Crítica: Em Azul Resplendor, velho derrota o novo

Azul Resplendor está em cartaz em SP e tem Eva Wilma e Pedro Paulo Rangel como estrelas – Foto: João Caldas

Por Maíra Moraes
Especial para o Atores & Bastidores*

No hall de entrada do teatro do hotel Renaissance, em São Paulo, há uma pequena mostra de fotografias sobre a trajetória artística da atriz Eva Wilma.

Essas imagens preparam o espectador de Azul Resplendor, formado por famílias da classe média paulistana e jovens interessados em conhecer o teatro realizado por atores conhecidos.

Na peça, Eva Wilma interpreta Blanca, uma atriz talentosa e de grande sucesso na juventude, que amarga o esquecimento, a pobreza e solidão.  Até que é procurada por um antigo companheiro, que sempre fora apaixonado por ela, e resolve investir em uma peça de teatro estrelada por Blanca e dirigida pelo diretor de renome Antônio Balaguer.

A história de Azul Resplendor tenta apresentar reflexões importantes sobre a passagem do tempo. Paradigma essencial para a nossa cultura pós-moderna (ou da modernidade tardia), em que a obsessão pela juventude e pelo novo, sem qualquer julgamento, afasta aquilo que pode ser tradicional e ainda bom.

Dirigido por Renato Borghi, o espetáculo convive todo o tempo com esse paradigma, a começar pela linguagem. Com uma encenação tradicional e direta, abre mão de outros recursos de cena, focando apenas na interpretação dos atores.

O cenário é enxuto, ainda que a história caminhe por entre a casa de Blanca, sala de imprensa e ensaios de teatro, o espectador consegue visualizar essas mudanças espaciais, com os recursos de cenografia (poucos e precisos).

Figurinos e produção visual também apresentam simplicidade e conseguem trazer ao espectador os personagens. No elenco de apoio, destaque para Dalton Vighi como um “Gerald Thomas”, que consegue equilibrar humor e cinismo na dose certa, sendo um ponto de equilíbrio importante. Paula Picarelli também sensibiliza o espectador com uma atuação segura, sobretudo, porque substituiu a atriz original.

Luciana Borghi é o senão do elenco de apoio, pois não atinge o convencimento necessário para defender as contrariedades de sua personagem. Caracterizada por uma complexidade dramática mais profunda, misto de mágoa e paixão, que fica desequilibrada com o excesso da projeção de voz e de raiva.

Felipe Guerra poderia ter exercitado um pouco mais o cinismo dos pseudo-atores de sua geração, exemplos para observação não faltam…

Eva Wilma e Pedro Paulo Rangel seguram o texto com talento e segurança.

Azul Resplendor tem os elementos de uma boa peça de teatro, mas há um pequeno desajuste na obra do peruano Eduardo Adriánzen. Se a intenção primeira era demonstrar o paradoxo do tempo, sua ambição falha no final melancólico, que faz pouca justiça à riqueza dos personagens principais interpretados por Rangel e Wilma (Blanca e Tito).

Em cena, são os atores experientes que nos ensinam que a passagem do tempo traz benefícios: sabedoria, equilíbrio e beleza. O final da história esquece justamente a lição mais importante, que Azul Resplendor tenta impor ao longo da encenação: o fim não é necessariamente ruim e os jovens não são tão inovadores assim.

Basta ver a mostra no hall de entrada e verificar que Eva Wilma e Pedro Paulo Rangel estão em seu auge da maturidade e conhecimento. Enquanto o elenco de apoio corre desesperadamente atrás de alguma indulgência.

O texto poderia valorizar justamente esse paradoxo do nosso tempo, tão característico de nossa juventude, e da ideologia da classe média, de que o novo é sempre bom.

Mas como se vê em cena, essa convicção na juventude está totalmente equivocada. E coloca-se um novo paradoxo diante do espectador: Quem substituirá os atores do teatro brasileiro, que estão na maturidade? (a pergunta está na peça também).

É perceptível que alguns dos “novos talentos” apenas vislumbram o frescor (sobretudo, nos corpos trabalhados nas academias), mas exalam conservadorismo tanto na interpretação, no posicionamento político (no sentido lato da palavra) e, consequentemente, na dramaturgia.

*Maíra Moraes é historiadora formada pela USP (Universidade de São Paulo) e pós-graduanda na ECA-USP e escreveu esta crítica a convite do blog.

Leia também a crítica de Miguel Arcanjo Prado para Azul Resplendor!


Azul Resplendor

Avaliação: Bom
Quando:
Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h. 100 min. Até 13/10/2013
Onde: Teatro Renaissance (al. Santos, 2.233, Cerqueira César, Metrô Consolação/Paulista, tel. 0/xx/11 3069-2286)
Quanto: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos
Avaliacao Bom R7 Teatro PQ Crítica: Com Eva Wilma, Azul Resplendor é grito de guerra do velho contra a prepotência do novo

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Paula Picarelli! Quanto tempo!

  1. outubro 7, 2013

    […] Leia a crítica de Maíra Moraes para Azul Resplendor […]

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