Crítica: Com pais que mataram a filha, O Casal Palavrakis joga verdades cruéis na cara da plateia

Em primeiro plano, Amália Pereira e Angelo Coimbra, em O Casal Palavrakis – Foto: Christiane Forcinito

Por Miguel Arcanjo Prado

Acuado em seu vazio triste cujo fim é a morte, o ser humano é um bicho doentio prestes a ferir o outro. Porque a infelicidade é seu destino. Esta é a visão mórbida sobre nós mesmos que a peça O Casal Palavrakis joga na cara da plateia sem artifícios para atenuar as duras verdades.

O texto da espanhola Angelica Liddel é tão cruel que em alguns momentos soa cômico, sobretudo quando alguns espectadores se identificam com determinadas frases espirituosas e ferinas e soltam risinhos nervosos.

Na visão do texto, a mulher é um bicho medíocre que tenta preencher seu vazio com um homem, um cachorro ou um bebê. Já o homem é um ser fracassado, pervertido e sem escrúpulos.

Lauanda Varone, que faz a filha – Foto: Christiane Forcinito

O diretor Reginaldo Nascimento constrói bem este clima de agonia e calca a montagem no trabalho dos atores em cena. Tudo soa como um retorno onírico da filha assassinada pelos pais, que cumpre a função de narrar a história tão absurda e crível ao mesmo tempo.

Lauanda Varone interpreta a menina. A jovem atriz está entregue e sua inocência cênica contribui para a personagem, mas em alguns momentos falta-lhe peso nas palavras ditas para a condução da encenação.

Já o casal perturbado é interpretado por Amália Pereira e Ângelo Coimbra, mais experientes. Os dois conseguem revelar à plateia o clima doentio que os une. A sensação realmente é de sufoco.

Amália se destaca na cena na qual sua personagem, histérica, exige um filho do marido, crendo, erroneamente, que a criança será capaz de suprir os traumas e abusos que sofreu em sua infância.

Já Coimbra traz a seu personagem um ar gutural e perturbado, com fala baixa, grave, dando ar soturno ao homem que se revela um pérfido pedófilo.

Não haveria lugar melhor para que tal espetáculo fosse apresentado. A peça, que já ocupou o certinho Sesc Consolação, encontra lugar bem mais condizente com seu discurso na praça Roosevelt.

Agora, o importante texto da vanguarda espanhola é complementado pelo seu entorno. Afinal de contas, histórias como as contadas por O Casal Palavrakis estão soltas por aí, em partes ou por inteiro, mesmo que dizê-las e enfrentá-las seja um ato de coragem para poucos.

Amália Pereira dá vida a uma mulher perturbada que tenta resolver seu vazio existencial em cachorros, no homem ou em uma gestação – Foto: Christiane Forcinito

O Casal Palavrakis
Avaliação:
Bom
Quando:
Sábado, 21h. 80 min. Até 28/9/2013
Onde: Teatro Studio Heleny Guariba (praça Franklin Roosevelt, 184, Consolação, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3259-6940)
Quanto: R$ 30
Classificação etária: 16 anos

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Deveriam, então, encenar CRÍA CUERVOS (com a maravilhosa Ana Torrent).

  1. outubro 15, 2013

    […] é atriz. Chamou a atenção na peça O Casal Palavrakis, em cartaz até 2 de novembro no Teatro Heleny Guariba, na praça Roosevelt. Tanto que foi eleita […]

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