Crítica: Teatro do Abandono põe fantasmas para contar histórias de ruínas em palco aniquilado

Carol Carolina é homem boêmio e surpreende em Entre Ruínas Quase Nada – Foto: Ana Cariane

Por Miguel Arcanjo Prado

Tudo costuma ser tão veloz e emergente que muitas vezes nos perdemos das coisas, amedrontados ou — por que não? — fatigados. Porque é difícil continuar em frente sem sentir uma ponta de abandono, um desejo de desistência iminente, de impotência mesmo.

Tais sentimentos ou sensações de nossos dias estão por trás do primeiro espetáculo do Teatro do Abandono, Entre Ruínas Quase Nada, apresentado na carcomida Casa do Povo, no Bom Retiro, que aos poucos vai sendo ressurreta pelo esforço de artistas da metrópole como eles e o Teatro da Vertigem, que lá apresentou parte de seu Bom Retiro 958 Metros.

Após esperar no salão de entrada do prédio, o público é convidado pelos personagens-fantasmas a entrar no teatro abandonado, onde os mesmos vão disputar a atenção dos espectadores com o objetivo de contar sua história de abandono e ruína.

Figurinos de Entre Ruínas Quase Nada chamam a atenção; em cena, o ator Tadeu Ibarra – Foto: Ana Cariane

A disputa entre os personagens pelo palco é uma fina ironia à competição árdua que existe nesta profissão na qual o elenco – oriundos da SP Escola de Teatro – acaba de chegar.

Filipe Brancalião assume a direção e tenta dar ordem e espaço a cada um destes fantasmas libertos.

A música, executada com charme e desenvoltura por Thaís Oliveira e seu acordeom, preenche o vazio de viço. Os personagens cantam em fraseados musicais distintos, mas organizados, denotando algo incomum no teatro alternativo: estão afinados – mérito do diretor musical Cristiano Gouveia.

A direção encadeia os fantasmas como se fossem uma trupe do além, com suas regras próprias e respeito mútuo — nem que seja só no intento de um dia ter vez.

O figurino de Clau Carmo é propositivo, se faz presente; dialoga com o texto e com os personagens. E ainda enche os olhos da plateia naquele breu do teatro abandonado. Falando em breu, a iluminação dura de Adriana Marques expõe o abandono do cenário real.

Mesmo com a ideia de fragmentação evidente, faltou à dramaturgia, assinada por Jucca Rodrigues, dar uma unidade ao espetáculo – ela está mais presente no elenco do que no texto.

No elenco, Juliana Ostini, Verônica Mello, Paola Dourge, Tadeu Ibarra e Carol Carolina formam um conjunto interessante. Dá vontade de vê-los. Estão presentes e intensos.

Dois atores se destacam: Tadeu Ibarra e Carol Carolina. Ambos estão em um registro teatral mais sutil e potente.

Tadeu dá o texto de forma leve e despretensiosa. O ator tem uma graça em cena que lhe é intrínseca. E faz um trabalho que torna seu corpo uma verdadeira marionete viva. Sua cena, a do suicida assassinado, é um momento em que direção se funde com texto e atuação num resultado envolvente.

Já Carol Carolina apresenta um trabalho de composição de personagem com resultado crível e também cativante. Transforma-se num homem boêmio, charmoso e galanteador.  É atriz talentosa, com potencial para ir longe.

Entre Ruínas Quase Nada é um resultado artístico que reveste de poesia as indefinições da geração contemporânea, perdida e sem rumo, mas que, com um sopro de vida, ainda consegue despertar a alma absorta em uma onda cadavérica para contar mais uma história.

Porque há que seguir em frente. A velocidade de quem vem atrás não nos deixa parar. Sequer frear. Buscar um rumo é preciso.

Jovens com sede de palco: Entre Ruínas Quase Nada é a primeira peça do Teatro do Abandono – Foto: Ana Cariane

Entre Ruínas Quase Nada
Avaliação: Bom
Quando: Sábado, 21h; domingo, 20h. 70 min. Até 10/11/2013
Onde: Casa do Povo (r. Três Rios, 252, Bom Retiro, metrô Tiradentes, São Paulo, tel. 0/xx/11 9-7954-4345)
Quanto: Pague quanto quiser (como são só 20 lugares, é preciso reservar ingresso por telefone ou pelo e-mail doabandono@gmail.com)
Classificação etária: 12 anos

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  1. novembro 1, 2013

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  2. novembro 30, 2013

    […] do Rio de Janeiro, mas encontrou sua praia nos palcos. Recentemente, se destacou no espetáculo Entre Ruínas Quase Nada, de seu grupo, o Teatro do Abandono. Tadeu, que não para quieto e é amigo de todo mundo também […]

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