Crítica: Com Eva Wilma, Azul Resplendor é grito de guerra do velho contra a prepotência do novo

Dois grandes talentos do teatro unidos no palco: Pedro Paulo Rangel e Eva Wilma – Foto: João Caldas

Por Miguel Arcanjo Prado

A vida passa rápida como a chama de um fósforo – e tal constatação só surge na parte final. Ela tem seu início, quase que mágico, seu momento de fogo intenso, robusto, até que, aos poucos, o calor se dissipa e, quando menos se espera, assume um tom azul derradeiro antes do fim inevitável.

Tal imagem, cheia de poesia e significado, abre e encerra Azul Resplendor, peça em cartaz no Teatro Renaissance, em São Paulo.

E nesta existência efêmera, a força  jovem muitas vezes vem como um trator, passando por cima de tudo e todos, deixando aos que estavam antes a sensação de desnorteio e com um murmúrio inaudível na boca.

Pedro e Eva, em cena: susto diante dos jovens prepotentes – Foto: João Caldas

Em uma premissa darwiniana, quem não se adapta e não se reconfigura aos novos moldes está fora do jogo – só que, neste caso, sem que tal adaptação signifique de fato uma evolução. Assim é em qualquer campo da vida, pessoal ou profissional, incluindo aí a vida artística.

Defender o espaço e ponto de vista pré-existentes ao novo subtende-se postar-se de fora com uma espada, como dizia Vinicius de Moraes, ciente de enfretamento de guerra sem fim.

60 anos de carreira

Azul Resplendor tem como grande marco a comemoração dos 60 anos de carreira da atriz Eva Wilma, que assume o papel principal, a atriz Branca Estela Ramírez, uma verdadeira estrela de todos os tempos, assim como Eva o é.

A peça é fruto da farta pesquisa do teatro latino-americano feita pelos diretores, Roberto Borghi e Elcio Nogueira Seixas, em nossos países vizinhos. Em breve, a viagem Embaixada do Teatro Brasileiro, na qual realizaram 200 entrevistas com dramaturgos de 15 países, resultando em mais de 1.200 peças recolhidas, dará origem a livros e outros projetos na internet e na televisão.

Pois foi no meio desta pesquisa que eles se depararam com Azul Resplendor, do peruano Eduardo Adrianzén, dramaturgo de teatro e TV reconhecido em seu país.

Elenco

Eva Wilma é a escolha perfeita para o papel, porque instiga a plateia o tempo todo. Assim como Blanca, também é uma atriz que faz parte do imaginário popular, dando vida a papeis inesquecíveis no palco, no cinema e na TV. Apesar de terem uma diferença básica: Blanca está retirada do palco, já Eva segue aí, firme e forte. Mas é inevitável que o espectador não acabe por misturar as duas, mesmo que só em alguns momentos, por mais que o trabalho de Eva na construção da personagem seja fundamental e digno de aplauso farto.

Já Pedro Paulo Rangel faz Tito Tápia, um ator decadente que resolveu escrever e montar a peça de sua vida só para dar uma volta triunfal aos palcos a Blanca, já retirada da cena, com quem viveu seus melhores dias no palco – mesmo que só fizesse pontas – e por quem nutre amor platônico.

Rangel empresta seu farto carisma e talento já comprovado em mais de 40 anos de carreira a Tito, fazendo dele um personagem querido pelo público logo que diz a primeira frase. A doçura e inocência diante da vida e do próprio fracasso do personagem servem de alento diante da amargura e verdades cruas que saem da boca de Blanca, realista por demais.

Para fazer seu sonho virar realidade, Tito investe uma herança para contratar o diretor em voga no momento, Antonio Balaguer, papel de Dalton Vigh. Sua atuação, mais histriônica, tem explicação: faz lembrar a arrogância e prepotência dos (já não tão novos) nomes surgidos no teatro brasileiro com a promessa de fazer uma nova arte cuspindo em cima de tudo que foi feito antes. E que acabam mergulhados nas polêmicas que não se cansam de provocar em uma ânsia de aparecer sem fim, tão histriônicos, ou ainda mais, do que o personagem de Vigh.

Ainda compõem o elenco Luciana Borghi, como a frustrada assistente de Balaguer, e Paula Picarelli e Felipe Guerra, como os rostinhos bonitos da TV chamarizes de público convidados pelo diretor-estrela para a montagem do texto de Tito Tápia com Blanca Estela.

Veteranos brilham

O elenco veterano é infinitamente melhor do que o elenco jovem. Experientes e convincentes, Eva Wilma e Pedro Paulo Rangel carregam o espetáculo nas costas. Fazem rir e ao mesmo tempo comovem, como grandes atores costumam fazer.

Já Dalton Vigh é uma espécie de ponte entre os consagrados e o elenco jovem. A peça chega a cair vertiginosamente durante o inverossímil monólogo de Luciana Borghi. Mesmo assim, Eva e Pedro conseguem recuperar a atenção e disposição do público.

Os outros dois atores cumprem suas funções. Paula Picarelli, que chega a dar uma escorregada no fácil caminho do besteirol, se recupera e vai bem grande parte de suas cenas. Já Felipe Guerra é melhor quando exibe seu corpo trabalhado na academia.

A simples mensagem de Azul Resplendor: é preciso que o novo respeite o velho – Foto: João Caldas

Os diretores tentam manter o fôlego da obra, perdido em alguns momentos, com a ajuda da luz presente de Lúcia Chediek e do duro, mas belo, cenário de André Cortez.

Grito de basta

Impressiona na peça a universalidade do texto de Adrianzén. Este parte, inteligentemente, da realidade do teatro para retratar o que ocorre o tempo todo neste mundo de modernidade líquida – como definiu o sociólogo Zigmunt Bauman: o velho é substituído pelo novo sem nenhuma sombra de culpa ou dúvida.

Não há lugar mais para a tradição, para a certeza. Todos estão mergulhados dos pés à cabeça na velocidade estonteante do ego e das relações frias, velozes e, cada vez mais, inverossímeis e superficiais.

Azul Resplendor é um grito de basta. No espetáculo, ecoa o berro: “Nós, os que estávamos antes, ainda estamos aqui e não somos lixos a serem jogados na primeira lata que apareça. Lixo são vocês”. A peça é a poética constatação de uma guerra sem fim, feita de soldados que morrem e renascem o tempo todo, no acender e apagar de um fósforo.

Azul Resplendor
Avaliação: Bom
Quando:
Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h. 100 min. Até 13/10/2013
Onde: Teatro Renaissance (al. Santos, 2.233, Cerqueira César, Metrô Consolação/Paulista, tel. 0/xx/11 3069-2286)
Quanto: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

O Retrato do Bob: Pedro Paulo Rangel, o grande

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7 Resultados

  1. Felipe disse:

    Dois ícones: Evinha e Pepê. A peça deve ser total e a todos encantar (ou ao menos a quem se permite olhar de forma crítica esse culto ao corpo lamentavelmente tão em voga).

  2. Felipe disse:

    Rostinhos bonitos enfeitam, mas não prendem a atenção de quem assiste ao espetáculo. Tanto a Evinha quanto o Pepê têm uma trajetória rica e respeitada. Quanto aos rostinhos bonitos, quando eles se aliam ao talento, que bom para tais pessoas! O ruim é quando um rostinho bonito tira a vaga de alguém que, por mérito, deveria estar ocupando aquele lugar.

  3. Aaron Pnek disse:

    Eva está perfeita, como sempre, mas não achei a peça tão boa assim.

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