Crítica: Emilio Dantas é destaque em Cazuza; parte do elenco derrapa em show de calouros

Emilio Dantas faz um Cazuza visceral no musical em cartaz no Rio e que chegará em SP em 2014 – Foto: Leo Aversa

Por Átila Moreno, no Rio
Especial para o Atores & Bastidores*

Não dá pra negar que Cazuza foi uma das maiores referências dos anos de 1980 para a história da música brasileira. E não dá pra negar que Agenor de Miranda Araújo Neto merecia, há tempos, um musical que trouxesse sua “breve vida imensa”. Vida, de um artista, que morreu no auge da carreira, aos 32 anos, em decorrência dos efeitos devastadores da Aids.

A tarefa nos palcos ficou para o diretor de Tim Maia Vale Tudo – o Musical. Com texto de Aloísio de Abreu,  João Fonseca teve a difícil de missão de pincelar nuances da trajetória de Cazuza.

Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – o Musical repete a mesma fórmula usada em Vale Tudo, em mais de 2h30 de peça, dividida em dois atos. E, mesmo assim, isso é só um pequeno olhar de toda loucura e atitude rock and roll presentes na personalidade do artista.

Emilio Dantas, que atuou em Dona Xepa, novela da Record, prova que possui um estrondoso talento ao interpretar Cazuza. Traz naturalidade, e domina tudo e todos no palco, mesmo tendo algo que poderia ir contra ele: não é nada parecido fisicamente com o artista.

O timbre, a segurança vocal e a linguagem corporal são suas armas que se mostram infalíveis. Com isso, Emilio Dantas encarna Cazuza de maneira visceral. Um dos seus momentos mais marcantes é a parte em que ele canta Down em Mim, sozinho no palco, e deixa a plateia silenciosamente atônita.

A versão histórica da banda Barão Vermelho no musical dirigido por João Fonseca no Rio – Foto: Leo Aversa

A maquiagem é outro detalhe que não passa despercebida na composição do personagem, principalmente, quando mostra a decadência física do músico.

Susana Ribeiro, que vive Lucinha Araújo, está admiravelmente esplêndida como a mãe do cantor. A atriz consegue tocar emocionalmente o público e tem uma incrível química com Emilio Dantas.

O cenário traz elementos como projeções e instalações que mergulham no universo do compositor. São mesas-plataformas que se assemelham a uma folha de caderno, preenchida com possíveis letras de Cazuza.

A trilha sonora também ajuda a acertar esse compasso cênico. A direção musical seleciona bem os principais hits, distribuídos em mais de 20 canções, apesar de ter deixado de fora a lindíssima e polêmica Só as Mães são Felizes.

O figurino seduz os olhos e ajuda a dar leveza quando o roteiro retrata as drogas, a homossexualidade e sexo descompromissado. Essa pegada mais suave (dependendo do ponto de vista de cada um) pode parecer um pouco com a ótica do filme Cazuza, O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, com Daniel Oliveira no papel-título.

Só que o musical foi um pouco mais além, em comparação com o filme, pois dá destaque para pessoas que foram imprescindíveis na vida de Cazuza, como Frejat, o produtor musical Ezequiel Neves, e os romances com Serginho Maciel e o cantor Ney Matogrosso.

Parte do elenco de 16 atores, composta por jovens bonitos e sarados, cumpre o papel de serem afinados no palco. Já atuação dramática deixa um pouco a desejar, e, em alguns momentos, lembra um show de calouros.

Fabiano Medeiros é irregular nas cenas que exigem mais dramaticidade, e não convence quando faz os números musicais, apesar de conseguir repassar aquele olhar enigmático e inconfundível de Ney Matogrosso.

André Neves chama atenção ao viver Ezequiel Neves, mesmo com toda aquela caricatura, histeria e exagero, que proporciona os melhores momentos cômicos do musical, mas também faz questionar se o diretor não pesou a muito a mão.

Yasmin Gowlevsky faz uma Bebel Gilberto quase sempre meio bêbada, numa atuação que deixa a voz da artista ora jocosa, ora admirável. Deso Mota interpreta Caetano Veloso, mas fica a dúvida se temos uma atuação ou simplesmente imitação engraçadinha.

Diante da emoção de ver um Cazuza ressuscitado nos palcos, há de se ressaltar um lamentável detalhe para quem for se aventurar. É a disposição das poltronas do Theatro Net Rio, num deplorável setor chamado balcão, que dificulta bastante a visão de todo o espetáculo de maneira confortável.

Por fim, Emilio Dantas é o “maior abandonado” em um musical feito de “sorte e azar”, como cantava Cazuza.

*Átila Moreno é jornalista formado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC Minas.

O Cazuza original: o nosso maior abandonado dos anos 1980 que deixou saudade – Foto: Flávio Colker

Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – O Musical
Avaliação:
 Bom
Quando: quinta e sexta 21:00; sábado 18:00 e 21:30; domingo 19:00. Até 22/12/2013
Onde: Theatro Net Rio (r. Siqueira Campos, 143, Copacabana, Rio, tel. 0/xx/21 2147-8060)
Quanto:  R$ 100 (balcão); R$ 150 (frisas e plateia)
Classificação etária: 14 anos

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3 Resultados

  1. Giuseppe Oristanio disse:

    É MESMO INACREDITÁVEL O DESEMPENHO DO EMÍLIO. PARECE QUE BAIXOU UM SANTO NELE. TIMBRE, JEITO DE FALAR, ATÉ A LÍNGUA PRESA…. O CARA CANTA PRA CHUCHU E DÁ UM SHOW EM TODOS OS SENTIDOS. REALMENTE O ESPETÁCULO, PRINCIPALMENTE POR CAUSA DO EMÍLIO, É UM MOMENTO ÚNICO. IMPERDÍVEL.

  2. Felipe disse:

    Além de atuar, canta bem também? Surge um potencial candidato ao APCA de Melhor Ator!

  3. luciana fontenelle disse:

    olá! Estreio espetaculo no Rio de Janeiro. Gostaria de convida-lo para assisti-lo. Para que email posso enviar um convite virtual?

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