“Existe gente bacana e escrota no teatro como em qualquer outra profissão”, diz ator Otavio Martins

Otávio Martins: três peças em cartaz ao mesmo tempo em São Paulo – Foto: Alex Carvalho/Globo

Por Miguel Arcanjo Prado

O ator e diretor Otavio Martins parece incansável. Aos 43 anos, o artista nascido em Campinas (SP), estreia, nesta sexta (20), no Tucarena, em São Paulo, a peça A Bala na Agulha, que ele dirige e tem Denise Del Vecchio, Eduardo Semerjian e Alexandre Slaviero no elenco. Além da nova empreitada, ele ainda faz parte de outras duas produções na capital paulista: está no elenco de Três Dias de Chuva, peça dirigida por Jô Soares na qual contracena com Carolina Ferraz no Teatro Raul Cortez, e também dirige Divórcio, comédia no Teatro Fernando Torres, com Suzy Rego e José Rubens Chachá [veja todos os serviços ao fim da entrevista].

A Bala na Agulha, de Nanna de Castro, conta a história de um ator, Chico (Semerjian) que chegou à velhice sem as glórias do passado que precisa se enfrentar com um jovem galã televisivo, Cadu (Slaviero). Os dois começam um duelo cênico com fins fatais, intermediado pela atriz Célia de Castro, papel de Denise.

Otavio Martins conversou com o Atores & Bastidores do R7 sobre este momento intenso de sua carreira. Falou sobre os trabalhos, revelou por que saiu da Companhia do Latão, respondeu sobre o duelo teatro versus TV e ainda confessou: “Em muitos trabalhos fui muito feliz, em outros, perdi amigos”.

Leia com toda a calma do mundo:

Eduardo Semerjian, Denise Del Vecchio e Alexandre Slaviero estão em A Bala na Agulha – Foto: Dene Santos

Miguel Arcanjo Prado – Otávio, você está com três trabalhos ao mesmo tempo. Onde arruma tanta energia?
Otavio Martins – Eu sou um ator que trabalha tanto no teatro, como na TV  e no cinema. Gosto de trabalhar nas três, vamos dizer assim, modalidades. Cada uma tem seu prazer próprio, mas eu não faço a linha “gosto dos três igualmente”: o meu barato é o palco.

Otávio Martins (à dir.) também está em Três Dias de Chuva, dirigida por Jô Soares, no Teatro Raul Cortez – Divulgação

Por quê?
É no teatro que eu habito, é onde eu gosto de estar. Eu prefiro a relação ao vivo com o espectador. Eu fiz essa opção, há muitos anos. Minha literatura é dramaturgia, minha diversão é ir ao teatro, meus amigos estão no palco, na sala de ensaio.

Não só atuando como dirigindo também?
Dirigir teatro é uma paixão que ganhou corpo nos últimos anos. Agora estou voltando a escrever, porque é uma vontade natural, acredito. Descobri que o meu tesão é contar histórias no palco, independente de ser ator, autor ou diretor.

Em Circuito Ordinário você fez uma bela parceria com a Denise Del Vecchio. Foi por isso que a convidou para esta obra?
A Denise Del Vecchio é uma das maiores atrizes do país. Além disso, é um grande ser humano, e uma amiga muito presente. Chamá-la pra esse papel era, antes de mais nada, voltar a trabalhar com uma artista que contribui integralmente com a construção da obra artística.

Como é sua relação com o ator quando está dirigindo?
Quando eu dirijo, a minha relação com o ator é essencial, porque é a partir dele que eu construo as cenas. Por isso, escolher a Denise, o Alexandre e o Eduardo têm o mesmo peso. Eles têm essas características em comum, e a química entre eles só veio carimbar a coisa toda.

A Denise estava ótima em Circuito Ordinário
Sim! Em Circuito Ordinário, ela fazia aquela mulher recalcada, amargurada, seca e principalmente dissimulada. Já agora, em A Bala na Agulha, ela faz uma diva, uma mulher de vários amantes, absolutamente feminina e sem nenhum traço vulgar. Uma lady. A Denise é uma das poucas grandes atrizes que têm essa maleabilidade, essa flexibilidade tão orgânica.

Qual é a história de A Bala na Agulha?
A Bala na Agulha conta a história de um homem cujas referências são consideradas ultrapassadas, que se sente deslocado no mundo em que vive e que, cansado de tanto apanhar, resolve se vingar. É a trajetória de um homem que se sente injustiçado pelo tempo, pela modernidade. Poderia ser qualquer profissão, mas a autora Nanna de Castro elegeu como personagem um grande e premiado ator que há muitos anos amarga o ostracismo e a penúria financeira. Ele está fazendo um espetáculo com um jovem ator protagonista de novelas, e é essa relação que catalisa a ação da peça: querendo matar o galã, é como se ele quisesse um acerto de contas com o teatro.

Otávio Martins ainda é diretor de Divórcio – Divulgação

O espetáculo seria uma crítica ao mundo da TV? Você acha que falta a muitos atores televisivos o devido respeito pelos atores que fazem teatro? Você acha que muita gente de TV pensa que é melhor que a turma do teatro só porque ganha mais dinheiro?
A Bala na Agulha não critica o mundo da TV, nem sequer resvala nessa questão: o ator de novelas está ali como um contraponto às referências do velho ator de teatro. Engraçado como essa questão teatro versus TV é tratada como um Fla X Flu, quando na verdade são coisas distintas no fazer artístico. Claro que existem vários pontos a se discutir, técnica e politicamente falando, mas a peça trata de outra coisa, trata dessa sensação horrível de sentir-se injustiçado. Como trabalho tanto em teatro como em TV, posso te garantir que não falta o respeito que você referiu, ao contrário: existe um enorme respeito. Ser ator é uma questão muito maior que o meio em que se faz, e olha que cada meio tem suas regras próprias. Existem grandes e medíocres, existe gente bacana e gente escrota em qualquer lugar, qualquer profissão. Tentar repartir os artistas como desse campo e daquele campo só faz alimentar um preconceito muito frágil e absolutamente rancoroso. O talento do ator está em qualquer trabalho que ele faça. Tantos grandes atores transitam maravilhosamente entre todas as mídias, como o Antonio Fagundes, a Laura Cardoso, ou a própria Denise Del Vecchio. A vida é feita de opções, e todos pagamos muito caro pelas nossas escolhas. Então, ninguém é superior. Julgar um ator por ser “de teatro” ou ser “televisivo” é só uma tentativa patética de impor sua própria visão acima dos outros. Todo mundo está ali fazendo o que acredita e tentando ser feliz. A arte – e por consequência, a trajetória de cada artista – é também um exercício do livre arbítrio.

Você já foi do teatro político. Hoje faz TV e teatro com grandes nomes. Como é para você lidar com essa mudança que houve na sua vida? Aprendeu o que transitando por esses lugares distintos?
Eu comecei minha carreira fazendo um texto do Tom Stoppard, chamado After Magritte, em 1993. Já tinha feito quatro espetáculos quando em 96 tive o prazer de conhecer e trabalhar com a Companhia do Latão. Foram quase cinco anos de muito trabalho e muito aprendizado, teórico e prático. Sem a presença de gente como Sérgio de Carvalho, Kil Abreu, Edgar Castro, Marcio Marciano e o Ney Piacentini, eu provavelmente não teria aberto tantas vias pra tentar enxergar o mundo através do palco. Foi um dos períodos mais bonitos e instigantes da minha vida, até chegar o momento que eu resolvi sair.

Por que saiu do Latão?
Na época eu nem sabia o que me incomodava, hoje a coisa é clara para mim: eu não sou um artista que consiga ter vínculos com um mesmo grupo de pessoas por muito tempo. Eu não cabia mais ali, não por me senti maior, mas por ter adquirido outro formato – mais ou menos como um quadrado que tenta se encaixar num triângulo. Eu tenho uma necessidade de experimentar, de trocar com novos colegas, de abrir o leque de coisas que eu gostaria de fazer num palco. Essa é uma característica que não existe em pessoas que fazem parte de um mesmo coletivo, todas tem que estar harmonizadas num projeto comum. Sem isso, não há como continuar.

Otávio Martins no monólogo Córtex, dirigido por Nelson Baskerville: sucesso nos palcos em 2012 – Foto: Divulgação

E aí você foi seguir seu caminho?
Minha aventura depois disso foi criar as coisas que eu queria fazer – e claro, tendo a sorte de aceitar ótimos papéis que me foram oferecidos. Trabalhar com este ou aquele tem que ser feito a partir de uma escolha artística: pra fazer o Córtex, queria ser dirigido pelo Nelson Baskerville, para o Três Dias de Chuva, tinha de ser o Jô Soares.

Você é de todas as turmas…
Para mim, trabalhar com o Mario Bortolotto, com o Naum Alves de Souza ou com o Francisco Medeiros têm um mesmo valor: o que me interessa é a obra, a visão que cada um desses caras vai ter pra acrescentar na minha vida. São visões artísticas diferentes, em obras diferentes.

Você gosta desta diversidade?
A diversidade de composição é sempre o que me dá mais prazer, acho uma delícia poder alternar entre um drama e uma comédia, um clássico e um contemporâneo. Os artistas que participam desses processos criativos têm de ter, de alguma forma, uma sintonia, uma afinidade com a obra a ser composta. O fato de alguns artistas serem mais renomados que outros, dentro da sala de ensaios ou no palco, não interfere – e nem pode! – no dia-a-dia do processo de criação: a busca, a insegurança, o inferno e o paraíso de descobrir um encontro de dois personagens depende de dois colegas de profissão que se respeitam e acreditam no que fazem. Em muitos desses trabalhos fui muito feliz, em outros perdi amigos.

E qual lição você tira disso tudo?
Se deu pra aprender alguma coisa, é que é da vida essa alternância entre prazer e dor, entre fracasso e sucesso, entre vontade e necessidade. Um samba sobre o infinito, com a licença poética do Paulinho da Viola.

Otávio Martins: “É da vida essa alternância entre prazer e dor, entre fracasso e sucesso” – Divulgação

A Bala na Agulha
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 19h. 70 min. Até 1º/12/2013
Onde: Tucarena (r. Monte Alegre, 1.024, Perdizes, São Paulo, tel. 0/xx/11 3670-8455)
Quanto: R$ 40 (sexta) e R$ 50 (sábado e domingo)
Classificação etária: 14 anos

Três Dias de Chuva
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 19h. 85 min. Até 16/12/2013
Onde: Teatro Raul Cortez (R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, Metrô Trianon-Masp, São Paulo, tel. 0/xx/11 3254-1631)
Quanto: R$ 60 e R$ 70
Classificação etária: 14 anos

Divórcio
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 19h. 75 min. Até 17/11/2013
Onde: Teatro Fernando Torres (r. Pe. Estevão Pernet, 588, Vila Gomes Cardim, Metrô Tatuapé, São Paulo, tel. 0/xx/11 2227-1025)
Quanto: R$ 40 (sex. e dom.) e R$ 50 (sáb.)
Classificação etária: 14 anos

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5 Resultados

  1. Junior Monteiro disse:

    Otávio é um ator extraordinário. Já tive a honra de presenciar ele em cena. Uma pessoa de sensibilidade muito aguçada.

  2. Felipe disse:

    Eu respeito artisticamente a Del Vecchio. Gostei muito do texto. Só não apreciei o uso da palavra em contraposição ao termo “bacana”. Não sou descolado a esse ponto de achar charmoso usar palavreado chulo. Mas também não recrimino o artista, pois vi que ele respondeu de forma espontânea. Mérito do entrevistador que conseguiu deixá-lo confortável a esse ponto. Mas isso é para quem pode, não para quem quer, não é verdade, Miguelito? É por isso que você usa o termo “leia com toda a calma do mundo”. Porque suas entrevistas são deliciosas, são para serem saboreadas, como um bom doce de coco (só para brincar com sua mineirice)!

    • Miguel Arcanjo Prado disse:

      Felipe, a proposta é essa mesmo. Uma entrevista leve e ao mesmo tempo inteligente. Quero mais é que o entrevistado fique à vontade, sempre. Particularmente, gosto muito do termo “bacana”, acho tropicalista. Valeu pela leitura sempre atenta e pelo doce de coco! Obrigado! Miguelito

  3. Felipe disse:

    É, nota-se que as entrevistas são leves e inteligentes. E acho que você deixa os entrevistados à vontade mesmo. Nada contra o “bacana”. Aliás, gosto de algumas coisas tropicalistas e tenho até um CD “GAL TROPICAL” na minha pequena coleção. Sobre o doce, iria falar doce de coco com abóbora (que eu acho ótimo), mas como certas pessoas não gostam de abóbora, citei só o de coco mesmo.

  1. setembro 20, 2013

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