Entrevista de Quinta: “Faço teatro por legítima defesa e por anarquia”, diz Marcelo Marcus Fonseca

Marcelo Marcus Fonseca, no Teatro do Incêndio: garra na falta de grana – Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

O Teatro do Incêndio resolveu arregaçar as mangas e mergulhar até 15 de dezembro de 2013 no projeto Primavera do Incêndio, com três peças em cartaz ao mesmo tempo e leituras dramáticas.

Além de A Baby Sitter, que encerra temporada no Sesc Pinheiros neste fim de semana, o grupo ainda apresenta em sua sede, na rua Santo Antônio, 723, na Bela Vista, em São Paulo, os espetáculos Fim de Curso e São Paulo Surrealista.

O Atores & Bastidores do R7 foi até a sede da companhia com sua fachada grafitada e conversou com Marcelo Marcus Fonseca, diretor da trupe, nesta Entrevista de Quinta.

Ele falou da dificuldade de fazer teatro sem financiamento público, falou da deficiência da atual Lei do Fomento, lembrou o começo da carreira na década de 1980 e afirmou que que realiza seu ofício “por anarquia”.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Por que você resolveu fazer esta mostra Primavera no Incêndio?
Marcelo Marcus Fonseca – A gente iria ficar com o Baal – O Mito da Carne até o fim do ano, mas o Sesc me telefonou querendo fazer o projeto de A Baby Sitter, que a gente tinha enviado para eles no ano passado. Aí, como estávamos começando a fazer Fim de Curso, que é do mesmo autor, o francês René de Obaldia, resolvemos fazer a mostra e colocar também São Paulo Surrealista.

Como vocês estão sobrevivendo?
Este foi um dos motivos também da mostra. Estamos sem apoio da Lei de Fomento, sem ProAC, pagando um aluguel altíssimo… Nós só tínhamos a nossa possibilidade de colocar a companhia para trabalhar com nossos espetáculos.

Está dando certo?
Está dando certo parcialmente. Não é possível viver da bilheteria como uma grande produção que tem dinheiro para investimento grande em mídia.

É difícil sobreviver fazendo teatro de grupo em São Paulo?
É muito difícil! Meu grupo hoje está com mais de 30 pessoas e todas pessoas precisam sobreviver, pagar os aluguéis, comer. A gente não consegue produzir decentemente os espetáculos sem um apoio do governo.

“Lei do Fomento não acompanhou crescimento dos grupos”, diz Fonseca – Foto: Eduardo Enomoto

A Lei do Fomento não dá mais?
A Lei do Fomento do Teatro, que é municipal, é nossa maior conquista, mas ela não acompanhou o crescimento dos grupos em São Paulo. A Lei do Fomento tem de entender que 30 grupos por ano subsidiados não condiz mais com a realidade muito maior de cena teatral paulistana que ela própria criou.

Por que vocês resolveram investir em espaço próprio?
Tivemos um acesso de loucura e investimos no espaço. Por mais difícil que seja, conseguimos um importante acervo de figurino, luz, temos liberdade de ensaiar e pensar dentro daquele espaço. São coisas que muitos artistas não têm. Se a gente não tivesse feito isso não teríamos o acesso de loucura de fazer três peças em dois meses. Isso de criar um repertório é um desejo nosso para o começo do ano que vem. Atualmente, estamos com quatro espetáculos prontos para serem apresentados em qualquer lugar: Fim de Curso, A Baby Sitter, Baal – O Mito da Carne e São Paulo Surrealista. Para manter tudo isso a gente nunca sabe como fará, o que dirá o dia de amanhã. Hoje, ainda estamos conseguindo trabalhar. Estamos correndo atrás de patrocínio.

Como entrou no teatro?
Eu sou de São Paulo, nasci em Santo André e morei em Taubaté. Cheguei em São Paulo com 12 para 13 anos. Vi um programa de televisão falando de um curso de teatro. Eu fui e fiz três semanas, era aos sábados. Aí, um grupo estava saindo para fazer uma peça infantil. E eu, em vez e ir para o curso, ia ver a peça. Comecei a ver teatro, fui começando a conhecer este cenário, que era o teatro paulistano da década de 1980.

Como era?
A cena paulistana de São Paulo naquela época era uma cidade do interior! Conheci o Fauzi Arap, o Plínio Marcos, o Marcos Caruso, Celso Luis Paulini, que para mim era um Beckett brasileiro.

Você se metia com essa gente tão novinho?
Sim! Eu frequentava as leituras, ia às reuniões, tinha 14, 15 anos. Eu ficava olhando e eles pareciam uns oráculos para mim. O Celso inclusive me contou certa vez que tinha feito uma peça para mim, Aquela que Não Sai dos Nossos Braços, mas ele morreu e não acharam nem o rascunho da peça!

E você foi se enturmando…
Assim fui conhecendo pessoas, meus mestres, que na maioria dos casos me deram livros, me dirigiram, conversaram muito comigo…

Quando você virou diretor?
Foi aos 22 anos. Quando eu virei diretor de teatro eu tive a sorte de duas pessoas acharem isso muito natural e interessante, o Fauzi Arap e o Zé Celso me orientaram muito. O primeiro espetáculo que dirigi foi Exagerei no Rímel, isso me ajudou na direção para sempre. Era um exercício. Três cenas curtas onde provava que ação dramática era uma coisa e movimento era outra completamente diferente, foi em 1993, os atores não se moviam. Foi num lugar que nem existe mais. As coisas no mundo vão acabando… [pensativo] A segunda peça já foi parar no Sesc Consolação. Foi Os Olhos Cor de Mel de James Jean, com a Patrícia Lucchesi e Kate Hansen.

Como nasceu o Teatro do Incêndio?
O Incêndio nasceu logo no começo da minha carreira. Desde 1987, eu era ator. Em 1985, eu quis dirigir um Brecht, e o destino me levou à primeira peça dele, Baal. Mas eu não tinha dinheiro, nenhuma perspectiva, mas queria fazer aquilo. Tive a sorte de ter o apoio do Antônio Carlos Sartini, que hoje dirige o Museu da Língua Portuguesa, mas na época era diretor de cultura na Secretaria de Estado da Cultura. Ele me apoiou muito. Ele acreditou que eu poderia dar certo e me deixou fazer algumas coisas para dar um passo adiante. Ele permitiu que eu fizesse residência na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Como foi?
Fiquei dez meses ensaiando sem saber o que fazer, e o Fauzi Arap ia me ver, me xingava, dizia que eu estava errando, mas com o tempo foi dizendo os acertos também [risos]. Como fiquei dez meses ensaiando com um monte de gente, você acaba formando um grupo. Ali nasceu o desejo de fazer peças com aquelas pessoas, criar vínculos. Aí estreamos o Teatro aos Tragos, nasceu no sacrifício. Estreamos Baal – O Mito da Carne em 1996, e o Zé Celso nos convidou para fazer a temporada no Teatro Oficina. Aí foi um sucesso!

E como veio nome Teatro do Incêndio?
Em 2000, mergulhei no Artaud, e vi a trilogia do Roger Vitrac, que trabalhou com ele, que tinha esse nome. Na hora pensei: isso é nome de um grupo de teatro. Aí trocamos o nome para Teatro do Incêndio.

Qual conselho você dá a jovens diretores?
Um conselho que eu daria para diretores novos? Como se torna um diretor? Peter Brook, em O Ponto de Mudança, fala: ‘dirija em qualquer lugar, em qualquer direção, de alguma forma’. Porque a energia do trabalho gera energia. Não importa como, você precisa fazer!

Por que você faz teatro?
Por necessidade, por legítima defesa e por anarquia.

“Faço teatro por legítima defesa e por anarquia”, Marcelo M. Fonseca – Foto: Eduardo Enomoto

A Baby Sitter
Avaliação: Bom
Quando: Sexta e sábado, 20h30. 60 min. Até 9/11/2013
Onde: Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, Pinheiros, SP, tel. 0/xx/11 3095-9400)
Quanto: R$ 4 a R$ 20
Classificação etária: 14 anos

São Paulo Surrealista
Quando: Quarta e quinta, 21h. Até 12/12/2013
Onde: Teatro do Incêndio (r. Santo Antônio, 723, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3107-2578)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

Fim de Curso
Quando: Sexta, sábado, 21h; domingo, 19h. Até 15/12/2013
Onde: Teatro do Incêndio (r. Santo Antônio, 723, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3107-2578)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)

Leituras Dramáticas
Quando: Terça, às 20h. Até 10/12/2013
Onde: Teatro do Incêndio (r. Santo Antônio, 723, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 3107-2578)
Quanto: pague quanto der

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1 Resultado

  1. novembro 22, 2013

    […] livro Também na terça (26), Marcelo Marcus Fonseca lança seu segundo livro: De Dionísio para Koré, pela editora Kazuá, às 20h, na sede do Teatro […]

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