Crítica: Como vítima da tortura e da guerra, Marieta Severo se consagra no espetáculo Incêndios

Uma grande atriz em um grande espetáculo: Marieta Severo em Incêndios – Foto: Leo Aversa

Por Átila Moreno, no Rio
Especial para o Atores & Bastidores*

O espetáculo Incêndios queima qualquer possibilidade de alienação, fuga e quietude. Gera uma combustão dramática, mas sem deixar luz pelo caminho. “Que mundo é esse onde os objetos têm mais esperança do que cada um de nós?”, indaga a personagem principal, já no início.

Marieta Severo, como Navval (leia entrevista exclusiva com a atriz), personifica o fruto de uma guerra, que nasceu vívido, cheio de esperança. Mulher que aprende a ler sozinha nos confins da tragédia, mas, no fim, acabou apodrecendo, e sofreu as consequências por ter se tornado fugitiva.

Num primeiro momento, Incêndios pode parecer indigesta para a sociedade. Árdua, conflitante e genuinamente reflexiva, a montagem adentra no contexto de uma guerra civil. Mostra a trajetória dos filhos deste tortuoso e complexo conflito no Líbano, que ocorreu de 1975 a 1990.

Marieta Severo vive uma de suas mais importantes personagens no teatro no espetáculo Incêndios – Foto: Leo Aversa

Conflito que é datado nas páginas nos livros de história, mas que parece não ter tido fim. No sentido metafórico, os filhos da tragédia são os sunitas, xiitas, drusos, alauitas, cristãos ortodoxos e muitos outros, que foram gerados ou cuspidos por uma mãe desnaturada: a própria guerra.

É a maternidade que interliga várias histórias paralelas. Entretanto, devido aos seus traumas, Navval sequer consegue se comunicar com seus próprios filhos, o casal de gêmeos Simon e Jeanne. E seu passado constrói um rastro de pólvora, que vai refletir amargamente na vida deles.

A peça não segue uma cadeia de acontecimentos cronológica. No começo, isso causa estranheza e deixa a história um pouco sem ritmo, arrastada e até mesmo confusa. Talvez esse tipo de linguagem tenha sido proposital, para gerar um caos em nossas cabeças.

O público será levado para a infância, juventude e velhice de Navval.  Da mesma forma, será jogado para dentro do universo da personagem, após a sua morte. A personagem ronda o palco como um espectro. Marieta Severo encarna e reencarna, com talento abissal, essa figura cheia de cicatrizes e feridas emocionais, narrando a própria história.

Do libanês Wajdi Mouawad, a peça é dividida em quatro partes, repleta de simbolismos. Incêndios faz parte da tetralogia Sangue das Promessas, que inclui ainda Litoral, Florestas e Céus. O palco é um quadrado, e todo roteiro aprisiona o espectador num suspense sintomático de quatro grandes personagens.

A filha de Navval, Jeanne (numa comedida e essencial interpretação de Keli Freitas) se expressa por conjecturas matemáticas, representando a racionalidade. O Líbano está envolto pela cultura árabe, povo que teve forte contribuição na ciência dos cálculos. Ao longo da peça, há um mergulho nesse quadrado narrativo que só se fecha no final.

O oposto de Jeanne é o personagem Simon, vivido por Felipe de Carolis. Um irmão mais acuado, rancoroso e passional, e que encontra no boxe a válvula de escape para suprimir seus conflitos com a mãe. O ator domina bem o palco, principalmente, quando seu personagem exige uma explosão dramática ímpar, sem cair em exageros.

O diretor Aderbal Freire-Filho soube conduzir com uma perspicácia invejável tamanha carga que cai sobre o time de atores, principalmente, para os coadjuvantes que interpretam vários personagens na mesma história: Marcio Vito, Kelzy Ecard, Isaac Bernat, Fabiana de Mello e Souza, e Julio Machado. Este último, por motivos óbvios, não dá pra entrar em detalhes. Mas é uma das grandes surpresas  na arte de atuação, por conseguir segurar um personagem-chave para a trama.

A história já foi levada para as telas do cinema, com direção do canadense Denis Villeneuve, e recebeu a indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar. No entanto, há de se considerar que o texto de Wajdi Mouawad não mira só o contexto da sua terra natal. “Incêndios” disseca a violência e a tortura, presentes em qualquer lugar do mundo.

Marieta Severo em Incêndios: o espectador jamais sai do espetáculo como entrou – Foto: Leo Aversa

Assim, o espectador será levado para solitária cênica e jogado no fundo de uma cela, da mesma forma como ocorre com a protagonista.

Como não fazer alusão às marcas deixadas na vida de Navval com as inúmeras vítimas no Brasil, que são silenciadas pelo tráfico, pelas milícias e pela polícia corrupta? Como não remeter ao caso de tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo, desaparecido no dia 14 de julho, no Rio de Janeiro?

Não há muita diferença quando vidas são ceifadas seja na guerra do tráfico, entre países ou entre qualquer tipo de grupo. “Incêndios” demonstra que ação e reação desencadeiam faíscas, num rastro que não parece ter fim. Um círculo ou quadrado vicioso, onde o ser humano nunca parece ter saído do mesmo lugar.

Quando as luzes se apagam e a cortina se fecha, talvez boa parte do público perceba que entrou num campo minado. E no momento que algo queima ou explode, Incêndios não permite que você saia da mesma forma que entrou.

*Átila Moreno é jornalista formado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC Minas.

Incêndios
Avaliação: Ótimo
Quando:
 Quintas, sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 19h. 120 min. Até 22/12/2013
Onde: Teatro Poeira (r. São João Batista, 104, Botafogo, Rio, tel. 0/xx/21 2537-8053)
Quanto: R$ 70 (qui.) e R$ 90 (sex. a dom.)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Parabéns a Átila pelo texto, à Marieta por sua arte e a todos os envolvidos no projeto!

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