Crítica: Atual, Cacilda!!! é o protesto do Oficina

Cena do protesto feito com atrizes em 1968 contra a censura é reproduzida em Cacilda!!! – Foto: Claire Jean

Por Miguel Arcanjo Prado

O Teat(r)o Oficina de José Celso Martinez Corrêa sempre teve como público cativo jovens sedentos por mudar o mundo.

O frescor revolucionário, surgido nos anos 1960, sobrevive na farta interação entre artistas e plateia que promove o espaço projetado há 20 anos pela arquiteta de esquerda Lina Bo Boardi no bairro do Bixiga, tradicional zona teatral paulistana.

Zé Celso: teatro com frescor revolucionário – Foto: Claire Jean

Durante muito tempo, porém, o protesto era apenas uma nostalgia, mas, nos dias de hoje, Zé Celso e sua turma estão diante de uma plateia aguerrida que povoou as ruas nos protestos do último mês de junho ou na tomada da reitoria da USP (Universidade de São Paulo).

Assim, o espetáculo Cacilda!!! Glória no TBC – Capítulo 1, o terceiro da trupe a contar a saga da atriz Cacilda Becker (1921-1969), que praticamente morreu no palco, é invadido pelo discurso político atual, presente na boca e no coração dos jovens atores e do público.

Zé Celso e Marcelo Drummond, autores e diretores em conjunto do espetáculo, provam que sabem dialogar com sua história, sua gente e seu tempo. Cacilda!!! poderia ser uma peça presa ao passado, didática e professoral. Mas não o é.

Eles falam da especulação imobiliária que quer construir torres gigantes ao lado do Oficina, tirando a vista da cidade que o teatro tem. Denunciam a cooptação de artistas pelo mercado, tirando de suas bocas qualquer tipo de discurso político em prol de grana no bolso. Ridicularizam a imagem de Bárbara Paz em sua propaganda de joias em meio a gás lacrimogêneo e black blocs. Enfim, são artistas com a gente pensava que já não se fazem mais.

Cacilda!!! é espetáculo vivo. O público e artistas se misturam com gosto. E, melhor, a obra não deixa de contar a história que propôs revelar às novas gerações. Num país sem memória como o nosso, tal atitude é digna de farto aplauso. Cacilda!!! é, antes de tudo, uma peça brasileira, que valoriza o que é nosso, o que temos de melhor: a nossa arte.

Gente entregue no palco do Oficina: Lucas Andrade, como Caetano Veloso, e Nash Laila, como Pinga-Fogo, papel emblemático de Cacilda Becker – Foto: Claire Jean

O elenco, dos protagonistas ao coro, passando pelos técnicos, cinegrafistas e até a fotógrafa, estão vivos, presentes e entregues. Diante de tanta verdade, a plateia se esforça para manter o pique durante as cinco horas de peça e os 30 minutos de intervalo – edição de espetáculo não faz parte do mundo de Zé Celso, todo mundo já sabe. Mas vale a pena a vigília antropofágica carnavalesca, mesmo que em alguns momentos o fôlego do público derrape um pouco.

Com toda a sensualidade explícita que emana dos atores do Oficina, em nudez que gera espanto, curiosidade ou vigor, dependendo de quem vê, o espetáculo apresenta nomes fundamentais da história do teatro brasileiro, pouco lembrados ou cultuados, como Ruth Escobar (Camila Mota), produtora do espetáculo Roda Viva, do Oficina, censurado e perseguido pela repressão da ditadura militar. Há também um ainda libertário Caetano Veloso (Lucas Andrade) da década de 1960 – bem diferente do atual em sua cruzada pela censura prévia às biografias –, com sua tropicália que convive em harmonia com a mesa de pingue-pongue para os amigos em seu apartamento paulista, e o apaixonado crítico teatral Decio de Almeida Prado (Beto Mettig), entre outros.

Danielle Rosa surge sensual em uma das cenas do primeiro ato – Foto: Claire Jean

Fatos históricos importantes como a morte do estudante Edson Luis em 1968, morto por militares – e fundido com o atual Amarildo na montagem – e a passeata contra a censura com atrizes de peso à frente também fazem parte da obra.

Zé Celso e Marcelo Drummond ainda rememoram um episódio que marcou a cultura e a imprensa nacional: a devolução dos prêmios Saci, concedido pelo Estadão. Na época, o jornal publicou editorial defendendo a censura da peça Roda Viva, o que levou os artistas a tomarem tal atitude, que contou com o apoio de Cacilda Becker, na época a maior atriz do Brasil.

Intensa e presente: Camila Mota, a Cacilda Becker do primeiro ato da peça – Foto: Claire Jean

Camila Mota e Sylvia Prado se dividem no papel-título com maestria. Ambas são grandes atrizes com audácia para aceitar viver Cacilda. Nash Laila, que entre outros papeis faz Cleyde Yáconis, irmã de Cacilda, e também o personagem Pega-Fogo, o moloque que trouxe respeito ainda maior à carreira de Cacilda, também se sobressai com forte presença e entrega desmedia. No mesmo tom estão Ana Hartmann e Danielle Rosa, responsável por algumas das cenas mais sensuais da montagem.

A música feita ao vivo por Adriano Salhab, Carina Iglecias, Felipe Botelho – que dirige a banda – , Giuliano Ferrari, Juliana Perdigão, Letícia Coura, Nana Carneiro da Cunha e Pedro Gongom Manesco é outro destaque da montagem. Como sempre, os músicos do Oficina envolvem a plateia com sua música inebriante que dá ritmo preciso à encenação.

Cacilda!!! é um grito de resistência nacional em um mundo artístico repleto de pelegos. É teatro que não olha para seu próprio umbigo. Muito pelo contrário, olha para seu entorno, para a rua, para a cidade, e brada por revolução a plenos pulmões.

Sylvia Prado, como Cacilda no segundo ato: entrega do prêmio Saci é lembrada – Foto: Claire Jean

Cacilda!!! Glória no TBC – Capítulo 1
Avaliação: Muito bom
Quando:
Sábado (9) e domingo (10), às 18h. 5 horas. Até 10/11/2013
Onde: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 40 (inteira); R$ 20 (meia-entrada); R$ 5 (moradores do Bixiga mediante comprovante de residência)
Classificação etária: 18 anos

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