Entrevista de Quinta: “Ele falou que me acho uma estrela; mas eu sou” diz Phedra D. Córdoba

Phedra D. Córdoba, como Tirésias em Édipo na Praça: diva dos palcos brasileiros – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

A atriz Phedra D. Córdoba é uma das figuras mais carismáticas do teatro brasileiro. Em Édipo na Praça, a nova peça da Cia. Os Satyros, faz de sua aparição um momento único. Phedra tem respeito pelo palco, pelo público, pelo seu ofício de artista.

Aos 75 anos, a cubana radicada no Brasil desde 1958, é a grande diva da praça Roosevelt, o principal reduto teatral paulistano. Sempre está por lá, seja no palco ou em algumas das mesas, rodeada de amigos. Diz que é “proletária do teatro brasileiro”, que “vive a vida dentro de um palco”.

Phedra conversou com exclusividade com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta. Falou de tudo: do presente, do passado e do futuro. E ainda revelou que está sofrendo por amor.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Quais são as novidades, Phedra?
Phedra D. Córdoba –
No dia 7 de setembro, eu vou me apresentar no cabaré dos Parlapatões. Fui convidada por Hugo Possolo. Também tem o projeto da peça Madame Pompadour, que o Alexandre Staut escreveu para mim. Eu quero fazer com figurino de Walério Araújo, que é meu amigo. O Alexandre quer o Ivam Cabral para dirigir. Tomara, né?

Você já pensou o repertório para o show nos Parlapatões?
Quero cantar Tango para Tereza [começa a cantarolar] “A luz do cabaret…” Vou cantar também aquela outra que você já conhece Malagueña, do cubano Ernesto Lecuona. Vou usar castanholas!

Agora você está fazendo Tirésias, em Édipo na Praça. Sua cena é bem tecnológica, com você falando com um celular com a imagem de sua boca na frente. É difícil?
É, mas eu gosto de coisas assim, polêmicas. É uma cena muito técnica. Tenho de me concentrar muito. Depois, eu sei muito bem que Tirésias é muito importante na peça. É lembrado o tempo todo. E ainda tem a parte na rua. Quando estou na rua, o povo que passa tira fotografia minha. Estou adorando essa personagem! Ela está consumindo todo o meu tempo; eu nem consegui ir ver a peça do meu amigo Tadeu Ibarra, por exemplo. Eu adoro aquele menino.

Como você recebeu a notícia de que os Satyros ganhou o Fomento [patrocínio cultural do município de São Paulo]?
A primeira pessoa que soube antes de todo mundo foi eu. Porque o Rodolfo me ligou. Ele perguntou: “Está dormindo, amor? Nós ganhamos o Fomento”. Eu disse: “Não acredito!” Ele falou: “Pois acredite! Está no Diário Oficial!” [risos]

E essa história de que você está namorando?
Ai, eu não queria que ninguém soubesse! Você deu a nota na sua coluna e todo mundo veio me perguntar. É que ele é muito reservado, tem 54 anos, é divorciado… Mas eu briguei com ele, porque ele começou a querer me mandar sem a gente ainda ter feito nada na cama.

Onde ele te conheceu?
Ele me viu no teatro, acho que foi fazendo Liz. Porque nesta peça eu estava bonita, meu amor, fazia com a Silvanah Santos duas mexeriqueiras. Éramos lindas. Dizem que eu estou bonita em Édipo na Praça, mas eu não acho!

E como ele se aproximou?
Ele começou a me escrever pelo Facebook. Eu disse: “Não estou aqui para namorar na internet”. Aí, passei o telefone para ele e começamos a namorar pelo telefone. Mas, com o tempo, antes de a gente fazer nada, ele começou a querer me mandar, como se fosse meu marido. Como não gostei, ele falou que eu me acho uma estrela. “Mas eu sou uma estrela, meu bem”, eu disse a ele. Agora, estamos brigados.

Você está sofrendo?
Estou. Porque estou apaixonada… Ele soube me namorar, disse que iria me assumir. Mas também ele começou a querer mandar, a dizer: “eu quero você tal hora me esperando”. Eu disse: “eu não sou sua empregada”!

Phedra D. Córdoba: nasceu Felipe Acebal, mas virou a diva que todos conhecem – Foto: Bob Sousa

Bom, então, vamos mudar de assunto e deixar você resolver com ele. Como você saiu de Cuba?
Foi por ter entrado na companhia Cavalcata, onde comecei como corista. Aos poucos, fui agradando e me tornei uma figura. Era uma companhia famosíssima nos anos 1950. Até hoje é reconhecida por todos que conhecem a arte hispânica.

Eles estavam em Cuba?
Isso. Uma vez por ano, depois de Buenos Aires, eles iam para Cuba. Era uma companhia espanhola, mas sempre com grandes figuras cubanas.

Com você entrou?
Foi por meio de um amigo cubano que estudava comigo teatro na Escola Rosalia de Castro, em Havana, que existe até hoje. Hoje, ele mudou de sexo, é ela e está casada na Espanha. Na época, ele me falou: “chega de estudar e ficar sendo amadora, vem comigo que a Cavalcata chegou; vamos lá fazer o teste”. Eu fiz e passei. Nessa época eu tinha 15 anos.

E como foi?
Passei como corista. Mas logo fui me destacando e ganhei um solo. O diretor Ramón Bastida me mandou montar uma coreografia e escolher uma das bailarinas para fazer comigo. E fiquei por um ano na companhia. Quando fiz 16 anos me convidaram para viajar com eles.

Como a família reagiu?
Meu pai, Horácio Acebal, não estava nem aí, já minha mãe, Maria Tereza Betancourt, ficou louca. A minha mãe não queria que eu fosse mulherzinha, porque eu me maquiava muito. A maioria dos coristas eram mariquinhas mesmo. E minha mãe queria que eu fosse hétero que nem os meus irmãos. A mim sempre me pareceu que minha mãe queria ser artista. Nunca me atrevi a falar isso para ela, porque ela tinha um gênio forte que nem eu. Herdei dela, meu amor!

Nessa época como você se chamava?
Eu era Felipe D. Córdoba.

De onde veio o Córdoba?
Meu tio era um ícone do teatro cubano, Sérgio Acebal. Me parece que ele era um pouco homofóbico, porque eu usava Felipe Acebal. E ele não gostou. Disse ao meu pai que eu estava aproveitando o nome dele para ficar famosa. Meu pai ficou bravo, porque o sobrenome era da família inteira e não só dele. Aí eu falei com meu pai: “Eu vou mudar o nome Acebal e vou colocar Córdoba”. Foi por conta do Arturo De Córdova, que levou os mexicanos para Hollywood. Eu o vi fazendo Deus lhe Pague em Havana, peça que o pai da Bibi Ferreira, o Procópio Ferreira, deu para ele. Eu fiquei apaixonada por aquele homem. Foi em 1954 que eu botei Córdoba e não tirei nunca mais.

Como você saiu de Cuba?
Com eu tinha 16 anos, meu pai assinou o passaporte com uma data maior. Então, saí de cuba com 19 anos no documento. Meu pai me deixou viajar e fomos para a Venezuela. Isso foi em 1953. Depois, voltei para Cuba, mas em 1955 saí definitivamente. Era o Fulgêncio Batista quem mandava, o Fidel Castro só fez a Revolução Cubana em 1959, quando eu já estava no Brasil.

E você rodou o mundo?
Nessa turnê eu passei por Panamá, Nicarágua, Guatemala, Costa Rica, Bolívia… Mas eu não me dei bem na Bolívia, porque lá é muito alto e eu até fiquei hospitalizada, porque eu era acostumada a viver no nível do mar. Aí, fomos para Equador, tudo isso como Felipe D. Córdoba. Depois, fui para o Chile, onde fiquei um ano trabalhando em teatro, restaurante e boate. Aí me contrataram para ir a Buenos Aires, onde trabalhei na Companhia Romarías, no Teatro Avenida, na avenida Corrientes. O astro da companhia era Emilio de Utrera, que era flamenguérrimo e já era meu amigo da época da Cavalcata.

Como você veio para o Brasil?
Eu tinha um quadro especial lindíssimo em Buenos Aires, com coristas atrás de mim. Entrava recitando García Lorca, cantava e dançava. Tinha um brasileiro que trabalhava na Embaixada do Brasil e era meu amante. Ele sempre falava que um dia ia me levar ao Brasil, que era amigo de Walter Pinto, grande empresário do teatro brasileiro. Nesse meio tempo, eu fazia outros trabalhos em boates, e conheci Dalva de Oliveira e a Ângela Maria, que estavam fazendo turnês em Buenos Aires. Elas ficaram minhas amigas e me diziam que eu deveria ir, sim, para o Rio. Pois um belo dia, o meu namorado da Embaixada levou o Walter Pinto, que era o grande produtor de teatro de revista, e ele ficou louco comigo. Ele falou: “você é divina, vai arrasar no Rio”.

Quando foi a mudança?
Foi em 1958. Vim contratada por Walter Pinto para trabalhar no Teatro Recreio. Quando cheguei, já estava montado um quadro igual ao que eu tinha em Buenos Aires, comigo descendo, divina, a escadaria. Aí, virei coqueluche no Rio.

E como você virou Phedra?
Ah, meu bem, chegou o Carnaval e fiquei enlouquecida! Eu me vesti de mulher pela primeira vez no Brasil. Conheci um psiquiatra que me falou de um novo sexo, o transexual. Aí, o Américo Leal, pai da Ângela Leal e avô da Leandra Leal, me chamou para trabalhar no Teatro Rival, ainda como Felipe D. Córdoba. Só que conheci em um cabaré da Lapa o diretor do Le Girls, que me falou para fazer o espetáculo de mulher, porque eu já estava tomando hormônio e tinha corpo de mulher. A Rogéria e a Divina Valéria faziam também. Aí eu comecei a fazer diretamente de mulher!

E como escolheu o nome feminino?
Eu morava com um amigo costureiro e ele me ajudou a pesquisar os nomes. De repente, me lembrei que eu gostava muito da história da Phedra. Aí falei para ele. E ele disse que Phedra D. Córdoba não ia pegar. Eu falei: “Eu quero e vai pegar!” Isso foi em 1966. E pegou!

Quando você veio para São Paulo?
Foi em 1969. Estavam perseguindo os comunistas no Brasil e eu sofria, porque era cubana. Eu fiquei com medo de ficar presa e saí do Rio. Fui fazer os cabarés do interior de São Paulo. Eu só pude voltar para viver mesmo em São Paulo depois das Diretas Já.

Implicavam com você por ser cubana?
Eu tinha um empresário muito bom. Eu viajei com Consuelo Leandro e Cauby Peixoto. Ele sempre me dava conselhos. Ele falava: “Não diga nunca que você é cubana, porque vão pensar que você é comunista. Fala que você é da Espanha, para não ter problema”. Aí eu mentia e dizia que era espanhola. Nunca me pediram o documento para ver de qual país eu era.

Com o fim da ditadura militar você pôde revelar a verdade?
Sim! Eu só disse que eu era cubana depois das Diretas Já, quando o Lula já estava famoso, já não precisava mais esse cuidado. Aí eu gritava: “Yo soy cubaaaana” [risos]. Fiquei trabalhando em São Paulo nos anos 1980 e 1990.

Phedra D. Córdoba: muitas histórias para contar e muitos projetos no futuro – Foto: Bob Sousa

Como você conheceu os Satyros?
Foi em 2001, quando eles tinham chegado da Europa. Lá onde é Espaço dos Satyros Um era um restaurante, e o Ivam [Cabral] e o Rodolfo [García Vázquez] estavam reformando para fazer o teatro. Eu passava sempre de dia por ali. E eles sempre se perguntavam: “Quem é essa mulher maravilhosa?” O Ivam falou para um amigo em comum nos apresentar. Um belo dia, estava passando, e eles estavam tomando café no La Barca, e fomos apresentados.

E já rolou a amizade?
Sim. O Ivam me levou para ver a reforma e me convidou para integrar o grupo. Eu falei: “Você nem me conhece!” Ele me disse: “Mas todo mundo te conhece, você é divina e maravilhosa!” [risos]

E você entrou para os Satyros?
Mais ou menos. Eu estava fazendo shows no restaurante Rainha Vitória, perto do largo do Arouche, e eles foram me ver. Ficaram enlouquecidos e me chamaram para fazer parte do Satyros. Eles me queriam na peça Retábulo de Vida e Sangue, que o Ivam fazia uma travesti que se apaixonava por um cantor e depois o matava. Era lindo! Como dançava e falava coisa de Lorca, Rodolfo gostou e me colocou. Só que eu tinha me esquecido que o meu empresário tinha marcado uma viagem para fazer TV na Bahia e em Belo Horizonte. Aí, eu viajei.

Como foi a volta?
Quando eu voltei, o Rodolfo estava bravo comigo. Eu pedi desculpa para ele. Ele disse que montaria outras coisas. Isso era 2002 para 2003. Aí ele me convidou de novo, para fazer A Filosofia na Alcova. Me deu o texto e perguntou se eu gostava ou não da personagem. Eu disse: “Vou ler agora”. Botei meus óculos de leitura, li e respondi: “Faço!” Aí, ele gritou: “A Phedra topou!!!” Foi aí que peguei nome com Os Satyros, fazendo A Filosofia na Alcova. O Sergio Sálvia Coelho, que era crítico da Folha, me botou lá em cima, a Beth Néspoli, do Estadão, também, a Mônica Bergamo, você… Foram vocês que criaram esse nome de diva da praça Roosevelt para mim. E estou aí até hoje!

Veja o vídeo com a reportagem sobre Édipo na Praça:

Édipo na Praça
Quando: Sexta, sábado e domingo, 20h. 100 min. Até 30/11/2013
Onde: Espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

Veja as fotos de Bob Sousa de Édipo na Praça!

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5 Resultados

  1. Felipe disse:

    Realmente há que se respeitar a história da aguerrida Phedra!

  1. agosto 23, 2013

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  2. agosto 30, 2013

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