Crítica: Nossa Cidade ressuscita o simples da vida

Tempos que jamais voltam: a interiorana família Webb, de Nossa Cidade, espetáculo de Antunes Filho, feita pelos atores Mateus Carrieri, Fagundes Emanuel, Luiza Lemmertz e Sheila Faermann – Foto: Emidio Luisi

Por Miguel Arcanjo Prado

Somos reflexos perenes do lugar de onde viemos, da cidade e da sociedade na qual nascemos e fomos forjados. Por mais que fujamos de tudo em busca de um futuro utópico, é para nossa cidade, nosso lugar, nossa gente, que voltamos nos momentos de incerteza e insegurança, porque é lá que está o arrimo, a raiz, qualquer possibilidade de felicidade. Em sua vida simples.

O espetáculo Nossa Cidade, reconstrução de Antunes Filho e seu Centro de Pesquisa Teatral para texto escrito pelo norte-americano Thornton Wilder em 1938, é embutido de tal poesia.

Aquele cotidiano simples e ordinário que não tinha valor quando vivido em seu presente ganha cores e viços novos quando olhado do futuro, no qual já não pode mais ser retomado. Quando só resta a emoção de se lembrar.

Assim como o diretor de cena da peça, uma espécie de narrador que volta para contar a vida em sua cidade, Antunes Filho também volta ao passado nesta montagem, já que por pouco não a encenou como ator em seu começo de vida artística. Ficou com esta dívida com seu passado que agora paga, à sua maneira.

Humanidade

A peça expõe com toda a simplicidade do mundo e foco na humanidade uma cidade pequena do interior dos Estados Unidos no começo do século 20 – cidade esta que serve de metáfora para a ideologia nacionalista norte-americana que fez do país o vencedor bélico do século.

A pequena cidade conservadora é o lugar onde o orgulho nacionalista e religioso são alguns dos poucos trunfos disponíveis; lugar onde a inteligência questionadora sede espaço para o lado prático da vida, que urge em passar sem grandes arroubos ou alardes.

É assim que a plateia acompanha a vida das famílias Webb e Gibbs, entre o nascer e o pôr do sol no desenrolar dos anos.

O diretor Antunes Filho, sobre Nossa Cidade: “O espetáculo é crítico e bastante irônico, mas muito amoroso”; leia a entrevista – Foto: Bob Sousa

Antunes acerta em incluir nomes com mais experiência de vida e de palco em seu Grupo de Teatro Macunaíma, para dar peso ao elenco majoritariamente jovem. E os mais velhos se sobressaem.

Mateus Carrieri traz o peso de um pai que crê no futuro limitado que dá aos filhos. Antonio de Campos também dá truculência a seu professor Willard Schünemann, que, assim como seu país, não se ressente em passar por cima de todos ditos inferiores que estiverem no caminho.

Felipe Hofstatter também deixa claro o desespero urgente de seu personagem Simon, espécie de sabedor da verdade que não quer ser ouvida na pequena cidade e que se vê obrigado a discursar ferozmente para o vento. E Leonardo Ventura aposta na fala sisuda que vai perdendo o tom gutural ao longo da peça para dar vida a seu narrador.

Consumo e vida simples

O registro escolhido para a atuação do elenco – que em muito lembra filmes épicos da Hollywood da primeira metade do século 20 – serve de metáfora à própria auto-representação que tanto tem acolhida na vida norte-americana, povo crente de ser o escolhido divino para liderar e subjugar o mundo.

Uma nação nascida de uma ideia construída e cujo símbolo maior, por ironia, é a estátua da Liberdade ofertada pela França – presente no palco de forma debochada. Sociedade que crê no que se é possível ter materialmente. Fruto da sede de consumo que venceu e transformou a todos em mercadorias expostas nas gôndolas da vida e da internet. Infelizmente, boa parte da sociedade brasileira atual busca tal modelo para imitar sem nenhum tipo de questionamento político.

E é aí que Antunes cresce em sua reconstrução de Nossa Cidade. Ele coloca o dedo justamente nesta ferida, esmiuçando tal perspectiva consumista-nacionalista que nega a beleza da vida simplesmente vivida sem tantas demandas e representações para o outro ou si mesmo.

Este é o grande recado da peça: a vida passa rápido. E o mais belo dela é sua beleza simples e fugaz. É preciso enxergar o presente, vivê-lo em lugar de enfatizar um eterno lamentar com olhos no futuro, enquanto se cultiva uma solidão mórbida compartilhada nos meios virtuais.

Porque quando o futuro chega, é para trás que se olha e, geralmente, com nostalgia. É preciso estar atento para que tal recordar não seja feito de culpa, vazio e dor.

Nossa Cidade
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. 90 min. Até 8/12/2013
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Villa Nova, 245, Vila Buarque, Metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 32 (inteira); R$ 16 (meia-entrada): e R$ 6,40 (comerciários e dependentes)
Classificação etária:12 anos

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3 Resultados

  1. Felipe disse:

    O responsável pela escalação/seleção de elenco está de parabéns: Fagundes Emanuel se parece com Mateus Carrieri e Sheila Faermann se parece com Luíza Lemmertz. A foto parece realmente de um álbum de família. Brilhante isso de escalar atores fisicamente parecidos para os papeis de pais e filhos! Torna a peça mais crível.

  1. outubro 6, 2013

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  2. outubro 28, 2013

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