Crítica: Contrações expõe crueldade corporativa com vibrante embate de duas atrizes potentes

Sintonia fina: Débora Falabella e Yara de Novaes, em cena do espetáculo Contrações – Foto: João Caldas

Por Miguel Arcanjo Prado

Em um mundo cada vez mais competitivo e no qual o discurso capitalista imperou como única alternativa válida para o mundo, vidas se minguam diante da entrega desmensurada ao mundo corporativo.

Os livros-manuais pipocam nas bancas e livrarias, ensinando passo a passo a ser uma pessoa viável para a empresa, praticamente sem vida própria, em busca da transformação em peça encaixável na engrenagem do sistema que não pode parar jamais.

O lucro máximo é o objetivo cultuado, para o qual tudo é permitido. A vida real – “aquela que tão desconhecida e mágica que um dia acaba”, como cantou Cazuza – que fique para ser aproveitada em outra encarnação. Se esta houver.

O espetáculo Contrações, escrito em 2008 pelo dramaturgo inglês Mike Bartlett – traduzido por Silvia Gomez –, expõe justamente esta verdade contemporânea com toda a crueza possível, exibindo o embate entre uma gerente que faz sucessivas humilhações cotidianas a sua funcionária, representadas por duas atrizes potentes.

A peça ganha montagem brasileira pelo Grupo 3 de Teatro de Débora Falabella, Yara de Novaes e Gabriel Paiva, que convidou a mineira assim como eles Grace Passô – do Grupo Espanca!, de Belo Horizonte – para dirigir a montagem.

Diálogo

Grace faz uma direção exata, delicada e também generosa – porque é focada no trabalho das duas atrizes no palco. A direção ainda demonstra evidente noção do conjunto e dialoga o tempo todo com a trilha de Morris Pocciotto – executada ali, ao vivo, detrás das atrizes e até por uma delas – e ainda se comunica dialeticamente com o cenário e figurino de André Cortez, que exibe a sofisticação de mãos dadas com um agonizante vazio na alma, explicitado também na iluminação de Alessandra Domingues.

A dupla que faz um potente embate textual durante quase toda peça é formada por Débora Falabella e Yara de Novaes. As duas têm química, uma cumplicidade cênica perceptível até mesmo quando suas personagens se distanciam cada vez mais.

Débora Falabella é uma funcionária de uma grande empresa questionada o tempo todo por sua gerente, papel de Yara de Novaes, em uma arguição sem fim.

Débora consegue transmitir o medo de perder o trabalho que lhe traz o sustento, que faz sua personagem ceder em concessões cada vez mais absurdas em nome da etiqueta empresarial vigente.

A personagem da atriz vai perdendo o chão e o brio a olhos vistos. O público ri e se desespera diante daquela situação e, o mais importante, identifica naquele horror o cotidiano nosso de cada dia.

Sutileza e força

Mesmo com a evidente competência de Débora, uma atriz cada vez mais madura e reconhecidamente potente, é Yara de Novaes quem mais se destaca nesta obra.

Tal qual uma agente da Gestapo adaptada aos novos tempos, ela personifica a opressão em sua personagem. Yara de Novaes é uma das melhores atrizes do Brasil. Tem uma sutileza unida à força em cada olhar, em cada gesto. Sua personagem é a grande tensão não dita presente no palco. É a representação do esvaziamento humano, transformado em peça de um jogo cruel no qual não há sobreviventes.

Enquanto a obra ruma em direção ao absurdo, o nó na garganta do público se estreita cada vez mais. O ar fica irrespirável. Os risos confusos se mesclam a uma angústia evidente.

Tudo fica turvo, como a vida pasteurizada corporativa, com seus jargões importados.  Contrações é um sinal evidente de que estamos todos sufocados. E muito cansados disso tudo.

Débora Falabella e Yara de Novaes fazem embate entre gerente e funcionária no palco – Foto: João Caldas

Contrações
Avaliação: Ótimo
Quando: Sábado, 17h30 e 20h; domingo, 18h; e segunda, 20h. 80 min. Até 9/12/2013
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil (r. Álvares Penteado, 112, metrôs Sé ou São Bento, São Paulo, tel. 0/xx/11 3113-3651
Quanto: R$ 10
Classificação etária: 14 anos

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7 Resultados

  1. Felipe disse:

    Miguelito, está faltando uma palavra no primeiro parágrafo após o subtítulo SUTILEZA E FORÇA: “Mesmo com a (?) evidente de Débora, […]”.

  2. Felipe disse:

    Agora falando da proposta da peça, eu achei totalmente válida e muitíssimo atual. Na verdade, a peça trata de um tema espinhoso, porém lamentavelmente bastante existente no mundo corporativo: o assédio moral, que é essa desqualificação do funcionário. Já participei de um curso sindical sobre o tema.

    • Miguel Arcanjo Prado disse:

      Felipe, a peça é ótima. Quem está em Sampa tem de ver. É um tema que precisa ser debatido e abordado no palco também. Abraços e obrigado pela leitura atenta de sempre!

  3. Felipe disse:

    De nada.

  4. Emilia Costa disse:

    Achei péssima a peça. Nunca vi nada mais chato

  1. novembro 22, 2013

    […] Contrações – Sé-SPAvaliação: Incêndios – Botafogo-RJAvaliação: Nossa Cidade – Vila Buarque-SPAvaliação: Nosferatu – Pça Roosevelt-SPAvaliação: Vestido de Noiva – Barra Funda-SPAvaliação: Ultimos Posts / Comentários […]

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