Crítica: Em Quanto Custa?, Pedro Granato exibe a força violenta da grana e renova Bertold Brecht

Quanto Custa?, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, é uma fábula sobre o poder – Foto: Ding Musa

Por Miguel Arcanjo Prado

O mundo visto pela ótica crítica do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956) não evoluiu muito: o poder bélico continua ditando as regras e o capitalismo desenfreado transformou todos nós em mercadorias expostas nas gôndolas do Facebook.

Uma nova guerra se anuncia bem antes das devidas provas exigidas pelas Nações Unidas, como já vimos tantas vezes. Quem tem grana tudo pode: inclusive escarafunchar governos alheios pela internet, como fez recentemente o presidente norte-americano Barack Obama com a presidente do Brasil, Dilma Rousseff. E, apesar dos chiliques diplomáticos para noticiário ver, tudo seguirá na mesma. Porque se submeter é a regra do jogo.

E impressiona o público de 2013 ver tal atualidade presente na peça Quanto Custa?, montagem comandada pelo inventivo diretor paulistano Pedro Granato baseada em dois textos de Brecht inéditos no País, Quanto Custa o Ferro e Dansen, com produção de Carla Estefan.

O ator Ernani Sanchez, o vendedor que fornece armas ao próprio inimigo em Quanto Custa? – Foto: Ding Musa

O enredo mostra o cotidiano de três comerciantes de uma pacata rua interiorana que têm suas vidas viradas pelo avesso quando chega por lá o representante de uma grande corporação. Esta quer abarcar a todos com vultosos contratos, seja de forma permissiva ou à força mesmo. Porque quando se trata de dominar o outro, eufemismos e rapapés muitas vezes não costumam adiantar.

Granato imprime seu estilo já visto em outras obras, como na ótima Il Viaggio. Afinal, é diretor com personalidade e estética própria, o que faz muito bem num cenário de cópias empasteladas. Acerta ao estampar sua marca sem desbotar o Brecht original, que permanece intacto, forte e pungente.

O trio de atores, formado por Luís Mármora, Pedro Felício e Ernani Sanchez, está em sintonia. Eles se completam, jogam; entram de cabeça no clima que vai se tornando soturno e agonizante a cada visita do representante da grande empresa que tudo quer comprar, cada vez mais aterrorizante.

Marinês Mencio fez inquestionável trabalho de direção de arte. Tudo na peça está harmonioso e contribuiu para o tom da obra. Desde a cenografia assinada por ela e Patricia Passos, com concepção e realização plástica do Ateliê Modestamente Revolucionário, ao figurino, feito por ela com Jade Koury, passando pela iluminação de Uirá Freitas, que dá seu recado a cada acender e apagar de luzes, embalados pela trilha original de Rafael Castro, que mantém o suspense em riste.

Quanto Custa? questiona sem rodeios a ordem instaurada no mundo sem ser chata ou didática. Há espaço para o medo, o espanto e o bom humor. É inteligente e envolve. Faz o público acompanhar, atônito e nervoso, o desenrolar dos acontecimentos naquela rua pacata onde a ganância do dinheiro chega sem possibilidade de volta, gerando histeria diante do inimigo invisível que vai ferir a todos. Porque não há possibilidade de barrá-lo, nem mesmo com a covarde resignação.

Cenas do espetáculo Quanto Custa?, dirigida por Pedro Granato, em cartaz no CCBB-SP – Fotos: Ding Musa

Quanto Custa?
Avaliação: Muito bom
Quando: Quarta, quinta e sexta, 20h. Até 4/10/2013
Onde: CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, Metrô Sé ou São Bento, São Paulo, tel. 0/xx/11 3113-3651)
Quanto: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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4 Resultados

  1. Felipe disse:

    1. Peça instigante, muito bem produzida. Brecht é referência, sempre.
    2. Miguelito, que coragem a sua de questionar a submissão do governo brasileiro à espionagem norteamericana! É por isso que leio o blog! O foco é teatro, mas você traz questões pontuais relevantes da atualidade.

  2. Mirian disse:

    Gostei muito da peça e apesar de ter sido escrita no inicio da segunda guerra mundial, o tema é muito atual.Parabéns a todos

  3. Pedro Casali disse:

    Incrível! Realmente me senti parte da peça, isso é Brecht!

    A peça é uma metáfora sobre o poder, e ai entra minha admiração pelo dramaturgo Brecht, a platéia representa a sociedade e ao rirmos da estoria não nos damos conta de que na verdade estamos rindo de nós mesmos, da nossa alienação, ignorância e da nossa cultura de poder. Um tema bem atual não é? afinal, hoje ainda é assim, quem tem poder MANDA!

    O diretor Pedro Granato soube traduzir de forma ímpar esta obra, com um cenário impecável e grandes atores.

    • Miguel Arcanjo Prado disse:

      Pedro, que bacana você compartilhar sua experiência ao ver a obra por aqui. A peça realmente mexe com a gente. Volte sempre. Um forte abraço!

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