.

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